Misturando melodias frágeis com letras fortes, o quinteto americano alcança seu ápice
Dizer que o noise pop é algo novo é ignorar artistas como Sonic Youth, Jesus and Mary Chain e Velvet Underground - cada um dentro de suas peculiaridades. Mas negar a importância de 2008 para o estilo é desacreditar a extensa e barulhenta jornada de importantes álbuns como a estréia de
No Age e
HEALTH, além de dar continuidade a carreira de nomes grandes como Animal Collective e Deerhunter.
Porém, barulho por barulho não diz nada. E ao menos que você seja um completo estranho ao gênero, há grandes e importantes diferenças entre as bandas. Se não levar em conta o
HEALTH//DISCO, que não passa da banda remixada por outros artistas, a banda californiana não possuiu nem um contato com o lado eletrônico - a não ser em pedais e microfones distorcidos. Mas mesmo assim, o sentimento ao se ouvir uma música do HEALTH é bem similar ao ouvir um super eletrônico Animal Collective. Ambas são produzidas por sentimentos exagerados. Momentos difíceis sendo exorcizados numa parede sonora tão densa que incomoda, mas cura.
Já o barulho do No Age e o Deerhunter são influenciados por escolas muito mais populares e palpáveis. O No Age se apóia num grunge mutante que preenche ambientes, mas não soa raivoso. Enquanto, o barulho do Deerhunter é quase mudo. Ele está em frágeis linhas shoegazers, quase ambientes, que se esforçam em ser pop. Pelo menos é assim que
Microcastle, terceiro álbum da banda presente em várias listas dos melhores de 2008, soa.

Não há coração que fique indiferente às três faixas que dão início à melhor fase do Deerhunter. "Cover Me (Slowly)" começa como uma preguiçosa e nublada manhã de domingo - você se espreguiça, sente calafrios, se cobre novamente. Quando começa a ficar nebulosa demais, "Agoraphobia", assim como a fobia, irradia enorme fragilidade. "Comfort me / come for me / cover me" canta um desnudo Lockett Pund (o guitarrista) numa bela e minimalista onda reconfortante que parece reverberar em "Never Stops", cantada por Bradford Cox - e apesar de suave, a faixa introduz guitarras choronas próximo ao fim.
A viagem de "Little Kids" é se apoiar na ambigüidade entre um instrumental noventista totalmente relaxado e a letra sombria que culmina com as "criancinhas" bêbadas de gim jogando um fósforo num idoso após o embebedarem em gasolina. E além de dividir o tema com "Youth" do MGMT, ela também divide similaridades estruturais - o refrão, por exemplo, poderia se encaixar no álbum
Oracular Spectacular.
E do terror anterior, o Deerhunter se acalma na hipnótica e pacífica "Microcastle", que próximo ao fim levanta e se mostra imponente entre reverberações e distorções. Mas que volta a dormir quando o ambiente toma conta do lado shoegaze em "Calvary Scars", "Green Jacket" e "Activa". As três somadas não alcançam nem cinco minutos e meios de duração, porém carregam as mais fortes frases do álbum. Destaques para "I take what I can, I give what I have left" ("Green Jacket") e "crucified on a cross in front of all my closest friends" ("Calvary Scars").

"Nothing Ever Happened" soa como se o Stone Roses tivesse sido formado nos anos 00, mas ainda fosse capaz de fazer hits para acompanhar uma geração inteira. Refrão repetitivo garante o imediatismo, apesar da música continuar um bom tempo sem companhia de letra alguma e ainda se mostrar contagiante devido a sobreposição de camadas e mais camadas de guitarras.
"Saved By Old Times" possui uma estrutura blues fundida em bases grunges que resultam no momento inédito no álbum. Cole Alexander do Black Lips participa da faixa cantando via iChat (espécia de MSN do Mac), o que dá um efeito de rádio em sua voz. "Neither Of Us, Uncertainly", apesar de boa, tem a função de desacelerar as coisas novamente para a última faixa do álbum. E após 35 minutos, "Twilight At Carbon Lake" encerra com uma melodia sessentista a la
Twin Peaks - esquisitices inclusas.
Microcastle se mostra tão intenso, frágil e necessário, que o silêncio trazido pelo seu encerramento ainda reverbera o que você acabou de presenciar. E finalmente se entende que o barulho desse álbum não é trazido pelas guitarras, sintetizadores ou loops, e sim por sentimentos pesados e exagerados, que, mesmo escondidos em bases tranqüilas, se mostram muito mais densos que qualquer coisa que um pedal desregulado conseguiria alcançar.
E a resenha ficou bem legal! :)