No debut da sua Big Band no começo da década, Matthew Herbert estava na fúria de dizer um belo tchau para a cena do swing jazz, que aos seus olhos estava banalizada por ser voz apenas de standards e covers manjados. De fato, o músico e produtor ativista inovou em
Goodbye Swingtime, regendo sua Big Band com um arsenal de melodiosos temas e pitadas de timbres eletroacústicos.
Mas seus métodos experimentais de sampleamento causaram mais discussões do que as músicas em si. Ele havia publicado o
PCCOM (Personal contract for the composition of music), um manifesto descritivo sobre o seu processo criativo em estúdio, e passou pelo Brasil em

2004 com marcante apresentação no SónarSound São Paulo. Cinco anos depois, em
There's Me And There's You, a filosofia composicional do vanguardista tende a chamar atenção, mas desta vez ocupa o lugar certo, como pano de fundo para ótimas crias que falam por si só.
Enquanto o primeiro álbum da MHBB se parecia mais com um
Henry Mancini (autor do tema da Pink Panther) do que com um
Karlheinz Stockhausen (precursor da electroacústica/proto-eletrônica), agora as melodias assobiáveis da big band dialogam bem mais com o glitch do gênio cabeçudo. As diversas colagens de ruídos diversos a la Mutantes despertam atenção aos detalhes da plástica sonora e contextualizam os protestos. O álbum mais político da sua carreira é iniciado com o disparo de um tiro, logo na intro da deliciosa "The Story".
Flash Content
The Matthew Herbert big band - The story (mp3)
Com os sons naturais do início, entre outros samples bem explorados também em "Battery e Nonsounds", Herbert faz o falecido compositor concretista Pierre Schaeffer se balançar onde quer que esteja sua alma, enquanto que o arranjo de soul dita a sensualidade, ainda mais com a poderosa voz da cantora britânica de origem africana Eska Mtungawzi. A escolha pela diva do broken beat foi eficiente e caiu bem, principalmente sobre o naipe de metais da trupe de oito músicos nas primeiras faixas que marcam a parte mais suingada do disco - "The Story", "Pontificate", "Waiting", "The Yesness", "Battery". A voz fofa de Dani Siciliano poderia não render o mesmo peso étnico nos satíricos e discretos manifestos globais que recheiam o álbum.
Boa parte das identidades do versátil produtor está reunida no disco. Do escultor sônico ao compositor instrumental, passando pelo safado hit-maker de temas pop. Filho de um técnico de som da BBC, Herbert começou a tocar violino e piano aos quatro anos de idade, aos sete já cantava em corais e graduou-se tanto em música como em teatro. Ainda que multi-facetado nos princípios, o resultado estético do disco segue firme na linha do swing jazz sofisticado do antecessor, que contou com o mesmo maestro e arranjador Peter Wraight. Mais irônico do que nunca, o ativista injetou na beleza das canções pop letras próprias que criticam temas como guerra, religião e consumo. A hilária "Pontificate" traz Eska sussurrando "sex, sex, sex" e cantando "make love", quando o assunto é a retrógada posição do Papa sobre a AIDS África.
THERE'S NÓIS"We, the undersigned, believe that music can still be a political force of note and not just the soundtrack to over-consumption".
Como de costume, Herbert continua obcecado com o poder, e com o que as pessoas por sua vez podem fazer para mudar as coisas. Como se não bastasse o título do álbum, a declaração acima, acompanhada de assinaturas dos 18 músicos envolvidos na gravação, integra a capa que parece uma petição. Se o disco de estréia foi baseado

no texto PCCOM,
There's Me... compartilha com a visão de mundo de
"The deafening silence in political music", que Herbert publicou no blog de música do jornal
The Guardian, mostrando-se uma espécie de
one-man-Radiohead.
O exercício político do álbum tem ápice na coletividade do coro dos diversos participantes. A voz mobiliza e objetiva o discurso que os efeitos sonoplásticos deixam apenas nas entrelinhas. O áudio de 75 voluntários raspando camisinhas no chão do Museu Britânico é um divertido detalhe conceitural, mas pouco identificável ao ouvir a faixa "Pontificate". Segundo Herbert no artigo do blog, "esta é a função lúdica da música. Não é um filme, um livro ou um artigo de jornal, mas podemos usar objetos e sons cotidianos para trazer o dia-a-dia e a política para dentro da música".
A faixa "The Yesness" brilha com os gritos de "yes" que 100 pessoas de diversos lugares do mundo enviaram ao selo Accidental, casa de Herbert. O ousado músico pediu contribuição para a Rainha Elizabeth II e para o Primeiro Ministro Gordon Brown, figuras que não aceitaram participar. Ambas as cartas de resposta estão na home do seu site. Inicialmente, o disco fora concebido para ser um álbum com samples colhidos ao redor do Parlamento Inglês, mas lá de dentro foram captadas poucas amostras clandestinas.
musicalmente sem comentários.
Muito bem apontado, Marmitex, muito bem apontado!
Um luxo ler uma resenha tão gostosamente descritiva. O lúdico está não somente na leitura da resenha, mas na textura do sabor auditivo da coisa toda. Bjks.
Embora uma voz dissonante em seu contexto; seus tracks fazem qualquer dissonância ideológica ter o mais completo sentido. É uma outra língua - numa comunicabilidade que voa além dos signos convencionais.
Dá um prazer inexplicável ouvi-lo.