Primeiro show da cantora em 15 anos no Brasil é recebido com chuva forte, animação e público ensandecido
RIO DE JANEIRO: A safra musical de 2008 no Brasil termina adubada com um dos maiores shows da atualidade: a turnê
Sticky & Sweet,
11ª 8ª da cantora/atriz/dançarina/empresária e rainha do pop Madonna, seu segundo giro mundial a estacionar em terras brasileiras. O primeiro de cinco shows no país (dois no Rio e três em SP) se deu ontem no Maracanã, e segundo cálculos extra-oficiais foram mais de 70 mil pessoas ao estádio carioca. Esse seria um número abaixo do esperado, mas compreensível frente à adição de datas extras conforme o anúncio de Madonna no Brasil ia se confirmando. Por esse motivo ouvimos cambistas e histórias de ingressos comprados para a pista a R$ 80 (preço normal - 250), e para a pista VIP a R$ 400 (preço normal - 600). O importante era pechinchar.
Nos parágrafos abaixo, impressões de quem viu Madonna pela primeira vez. Trata-se de um gigantesco e sensacional espetáculo pop, em que a palavra concerto é a definição mais correta: o show de duas horas é dividido em quatro atos (pimp, old school, gypsy e rave) em que a cinqüentona destilou faixas do seu recente
Hard Candy (maior parte do repertório da apresentação) e outras canções diluídas de sua carreira desde os anos 80. Visto ao entrar no estádio, o palco é grandioso, mas parece modesto, frente ao que se espera de um show desse porte. São cubos de telões mutáveis, um pista-círculo no meio do público na pista VIP e outros dois telões - uma parafernália menor do que a última turnê
Confessions, dita por muitos como a melhor da história da fofa (essa era uma das várias discussões madonneiras ouvidas por toda a extensão do Maracanã, que desde cedo viu uma movimentação curiosa de fãs, famílias, gays, pessoas de outros estados e afins).

O show começou por volta de 20h40, atraso natural para nossos padrões, mas que veio carregado cheio de ansiedade pela forte chuva que caía. O tempo ficou instável entre nublado e garoento por toda a tarde, e o pé d'água engrenou de fato justamente depois do
opening-act do DJ Paul Oakenfold. Esta apresentação, aliás, foi algo a ser destacado na memória do show: ridiculamente pop e, pior do que mal mixado, é não ter sido mixado: Paul, assim como Van Buuren, ilustrava seu trance-remixe-baba com seu nome e outras coisas mágicas no telão. Ele foi de Rihanna, passou por Red Hot Chilli Peppers (!), desbocou em "Seven Nation Army" e acabou mixando uma única vez no final, quando mandou a seqüência de "Born Slippy", "Toca Me" (Fragma) e "
Kernkraft 400", aquele hitaço do Zombie Nation que até caiu bem no estádio - mas na arquibancada, onde estávamos, o conversê e a ansiedade Madonneira eram maiores que a própria pseudo-rave de Oakenfold - e em pensar que na Europa
Robyn que abriu os shows...
IT'S BRITNEY, BITCH!
Após aquele blecaute que leva ao delírio coletivo pré-show, entram os telões, coadjuvantes essenciais no show, simulando um pinball de doces, talvez único momento que a temática "candy" (doce) é ilustrada. Ela surge então sentada num trono com seu cabelo frisado e o look preto de pernas de foras já conhecido. É o início do bloco "pimp" do show, em que passam rápido duas canções do último disco, "Candy Shop" e "Beat Goes On", essa com Kanye no telão. Outra presença ilustre na seqüência é Britney, que aparece nervosinha num elevador enquanto Madonna canta "Human Nature" numa versão rocker fajuta. Britney de fato só aparece para dar oi no final, e a tensão de um "concerto" cheio de covers de si mesmo poderia ser um flop total surge. Mas eis que as bases de "4 Minutes" viram um mash-up de Vogue e o Maraca canta feliz em uníssono pela primeira vez. A redenção é total quando entram os pianinhos houseiro-90s do que talvez seja sua canção mais emblemática.
SETLIST
PIMP
"Sweet Machine" (Video Introduction)
"Candy Shop"
"Beat Goes On"
"Human Nature"
"Vogue"
OLDSCHOOL
"Die Another Day" (Video Interlude)
"Into the Groove"
"Heartbeat"
"Borderline"
"She's Not Me"
"Music"
GYPSY
"Rain" (Remix - Video Interlude)
"Devil Wouldn't Recognize You"
"Spanish Lesson"
"Miles Away"
"La Isla Bonita"
"Doli Doli" (Kolpakov Trio solo)
"You Must Love Me"
RAVE
"Get Stupid" (Video Interlude)
"4 Minutes"
"Like a Prayer"
"Ray of Light"
"Hung Up"
"Give It 2 Me"
A chuva é forte. Enquanto Madonna canta um segurança aparece impávido atrás dela segurando um guarda-chuva, bedéis secando com panos a pistinha circular a cada momento que um pé não está coreografando um passo. As coreografias não são revolucionárias, muita influência esportiva (cordas, boxe) e outras coisas temáticas para determinada canção - um fato da tour de
Confessions é que a inserção do Le Parkour foi bem bacana. A essa altura me pego tentando descobrir se é playback ou não, e a distância da arquibancada (uma piscina com a chuva), não faz a dúvida ser esclarecida 100%. Mas é claro como Madonna trabalha com programações de vocais ao fundo, pronta para serem inseridas assim que ela precisa - em duas ou três canções é curioso perceber como ela não canta justamente o refrão, caso de "She's Not Me" e "Heartbeat", bons momentos do último disco que apareceram após "Into the Groove". Foi o momento dos oitentistas se emocionarem: sampleando "Apache" e com a presença de um DJ, Madonna mal cantou a música - apenas pulou corda, se descabelou com o DJ e se jogou no chão enquanto o telão mostrava bonequinhos de Keith Haring, artista ícone da época, amigo de Madonna que faleceu vítima da AIDS.
É uma enxurrada pop, que até aquele momento passava longe do cafona, algo tão suscetível para um pastiche de referências pop como esse. É como se estivessemos a frente de uma metralhadora giratória da cultura pop das últimas duas décadas: "Borderline" saiu em uma convincente versão hard rock, primeiro momento que, com certo alívio de fã, se percebe que a fofa canta. E bem. Ajuda o fato da canção ter letra marcante, uma característica da época (1983), já que hoje ela não diz nada de mais em suas letras. "Music" veio com todos os dançarinos no palco e intro com trechos de "Last Night a DJ Saved My Life" - ao fundo fotos clássicas da cantora nos anos 80 e 90, inseridas num picote audiovisual bem como fãs fazem ao subir uma música de seu artista no YouTube. Madonna não se cabe em si, as duas letras M gigantes cravejadas de cristal mostram como aquele show é uma celebração do pop acerca dela. E nada mais. Porque goste você ou não, Madonna representará no futuro muito do que hoje entendemos como liberação sexual, disco/dance music e diva pop.
Madonna e Keith Haring, pulando corda

Ansioso por ser surpreendido, não li nem assisti muita coisa da turnê antes do show. Mas tinha ouvido falar do tal "bloco cigano", que era um pouco brega. Mas ele chegou num vídeo-interlúdio (a apresentar cada bloco) em que uma criatura humanóide surge ao som de "
Here Comes The Rain" (Eurythmcs) fundida com "Rain", talvez a mais linda balada de Madonna. Na seqüência, uma aula de tecnologia LED no melhor momento dos telões, com a insossa balada "Devil Wouldn't Recognize You" ganhando todo um sabor quando Madonna, deitada numa cama, é circundada por um cubo de telões semi-transparentes, mostrando água em movimento enquanto ela canta, visceral. Toda essa variação entre adaptações, ilustrações, versões, efeitos especiais, música e audiovisual famoso em mega-shows oriundos da cultura pop americana foram ilustrados magicamente no show de Madonna. Muito mais que a própria babação de ovo à cantora, a reação a essa altura vai de espanto, admiração, aplauso e grito espontâneo - não há como escapar.
É Madonna ou a camareira?

De volta ao momento cigano, foi divertido a farra étnica cheia de dançarinos de algum país que eu não sei qual. Misturado ali estavam cultura norte-africana, flamenco, leste europeu, festa cigana e afins. "La Isla Bonita" saiu picotada num can-can árabe; "Spanish Lesson" mostrou os dotes hispânicos da cantora e um trio de violinos e cantores deu uma canja, no melhor estilo Gogol Bordello. Aliás, o vocalista Eugene Hutz, morador do Rio, era especulado para participar desse momento no show. Teria sido curioso.
O momentinho étnico se encerra com a linda versão acústica para "You Must Love Me", da trilha de
Evita, em que o close no telão (e nos binóculos) comprovou como Madonna é bonita (ao contrário de como saiu na foto na sacada do Copacabana Palace) e como ela transborda carisma musicando o amor num banquinho e violão - flagrei três com lágrimas no olhos ao meu redor.
FUCK THE RAIN AND DAAAAAANCE!O show já caminha para o final e Madonna saúda os brasileiros, disse como era bom estar de volta após 14 anos (na verdade 15), reclamava e pedia desculpas da chuva o tempo todo e, como mandava o figurino, pediu para alguém do público pedir uma música. Veio "Express Yourself", em que ela cantava uma linha e o público outro. De maneira acanhada, mas com o "ná-ná-ná" na ponta da língua, o Maracanã em uníssono não decepcionou. Conversando com o público ela mostra um certo humor bonachão, de moleca, daquele perceptível em seus
documentários de turnê, entoando cantos de estádio para amaldiçoar a chuva.
A essa hora tal praga já nem fazia mais sentido. A arquibancada era, literalmente, uma pocilga, o público na pista com capa de chuva deveria parecer uma massaroca de carne humana grudada. Um dos melhores momentos do show surgiu nessa hora, o vídeo-interlúdio "Get Stupid", momento político da apresentação que misturava algozes mundiais com celebridades louváveis (de Madre Teresa a Barack Obama). Como era o início do momento rave, o peso eletrônico veio imenso, lembrando um pouco a amplitude de um Chemical Brothers ao vivo. Assista.
GET STOOOOOPIDPor mais que Madonna não seja um live PA de eletrônica pop, é um momento único para ver a amplitude da batida eletrônica num estádio. E o melhor momento disso foi "Ray of Light" que surgiu como no CD, épica, crescente, um pop bem 1998 com o sol nascendo ao fundo no telão. Junto com "4 Minutes", que veio igual ao clipe, e a versão hard trance de "Like a Prayer", cheia de clipes com frases religiosas, foram os momentos em que a arquibancada balançou sério, perto da apreensão. Sujando esse bom momento dançante veio uma versão roqueira demais para "Hung Up", que se pelo menos teve o sample do ABBA, não soou bem como a versão guitarra de "Borderline".
Mas Madonna salvou o encerramento (não há bis) com um bate-cabelo cavernoso para o recente single, "Give it 2 Me", que deve ter feito a alegria das bees da Farme. Não é aquele tribal seco e reto, vazio. Era encorpado, amplificado e um pouco assustador pelo peso, e encerrou essa epopéia dançante e pop de forma descomunal. Não bastasse o Game Over no telão, as luzes do estádio se acenderam com o 'original mix' de "Holiday".
Tudo muito calculado, perfeito e sublime. U2 e Rolling Stones que me desculpem, mas em termos de mega-show toda uma nova referência surge para este que escreve após ver Madonna ao vivo. E fica a torcida para que não sejam outros 15 anos para a cantora voltar - ela teria 65 anos. Mas quem duvida que ela não conseguiria pular corda e cantar ao mesmo tempo? Depois de ontem eu não duvido...
Fotos: O Globo, EFE, UOL
Agradecimentos: ao jovem Edu Gola, pelos binóculos e pelo companheirismo
congratssss
Sei lá, acho que não tem muito o que falar: a madonna é foda.
Cada uma viu..........