Aspiradores, furadeiras, violões reformados, sintetizadores, percussão, baixo e tensão constroem a estréia da jovem produtora Mica Levi
Micachu cai no clichê menos clichê de todos os tempos. O da música sem gênero. Mica Levi é o nome garota multi-facetada que além de cantora, é produtora, MC e tem um talento igualmente impressionante para criar mixtapes (sempre com ajuda de seus amigos). Após caminhar pelo underground inglês com seus dois singles "Lone Ranger" e "Golden Phone", ela se encontrou com o produtor icônico da música eletrônica Matthew Herbert e desenvolveu seu som único que mistura estilos e letras confusas de baixo do enorme guarda-chuva que é a música pop.
35 MINUTOS, 15 FAIXAS & 1 ASPIRADORE os 35 minutos não esperam o enorme repertório presente nas 15 faixas de
Jewellery. Sintetizadores experimentais se unem a elementos orgânicos - como violão e percussão - sempre com um clima de urgência quase criador de pânico. "Vulture", a faixa que abre o álbum, consegue transpor toda a claustrofobia sonora unindo o instrumento "criado" por Micachu, o
chu (que nada mais é que seu violão com cordas de baixo), com um aspirador, figura essencial em todo o álbum, e uma bateria extremamente desobediente. Se o seu tímpano durou mais do que um minuto nesse caos, ele é recompensado com segundos de delicadeza de aura pop.
Uma guitarra quase math rock inicia junto com o
chu a faixa seguinte, "Lips". Micachu embarca numa mistura de jazz experimental utilizando a tensão como instrumento. E o mesmo acontece com "Sweetheart", um tranquilo início se torna sujo segundos depois e logo se transforma (novamente) em um música de violão e voz que encontra sua transformação final no refrão, que adiciona todos os elementos de uma maneira "melhor" mixada. Note-se que essas mudanças todas ocorrem em precisos 53 segundos.
Sintetizadores convivem com barulhos de boca, balanço e violão em "Curly Teeth". O refrão é apresentado com instrumentos tão desafinados que é uma experiência quase agonizante. Mais uma vez, Micachu premia o sobrevivente ouvinte com o electro pop romântico de "Golden Phone", mas sem nunca desistir de suas esquisistices. "Abandon Ship" parece ser mais uma de suas viciantes faixas inacessíveis, mas que evolui na presença da estrela do grime underground inglês Man Like Me.
Micachu and The Shapes

TENSÃO COMO INSTRUMENTOE uma faceta dramática cheirando a gim é apresentada em "Just In Case" e abre o álbum para um lado mais tranquilo. Apesar de excessivos recortes, a faixa é um dos momentos mais geniais e pop do álbum. A música também possuiu as melhores frases como "I Don't have sex because of STDs" (
"Eu não faço sexo por causa das DSTs."). Pop também é a faixa seguinte, "Calculator". Claro que uma calculadora 8-bit é usada como instrumento. O modo que Micachu canta é tão tenro e a base está tão longe do caos típico que a faixa se torna reconfortante.
Um minuto e 23 segundos e muitos efeitos sobre vocal e violão constroem "Floor". Já o refrão possui elementos de miami bass e linda linhas vocais. E mesmo reclamando de um canalha, "Worst Bastard" é extremamente envolvente. Isso porque o sintetizador finalmente é usado como instrumento ao invés de arma.
As próximas três faixas do álbum são as maiores, mais arrastadas e menos mutantes. Nem por isso ruins. "Wrong" é de batida esperta e sintetizador grave, "Turn Me Well" se utiliza de batida semi-dubstep e uma furadeira, enquanto "Guts" é uma balada low-fi de violão, percussão "goteira" e uma leve distorção.
"Hardcore" termina o álbum assim como começou: rápido, cheio de humores e de pouca identificação. Ela defende sua estréia alegando ser pop e achando que sua indecisão é muitas vezes confundida com experimentação. Porém
Jewellery deve ser encarado como uma ode à indecisão e a experimentação. Tudo isso utilizando o som do baixo e do medo, assim mesmo como ela canta "Sweetheart", de forma única, a estréia mais promissora de 2009.
Porém, uma impressão é certa sobre Micachu: ela consegue ser uma das coisas mais punk, das lançadas ultimamente.
Gostei bastante!!