Kevin Barnes no palco incorpora o transsex George Fruit entre budas caseiros, ninjas e baixos duplos funkeados
Tocando ao vivo seu novo e celebrado disco
Tonight no clubinho Heaven em Londres, o Franz Ferdinand fez um show muito bom, embora menos "eletrônico" do que os sintetizadores do álbum insinuavam. Mas a apresentação realizada dia 20/jan não teve figuras bizarras dançando no palco, rituais com budas dourados, muitos menos o vocalista besuntou a cara. Pois tudo isso pôde ser visto no show da banda que abriu a noite: o
of Montreal.
Ao vivo, o experimentalismo da trupe de Kevin Barnes transcende o pop psicodélico e se expressa em figurinos exóticos e performances teatrais com fantasias baratas. O show é totalmente coerente com uma banda que tem músicas com nomes que, traduzidos livremente, significam algo como: "Cuidado com as canalhas prontas para casar" e "Vítimas dos estudos femininos", para ficar apenas em dois exemplos do último álbum,
Skeleton Lamping, o nono do grupo.
Desde sua aparição nos anos 90, o of Montreal tem sido uma das mais prolíficas e criativas bandas que, felizmente, vivem à margem do mainstream. No caso deles, a margem poderia ser a de um lago cercado por montanhas e com um lindo campo florido. Porque uma atmosfera ensolarada de ideais libertários e subversivos dos hippies permeiam tanto o disco como as apresentações da
No kind of rider?

banda. Apesar da ópera que anuncia a entrada do of Montreal, o início do show é, digamos, normal, parecido com aquilo a que estamos acostumados a ver em cima de um palco. Com sua pegada Bowie e estrutura um tanto convencional para uma canção da banda, "Suffer For Fashion" já coloca a galera para dançar.
Na sequência, "An Eluardian Instance" tem intervalos musicais perfeitos para o vocalista Kevin Barnes apresentar todo o seu repertório de poses e trejeitos. Com sua maquiagem pesada, roupas extravagantes e visual andrógino fica impossível não lembrar de Ney Matogrosso. Eis que, após a terceira música da noite, o baterista pega um outro baixo e a bateria é retirada. É a senha para a entrada no laboratório onde experiências sonoras e visuais começam a ser testadas.
SURREALISMO POPBem-vindo ao surreal mundo de Georgie Fruit, um transexual negro que Kevin Barnes tem encarnado nos últimos dois álbuns e também nas turnês. George/Kevin enfim entra em cena e até o fim da noite terá a companhia de alguns personagens que poderiam ter saído de um quadro de Bosch. Ao som de "Bunny Ain't No Kind Of Rider", que ao vivo ganha um teclado totalmente new wave, surgem no palco um sujeito com uma máscara de porco, um padre e um casal representando os pais do porco. O padre começa a passar um sermão no porquinho, mas acaba sofrendo um exorcismo às avessas, recebendo chifres e tendo o símbolo da paz pintado em seu corpo. Enquanto isso, preste atenção: três guitarras, dois baixos, teclados, maracas e sintetizadores fazem a festa e deixam o caleidoscópio sonoro do Of Montreal ainda mais colorido. A pluralidade da música mantém olhos e ouvidos ansiosos para saber o que vem a seguir.
BUDAS, PADRES E NINJASApós estas demonstrações da colcha de retalhos sonora do Of Montreal, enriquecida pela aparição ocasional de figuras mascaradas, "On The Drive Home" chega para mostrar um George ainda mais animado, sem camisa e com uma coroa de louros dourados. Em seguida, os dois contrabaixos em ação deixam "Id Engager" duplamente funkeada, e George canta que não quer ser seu homem, apenas brincar com você. E a brincadeira continua: budas em trajes dourados sobem ao palco e logo se transformam em ninjas, que pintam de vermelho o corpo do vocalista.

Vemos então George/Kevin sair do palco para, em instantes, voltar com o rosto coberto por espuma de barbear e cantar "A Sentence Of Sorts In Kongsvinger". E assim, com o alter-ego George, budas, padres e ninjas dançando a última canção em harmonia, termina a curta, intensa e, de certo modo, esquizofrênica apresentação. Performances tão experimentais quanto a música que a banda americana toca transforma o show do Of Montreal em um espetáculo intrigante, onde as coisas se dirigem para caminhos nada previsíveis.