Dupla italiana mostra eficiência em produzir (e ressuscitar) o artcore, sub-gênero do polpudo e paradoxal hardcore eletrônico holandês
O MC anuncia que estamos de volta ao estilo de 1994, e os breakbeats reforçam a lembrança dos anos dourados do jungle inglês, evocando os mesmos sentimentos que o recente
álbum de estréia do produtor Zomby. Só que os compassos são marcados pelo 4x4 de bumbos distorcidos e microsamples do vocal que funcionam como a base rítmica nos tiram do transe da nostalgia raver. Depois da virada, camadas sobrepostas de synths gordos dos primórdios trance despejam melodias em escalas notoriamente sinistras, que variam tanto quanto a modulação superfiltrada dos seus timbres.
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The Twins Artcore - Return Of Artcore (mp3)
Era o som da rave holandesa, muito distante de suas origens britânicas. O "hardcore" inglês era uma mistura de techno, breakbeats, samples de vocais nu energy e tudo mais que o Altern8 popularizou; já na Holanda, o hardcore era somente outra denominação para o
gabba - o som local que surgiu na cena hooligan de Rotterdam (especialmente entre a galera mais violenta do time local, PSV Feyeenord),

que apesar de todo o extremismo supostamente "underground" no peso, nos temas e na velocidade, vendia absurdamente bem e atraía multidões de gabbers "no visual" para festas cada vez maiores.
A batida marcial 4x4 era produzida como todo o resto da dance music: com a boa e velha TR-909, a bateria eletrônica mais popular da Roland. Só que a velocidade ia por volta dos 180 BPM com todas as peças saturadas de distorção, especialmente os kicks. As melodias eram criadas em sintetizadores Juno travados no preset "hoover", com o típico som de cornetas densas que marcou o estilo. E na maioria das faixas, as vozes dos MCs se confundiam com samples de filmes de gangster - Al Pacino, De Niro e Joe Pesci gritando seus "fuck you" com forte sotaque italiano.
ITALO-GABBAE não por acaso, também são italianos os dois produtores que resgataram esse som tipicamente holândes. A Itália, muito mais que a Bélgica ou a Alemanha, sempre esteve ligada ao gabba, tanto pelos inúmeros selos de ítalo-hardcore (como D-Boy e Traxtorm, dos Stunned Guys) quanto pelo line-up semelhante das maiores festas nos dois países. Os irmãos Giuseppe & Daniele Scaccia, ou
The Twins Artcore, já exploraram a sonoridade oldschool em suas primeiras faixas, às vezes acertando como na poderosa versão da clássica "Ruff in the Jungle" do Prodigy (ouça abaixo), mas pecando por um certo mau gosto ao querer tirar alguma referência boa do happy hardcore, como na sua faixa de estréia "Tranz Lirix". Neste novo EP assumiram de vez o artcore e se provaram verdadeiros mestres nesse estilo.
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The Twins Artcore - ruff in the jungle (mp3)
A outra faixa do lado A, "Adrenaline", também investe na pegada trancecore dos sintetizadores, que parecem sampleados de algum vinil original do selo-referência Ruffneck, enquanto o lado B abre com a versão original de "Hyperdome". Esta, um pouco mais lenta e dark sem deixar de ser pesada, seguida pela versão remix do DJ X-Fly, outro italiano que dispensa sutilezas e solta logo no primeiro compasso kicks quase quadrados de tão distorcidos. E a faixa fica mais brutal até o fim da segunda parte, mesmo quando apela para clichês que ninguém mais tem coragem de usar como os claps carregados de distorção no contra-tempo dos bumbos
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The Twins Artcore - Hyperdome (mp3)
Ainda é cedo pra acreditar que esse EP marca o retorno de um sub-gênero tão específico quanto o artcore, mas o lançamento vem carregado de significado extra, graças a certos detalhes. Pra começar é a primeira aposta do tradicional selo
Mokum em novos produtores, selos este que é casa de veteranos consagrados do hardcore como
Chosen Few e
Tellurian. Nos anos 90 o catálogo da Mokum era distribuído pela americana
Roadrunner, que na época
Os gêmeos do artcore

faturava muito mais com CDs de metal do Sepultura, cancelando então os lançamentos em vinil por volta de 97.
Mas o hardcore voltou a ter um forte apelo na Holanda, especialmente depois de 2004, quando a maioria dos selos clássicos ressurgiu e o estilo voltou a ser mainstream. Mais interessante ainda é que desde o release MOK 114, a gravadora deixou de lançar versões em arquivo digital de suas faixas, pra se concentrar somente no vinil - isso numa época em que selos essenciais de música eletrônica estão jogando a toalha por falta de mercado.
A ORIGEM DO ARTCORE E SUA MORTE PREMEDITADA
CENA HARDCORE HOLANDESA NÃO SE LIMITOU ÀS RAVES: PROLÍFICA E COMERCIAL, ENGAFINHOU-SE COM O RENTÁVEL MAINSTREAM
O hardcore dos Países Baixos derivava de um techno naturalmente acelerado (Speedy J no começo de carreira é uma boa referência) e além de referências musicais distintas, toda a cena rave de lá seguiu um caminho muito diferente do que se viu na Inglaterra.
Por volta de 95/96, uma série de restrições tinham sido impostas aos ravers ingleses, graças a uma campanha anti-drogas muito repressora que colocou as melhores festas na clandestinidade. Nesse mesmo período na Holanda, eventos como Thunderdome, Digital Overdose, Hellraiser, Megarave e Masters of Hardcore lotavam ginásios, centros de convenções e até estádios de futebol, com público pagante na casa dos 30.000. Tinha tudo para dar certo - sistemas de som e luzes profissionais, segurança total e teste gratuito das drogas dentro das próprias festas (ação pioneira de "controle de danos" que reflete a política de tolerância da Holanda). Mas o sucesso do gabba foi muito além do imaginado, e o estilo se tornou tão popular em todo o país, que a festa Thunderdome, por exemplo, tinha um programa na TV, uma revista mensal e seu próprio Energy Drink!
Hoje os donos, milionários, são os responsáveis pelas giga-festas Sensation White e Black, MysteryLand, Trance Energy, Welcome to the Future, Indian Summer Festival e todas as suas franquias mundiais como a Skol Sensation brasileira.
A GRANDE PERSONA DO ARTCORE
No auge do surgimento de novos selos investindo em sub-gêneros de hardcore, o popular DJ Ruffneck conseguiu criar um estilo próprio, diluindo o peso e a linearidade do gabba em vários loops de breakbeats do ragga jungle, embalados pelos sintetizadores do trance. O sucesso foi imediato e logo o DJ fundou o seu próprio selo, Ruffneck, especializado no estilo que denominou de artcore. A maioria dos discos eram produzidos pelo próprio DJ Ruffneck, usando uma série de outros nomes como Wedlock, Undercover Anarchist, Juggernault ou até mesmo como foi registrado por seus pais: Patrick van Kerckhoven, sobrenome que combina bastante com o tipo de som que produzia (soa como o plural de Kerkhof - cemitério em holândes).
O selo Ruffneck foi tão bem sucedido comercialmente que despertou a ganância da distribuidora XSV, comandada pelos produtores de gabba conhecidos como Human Resource, amigos de Patrick até então. Numa disputa judicial eles ficaram com o nome e o logo Ruffneck, e Patrick com os direitos das faixas lançadas. Decepcionado por tomarem seu próprio nome, o DJ Ruffneck tentou continuar seu trabalho através de novos selos, como o Gangsta Audiovisual. Mas o som foi aos poucos envelhecendo e se as vendas não eram más, a crítica geral era de que as faixas estavam sendo produzidas no "piloto automático". Percebendo os rumos que o hardcore estava tomando, Patrick deliberadamente "matou" o artcore, encerrando o trabalho dos novos selos e montando um novo, mas desta vez escondido por trás de dois produtores que sempre o acompanharam: Endymion e Nosferatu. E novamente as idéias musicais de Patrick ditaram as tendências do estilo.
PATRICK VAN KERCKHOVEN

O selo Enzyme e seus inúmeros sub-labels traziam um hardcore mais sério, mais tecnológico e com uma influência marcante do techno industrial mais sombrio. Depois de alguns anos, Patrick até se animou a trabalhar com o artcore novamente e criou um novo sub-selo especializado dentro da Enzyme chamado Ruff-Tek, mas as faixas novas estavam muito mais próximas do darkstep/drum & bass inglês do que do artcore que ele mesmo tinha inventado. Conhecido pelo zelo quase paranóico com que cuida de suas criações desde que perdeu o nome e o logo para a XSV, Patrick ainda não se manifestou sobre esse ressurgimento do artcore, mas é bem provável que os seus advogados vão trabalhar muito nos próximos meses, já que nessa cena as cifras envolvidas nunca tiveram nada de "underground". Assim como certo aspectos e momento do próprio som, que pode profanar qualquer conceito under com samples como o do ABBA feito pelos italianos. Ouça.
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The Twins Artcore - pakthe crazy man (mp3)
puta merda, só sendo holandês pra aguentar mais que meia hora dançando isso, aquela tal Hakkuh - vê lá no Youtube - , que dá cãibra só de ver alguém dançando, aff...
É a furacão 2000 da holanda!
E na bélgica tem muito gabba! Muito mesmo! Mas hoje tudo ta virando hardstyleeee
@ Fabio - na época em que surgiu, o artcore soava bem diferente do gabba mais tradicional, especialmente nos synths, os do gabba eram mais simples com menos notas na cadência do bumbo e depois do Ruffneck o próprio gabba começou a expandir as referências, usando mais loops de breakbeat e melodias mais próximas do trance.
O Na holanda o povo dança esse ritmo e alguns ainda mais rápidos em festas bem longas - os aditivos fazem parte da cultura, mas a disposição física deve vir de anos de ciclismo! : D