A construção da carreira de DJs, produção por Gui Boratto e Ableton Live, pirataria e tendências musicais
O segundo dia de Rio Music Conference foi uma bela sequência do dia anterior com boas novas discussões e aprendizados. Afinal, além da apresentação da nova versão do Ableton Live, também houve um workshop sobre produção com ninguém menos que Gui Boratto. Dentro dessa perspectiva (menos atrasos, formato azeitado, novos convidados), o
rraurl.com marcou presença nas palestras que começaram por volta das 17h30, com o forte sol carioca já dando um descanso.
A primeira palestra, Internet, I Love You, prometia uma discussão sobre Internet dentro de vários aspectos da cena e da cultura eletrônica. Prometia. Um dos fatores mais perceptíveis no evento era um certo arraigamento do incansável (e já maçante) assunto de mercado digital, de indústria fonográfica online, muito acima da evolução musical e de cenas pelo meio online. Aliás, nada do que era discutido no âmbito musical deixava de passsar pelo crivo dos negócios e assim o foi até a última palestra do dia/noite - uma prova, para o bem e para o mal, de como a eletrônica brasileira está arraigada até suas mais fundas raízes nas cifras, trâmites e vontades do mercado. Esta primeira palestra deixou isso bem claro, e pecou por trazer apenas o ponto de vista dos defensores do controle do uso e usufruto da internet e dos Direitos Autorais, sem nenhum contra-ponto, como representantes da licença GNU, do software livre e, especialmente, do Creative Commons.

De todos os pontos abordados alguns se destacam, como por exemplo a conclusão de que o fluxo massivo de informação aumentou a necessidade do consumidor em adquirir mais músicas por um menor preço ou que o mercado atual deveria se adaptar a essa nova realidade ou morreria - o fato de que milhões encaram a música já como um bem gratuito e de fácil alcance foi relegado à ilegalidade, ignorado e severamente combatido. Mas isso é o simples temor da indústria, como se viram nas palavras do executivo representante da EMI Music Brasil, André Matalon, "(...) as gravadoras têm que encarar a internet como seu futuro, ou vão morrer."
Em um mercado permeado de executivos paleolíticos é completamente pertinente a afirmação e os números apontam nessa direção. Foi o que demontrou José Celso Guida, diretor executivo da Associação Brasileira de Música Independente (ABMI), deixou bem claro ao dizer que 55% das transações entre empresas fonográficas são feitas pela internet e que no Brasil existe um quantitativo de 43 milhões de internautas. No alto das discussões, surgiram ainda opiniões absurdas como "pirataria não existe".
GUI BORATTO, LÓGICOO workshop de produção musical básica com Boratto foi o mais concorrido de todo evento. No primeiro dia, a super lotação do auditório para o workshop de remix com o Memê, acabou por alertar os produtores e houve forte cerco por parte deles para impedir a entrada além do ideal (em torno de 40 pessoas). Entra-se no auditório, onde um Gui Boratto sorridente, bebericando uma cerveja, aguarda seus "alunos."
Gui pega seu Macbook e abre o software de produção Logic, dando início a uma incessantes classe de loops, edits, cuts, compressors, synths, efeitos, e por aí vai. Ao contrário de Memê, que é didático e bastante carismático, Gui Boratto é prático, prefere demonstrar do que falar. Momento mágico foi ter a sala em silêncio absoluto para perceber a automação de um filtro em um determinado canal de uma faixa. E seus desenhos? Tal qual um professor de Biologia, que desenha esse ou aquele determinado aparelho humano, Gui demonstrando o desenho de uma onda sonora ou de uma especificação mais técnica. Sim, técnico...de dar nos nervos às vezes.

O grande barato do workshop foi a lucidez perceptiva do produtor, que ao comentar a criação de música, disse: "Quando se faz música não se pode deixar de ter em mente que ela é um produto e que este tem um consumidor," - afinal, não existe um produtor que não gostaria de ter sua música apreciada no gênero/cena que fosse. Em outro momento ele comparou analogamente a produção de uma faixa a uma sala. Mas, sempre que possível, explicava algum efeito ou característica sonora tanto dele, como de seu tempo, ligando-a à cultura clubber ou geo-espacialmente.
Mais à noite, houve a apresentação do Ableton Live 8 por Amaury Groc, alemão, que vem a ser o especialista de produto da própria Ableton. Um rapaz simpático e de timidez, que trocou o nervosismo pelo entusiasmo ao falar das melhorias no software mais amado de DJs mundo afora. Foi nesse clima que a classe viu e ouviu o novo looper, o novo Operator e melhorias muito mais técnicas, como a de LFO de synths e moduladores que, agora permitem um controle completo através da interface gráfica das ondas modulares. A apresentação é longa e detalhada, com demontrações e práticas por parte de Groc, lembrando as longas apresentações do Surface (Microsoft) em feiras tecnológicas.
E o grande mérito da apresentação foi perceber a aposta que este mercado estrangeiro de tecnologia musical vem fazendo no Brasil, fruto da evolução da e nossa noite e de grandes produtores que insistem em aparecer por aqui.
DJs E O CAMINHO DAS PEDRAS
Na palestra mais acalorada do segundo dia da RMC, Edo Van Duyn (3Plus), Angelo Ktenas, gerente do MySpace BR, e os DJs Marlboro, Anderson Noise e Léo Janeiro discutiram o "networking de sucesso" para, debatendo o fato óbvio de que não basta ter técnica e bom gosto. Networking na palestra inclui desde a relação (amigável, rentável ou até promíscua) dos DJs com promoters, agências, o público e outros elementos da cena, como o alcance social de ferramentas de divulgação da internet e afins. Diz Edo, um dos nomes por trás da maior aglutinadora de disc-jóqueis do país: "A agência sozinha não é capaz de fazer a cerreira de um DJ, ela é apenas um suporte. É preciso existir uma troca de informações e idéias entre agência e artista"; no caso da web 2.0, "o network não é só agência ou contratante, é todo mundo", resumiu Ktenas.
Dadas as premissas, a palestra degringolou positivamente. Entre declarações inspiradas do mineiro Anderson Noise, notoriamente um dos pioneios no uso de ferramentas como sites e webtv para divulgação artística, a discussão ganhou força. "Eu acho que quanto mais tecnologia, quanto mais gente trabalhando, melhor, porque só aí a gente vê quem é quem", disse Anderson, entre petardos como "prostituta fala que é modelo e qualquer peão hoje fala que é DJ". Polêmicas à parte, Noise lembrou que os line-ups dos grandes festivais hoje tem preocupação apenas com quem é grande e com quem "faz o networking", ignorando toda uma nova geração de DJs e produtores jovens.
Este desconjunto entre o que uma nova geração quer e o que está estabelecido comercialmente também deu o tom no debate de "Novas Tendências Musicais", que trouxe o sempre polêmico embate underground vs mainstream, massificação vs suprainformação, entre outras dualidades. Na mesa, o radialista britânico Pete Tong (BBC), o editor do rraurl.com Jade Gola e Ben Murphy da DJ Mag UK, o PR do Beatport e os DJs e empresários Renato Ratier e Renato Lopes, este último destacando bem novos cenários paulistanos de festas: "Dada Attack, Database, KOTDF, Boss in Drama são representantes de uma nova geração de DJs e produtores jovens e com enorme facilidade de assimilar tendências, com influência da música pop e muita facilidade no trato com a tecnologia. Esses novos nomes mostram uma nova forma de apresentação, misturando as músicas que fazem com as músicas que gostam. É muito empolgante identificar uma manifestacão tão viva e bacana."
MERCADO VS NOVA MÚSICADa platéia o representante da Nokia Store, Adrian Harley, lembrou que os grandes festivais brasileiros são patrocinados por marcas: "o filtro alí não é feito pelos formadores de tendências como vocês - veículos, clubes, agências - mas pelo departamento de marketing de grandes corporações, baseados em tendências de mercado", opinou, trazendo o espírito do capitalismo tão presente em praticamente todas as palestras. Disse Renato Ratier: "existe por parte de empresários e organizadores um certo medo, tendo em vista que o público busca nomes mais consagrados. É uma cena que busca o novo e ao mesmo tempo é muito conservadora".
Mas como business não é tendência musical, apenas um de seus contextos, a palestra teve bons momentos de exemplos musicais e apostas. Pete Tong lembrou de Calvin Harris trocando a indietronica pelo trance, do óbvio dubstep e elogiando o Brasil, que "vive um grande momento com a chegada da Pacha". Tais gêneros também foram lembrados por Jade Gola, Ben Murphy (DJ Mag UK) e Shaw Sabo (Beatport) - "o indie dance é das categorias mais vendidas no site; e vejo para o meio de 2009 uma tendência de um dark techno minimalista, de influência house". Outros artistas e selos destacados pelos palestrantes foram Ghostly International, Bpitch Control, DFA, o lado glitch hop da Warp, entre outros.
Os dois dias da RMC University (palestras, workshops e área de convivência) são assim encerrados, dando boas vindas a quatro dias de festas com top DJs. Aguarde ainda o RRTV especial sobre o evento e um artigo comentando a relevância da conferência.
uma palestra dessas com o Gui Boratto e depois a apresentação do Live 8, pra mim já valia a viagem!
foda!