Em 2008 o site americano
Pitchfork Media lançou a sua
TV online e legitimou-se como um dos grandes (senão o maior) veículo de análise musical na Internet. Tal seriedade é
corroborada por críticos do antes relevante folhetinesco britânico. Só que tamanha importância vem de um fato bastante explícito para quem acompanha o
Pitchfork: eles se levam a sério demais.
Essa condição é visível também no bom livro
The Pitchfork 500, lançado pelo site em novembro compilando as 500 melhores canções do punk até 2007, ou seja, os últimos 30 anos de jovem música indie, negra, eletrônica e alternativa. É como eles dizem na intro do capítulo que trata de 2000 a 2002: "(Com a internet) era uma boa época para ser fã de música, e foram também os primeiros anos que os autores desse livro se tornaram críticos de fato. Celebramos a liberdade de ser uma revista online longe da influência da indústria para falar de qualquer coisa como uma mixtape ou um lançamento em MP3. Enquanto a imprensa tradicional é forçada a salvar suas páginas à cultura de celebridade e falar de artistas apelativos para bancas de jornais, editores online e bloggers alcançavam centenas de milhares de leitores com um critério muito mais simples - aliás, muito mais puro: discutir determinado artista e sua música por seu valor". Logo, uma provável arrogância é abandonada quando o livro divide os louros dos novos tempos da imprensa online com os leitores e outros escritores virtuais.
1977-1979: Bowie, Talking Heads e Cabaret Voltaire

De modo que, dada esta premissa, a outra condição essencial para entender esta seleção de 500 músicas é que o livro (e o site, claro), é norte-americano até o dedão do pé. Então é justificável o amor por artistas como Jay-Z, não tão relevantes em nível global, e também dá para entender como o deslumbre com a eletrônica nos anos 80 pós-disco somem com o surgimento de Nirvana em 1993 e os conseguintes anos de guitarras indies.
QUEM COMEÇOU TUDOCompilado por cinco editores e escrito em parceria com 38 resenhistas, o livro separa uma média de 17 canções por ano. Há seleção parte de sacrossantos como David Bowie, Lou Reed, Iggy Pop, Brian Eno, Kraftwerk e Sex Pistols em 1977, costurando todas as décadas seguintes na evolução do modo DIY (
do-it-yourself) de fazer música, que gerou uma evolução musical baseada na simbiose entre os sonoridades fundadas por esses artistas, proporcionadas pela revolução tecnológica.
Durante os anos 80 as seleções mostram a evolução do rock alternativo, do hip hop e da eletrônica como gêneros de fato (Kurtis Blow, Smiths, A Guy Called Gerald, Model 500, Public Enemy, My Bloody Valentine). A partir dos anos 90 a fusão sonora citada acima ganha força e os capítulos abrem destacando essa característica (de Radiohead a Smashing Pumpkins; Björk e Daft Punk).
1983-1986: Prince & The Revolution, U2, Model 500 e o techno

Os capítulos, aliás, não seguem uma ordem rigorosa por data de lançamento, mas sim são listados por quebra-cabeças lógicos montados com blocos de eletrônica, faixas de metal e hard rock, duas ou três páginas para o indie rock, e assim por diante. A concisão da língua inglesa propicia bons momentos de leitura resenhista, como no texto sobre "The Killing Moon", do Echo & The Bunnymen: "Ian McCulloch afina sua voz em algum lugar entre a sedução e a auto-absorção, e soa incrivelmente fervoroso conforme a canção segue - quase, mas nem tanto, histérico."
Claro que é mais fácil analisar músicas históricas que estão na ponta da língua do leitor semi-especializado que adquire este livro. O
The Pitchfork 500 soa também como válvula de escape para um site novidadeiro que resenha cinco discos por dia, mas não tem uma seção de antiguidades, de Tesouros,
igual o rraurl tem desde seus primórdios.
1997-1999: Aphex Twin, Pulp e o trip hop

A LISTAGEM É SEMPRE PESSOALComo o jeito
Alta Fidelidade de ser é pessoal inclusive quando tange à imprensa musical, é difícil apontar grandes injustiças no livro. Talvez seja mais contextualizador mostrar curiosidades, como quando Vitalic, um fenômeno da internet, é destacado para representar o novo electro 2000s ao invés do electroclash de Miss Kittin & The Hacker; como surge uma desconfiança quando o correspondente eletrônico do site,
Philip Sherburne, louva nomes díspares da eletrônica minimal (Studio 1 e Luomo), gênero que justamente ele toca como DJ e produtor; a chata insistência em louvar de antemão artistas como Animal Collective e o já citado Jay-Z; e a ironia gratuita de não listar "Young Folks" (Peter, Björn & John), mas sim lembrar que a canção foi tema de várias propagandas. Isso quase na mesma página em que a vencedora do
American Idol Kelly Clarkson é exaltada (!!). Quando se trata da ironia jornalística, há vezes que o feitiço vira contra o feiticeiro.
Fora as listagens, o livro traz divertidas retrancas (seções) em que destaca certos movimentos, cenas e gêneros: slowcore, rap regional, riot grrrl, new electro, italo disco, bootybass, alt-country, mashups, entre outros.
The Pitchfork 500 resume bem o espírito sonoro de uma época, e também a identidade predominante de seu veículo de imprensa: indie rock versátil. Se fosse uma edição bancada pelo rraurl, por exemplo, não gastaríamos páginas e posições discorrendo sobre o pós-grunge de 1994 - falaríamos do trance e do hardcore techno, sonoridades completamente ignoradas pelo livro, mas tão relevantes até hoje. Cada macaco sonoro no seu galho, mas todos dentro da mesma árvore que de fato se originou 30 anos atrás.
2003-2006: TV on the Radio, M.I.A. e "Crazy" (Gnarls Barkley)
