As multifacetas de Apolo representam bem a atmosfera freestyle do disco de Zegon e Squeak E. Clean. Participações incontáveis dão clima de mash-up
O que esperar de um disco que traz um surpreendente número de convidados - são quase 40 - e ousa misturar hip hop, samba, baile funk, ragga, soul e guitarras rockeiras, tendo demorado mais de cinco anos pra ficar pronto? O álbum de estreia do N.A.S.A., projeto capitaneado pelo americano Squeak E. Clean e pelo brasileiro Zegon, tem sido aguardado por muitos, afinal, quem é que não quer ouvir o resultado da união de David Byrne e Chali 2na, do Jurassic 5, ou de Tom Waits e Kool Keith ou ainda de Karen O, dos Yeah Yeah Yeahs, e Ol Dirty Bastard, do Wu Tang Clan?
Tamanha excentricidade gera dúvidas sobre o resultado final e até nos leva a esperar por algo bagunçado e sem muito sentido. Vale fazer aqui um adendo histórico-cultural: Apolo, segundo o
wiki, é um dos mais importantes e multifacetados deuses do Olimpo, representando a harmonia, a moderação, a ordem e a razão. Sendo assim, o bem sacado título
The Spirit of Apollo me parece querer denotar duas das principais características do deus olímpico: a multiface e a harmonia.
O disco começa envolto por ares (e beats) de brasilidade e em pouco tempo o refrão cantado por David Byrne - ele que talvez seja o mais cosmopolita dos envolvidos no projeto - recheia o samba hop "The Tree People", que traz ainda de participação de Chali 2na, talvez uma das melhores vozes no hip hop atualmente. Em seguida temos "Money", o primeiro single de
Apollo, que além de Byrne tem a participação de Chuck D, Ras Congo e Seu Jorge. Aqui nota-se uma das negativas de juntar tanta gente - se é pra fazer tão pouco, existe a necessidade da participação deste ou daquele artista?
Flash Content
N.A.S.A. - The People Tree Feat. David Bryne, Chali 2na, Gift Of Gab & Z-Trip (mp3)
O disco segue e algumas fusões como a apresentada em "Way Down" - guitarra distorcidíssima de John Frusciante (Red Hot Chilli Peppers), vocal arrastado e ao mesmo tempo aveludado de Barbie Hatch, aliado às rimas fortes de RZA - tem coesão e agrada. O mesmo não pode ser dito de "Hip Ho"p, algo comum e esquecido nos fins dos anos 80 em algum ponto da Costa Leste americana. Talvez uma das participações de maior peso no trabalho, Tom Waits, sabe criar atmosferas como ninguém ao usar o tom gutural de sua voz na esquisita "Spacious Thoughts", executada ao lado de ninguém menos que Kool Keith.
Outras participações de peso como as de Kanye West, Santigold e Lykke Li estão a frente das faixas mais baile funk com sabor de mashup e refrão grudento. Destaque pra ótima "Whachadoin?", que além de M.I.A. e Spank Rock, traz ainda Santigold e Nick Zinner e já tem
remix do DJ Chernobyl no blog de Squeak E. Clean. Também é de se destacar a participação gospel de George Clinton no legítimo soul "There's a Party".
Squeak E. Clean e Zegon

Em dias de tanta
democracia na música, taxar
The Spirit of Apollo como um disco mergulhado em bagunça, sem direcionamentos e blábláblás sem fim é querer nadar contra a corrente. O espírito de Apolo é o espírito de 2009 ou em outras palavras, o nosso
zeitgeist.
Mas achei o disco extremamente previsível, sempre com um gosto de "já escutei isto antes".
Conseguiram jogar até o spank rock nesta previsibilidade. Em nenhum momento me empolguei, me senti meio congelado naquela mistura que o hiphop fazia no final dos 90.
Com certeza o nome dos convidados pesa muito mais do que eles acrescentaram para as músicas.
Muito alarde para pouco desafio.