Tido como um "comeback" da Madonna após a recepção fria de
Erotica, esse disco de 1994 adianta o amor da performer pelo r'n'b norte-americano, o mesmo tipo de sonoridade que ela procura no atual
Hard Candy, só mais relaxada. O disco é meio esquecido dentro da hoje
extensa discografia Cicconeana, mas rendeu um punhado de boas canções e pelo menos três hits que qualquer não-fã pode reconhecer em uma audição: "Secret", "Human Nature" e a baladinha "Take a Bow".
Madonna - Take a BowEm
Bedtime Stores sua majestade do pop age como se estivesse meio cansada da loucura da fase
Erotica, achando que é hora de ir embora do chillout "Sanctuary", por exemplo, é puro come-down caseiro. Então tem batidas molengas ("Secret"), momentos do mais puro pop-doce americano ("Inside of Me", dedicada à mãe da cantora, falecida em 1963) e arranjos que não fariam feio em um disco da Mary J. Blige ("I Wanna be Your Lover"). Também traz os temas caros à carreira de Madonna, como as pitadas latinas, que aqui aparecem na guitarra espanhola de "Love Tried to Welcome Me" e no fetiche-toureiro do videoclipe de "Take a Bow", do diretor
Michael Haussman. Já a faixa-título, co-escrita com Björk, é completamente clubbing anos 90, com dedo de
Neele Hooper do Massive Attack:
Madonna - Bedtime StoryEntrando no assunto videoclipe, essencial para a carreira de uma artista tão visual, é desse álbum que vem uma das canções de mais sucesso na tour que chega ao Brasil semana que vem: "Human Nature", que teve clipe dirigido por
Jean-Baptiste Mondino (com quem Madonna trabalhou em "Justify my Love") - abusado para a época, cheio de referências fetichistas e carregado de ironia. É nessa faixa, principalmente que encontramos o principal assunto desse
Bedtime Stories: o lado defensivo de Madonna.
Madonna - Human NatureEsse teor irônico/defensivo do disco ("Ooops, I didn't know I couldn't talk about sex", "EXpress yourself, don't repress yourself", "absolut no regrets") junto com a guinada a um visual mais classudo e menos chocante - aqui não tem cinto "boy toy", beijo em padre, beijo lésbico, sutiã pontudo, masturbação no palco, mesmo hoje que seja difícil imaginar que isso era chocante há pouco mais de uma década - foi uma resposta a recepção meio fria que o arriscado "Erotica" teve por parte da crítica e, principalmente, do mercado norte-americano.
Mas se a busca pelo estabelecido pode ser visto como um pedido de desculpas de sua perseguição a tabus (e por não trazer um "Vogue pt 2" para as paradas) ainda assim
Bedtime Stories trouxe uma Madonna em excelente forma, com ótima voz e impecável trabalho de produção, acompanhada de Neele Hooper,
Babyface,
Dave Hall. É como se a cantora simplesmente desse uma descansada, mas ainda assim dissesse, literalmente, que "eu fiz tudo isso e sobrevivi" (a letra de "Survival"). É Madonna se auto-afirmando, numa linha "não preciso de escândalo para fazer um bom disco".
Quatorze anos, mais forte do que nunca e sem nenhuma concorrência no posto de rainha da música pop, ninguém nem imagina que ela tenha desejado avisar que não ia desaparecer...
não sei pq, mas ele me lembra o dolores que ficava ali na vila mada, rs.
"I Rather Be Your Lover" tem uma versão legal (não lançada) com participação do 2pac.
Ótima resenha!