Stuart Price faz o Killers soar como Queen, David Bowie, U2 e até Grace Jones em novo álbum
Brandon Flowers

É necessário coragem para ser o Killers. Não por causa do blaser rosa, do gloss, do bigode, do terno dourado e das gravatas de cowboy ou de borboleta. Quer dizer, também. Mas principalmente porque tudo que eles têm feito ultimamente é caminhar fora do caminho que seus fãs esperam que eles trilhem.
De sua estréia energética com
Hot Fuss que incendiou as pistas indies do mundo com sua mistura de new wave e pitadas de ironia moderna, características que quase desapareceram no seguinte
Sam's Town, cheio de melodias grandiosas, letras pessoais dramáticas e guitarras grandes - e que ficou apelidado pela média como "síndrome de U2" pelo excesso de barroquismo nas faixas. Agora é a vez do terceiro e evoluído
Day & Age, lançado em novembro último.
PARA INICIADOS E INICIANTESPara simplificar a escolha do quarteto de Las Vegas a
quem já esta familiarizado com o seu trabalho, parece que o Killers finalmente entendeu o que queria (e o que não queria) ter feito no segundo álbum. Se
Sam's Town ainda sofria da insegurança de quem havia cantado um verão inteiro sobre "uma menina ter um namorado que parecia com uma antiga namorada sua", isso sobre sintetizadores modernosos, o sucesso dessa nova empreitada os deu carta branca para se aprimorar.
Para simplificar a escolha do quarteto de Las Vegas a
quem não está familiarizado com seu trabalho, o Killers soa como uma farinha oitentista. Mas ao contrário da sutileza moderna do synth-pop, a trupe de Brandon Flowers quer reverberar igual as maiores bandas da década perdida. Queen, David Bowie e U2 são claras influências em
Day & Age, e o Killers realmente acredita no que está fazendo. Talvez o único álbum de rock que surgiu do mercado independente a não conter traços de ironia, e, mais uma vez, para quem surgiu cantando sobre "uma menina ter um namorado que parecia com uma antiga namorada sua" sobre sintetizadores modernosos, pode ser um enorme tiro no pé. Quer dizer, tiro nos fãs.

É fácil somar dois mais dois. De um lado o numero de pessoas que sabem o que é um sintetizador e que gostam que seus álbuns sejam, ao menos, moldurados pelo instrumento eletrônico, e de outro as pessoas que acham falsetos uma característica vocal presente apenas em grandes discos, assim como sax, solos de guitarras, teclados e eco, principalmente no vocal. O Killers, então, se voltou contra seus fãs iniciais e saiu angariando novos. Tudo com a produção impecável de Stuart Price. E ganhar do álbum mais caro da história (o novo do Guns'n'Roses) nas paradas prova que os novos fãs estão em maior quantidade.
INFLUÊNCIA FORTEJá deu pra ver que a coragem de largar a new wave para o rock stadium foi justificada pelas vendas, mas será que o Killers ainda é uma banda legal? "Human", o primeiro single, não é tão hit assim, apesar de crescer após algumas audições e fazer sentido no álbum como um todo. "Spaceman", segundo single, também é boa e mais instantânea pelo seu clima acelerado - mas ainda não é um hitaço. O primeiro encontro imediato do novo álbum do Killers com o pop só acontece na quarta faixa, "Joy Ride", que começa como
"Rock the Casbah" do Clash, entra numa fase David Bowie de ombreiras, passa por break melódico a la Bono e volta para a disco do Clash.
A salada de influências continua em "This Is Your Life", um encontro da harmonia do Queen com vocais do Bono num U2 pós-punk, esperançoso. "I Can't Stay" só precisa desacelerar um pouco para se tornar
"La Vie En Rose" de Grace Jones. E "The World We Live In" deve ser uma parceria inédita de Bowie com Bono. Apesar de nome de vários artistas espalhados por essas faixas, elas ainda tem um quê de Killers nelas - e talvez por isso, soem bem.
Day & Age é para quem gostou da transição que o Killers vem sofrendo ultimamente - ou de quem gosta desses artistas que os influenciam. É melhor que
Sam's Town por ser mais coeso, mesmo não sendo tão imediato quanto. E é incomparável com
Hot Fuss (estilos muito diferentes). Pessoalmente, eu prefiro o Killers irônico, eletrônico e dançante, mas contanto que eles continuem demostrando essa evolução e sempre se mantenham alguns metros de distancia das coisas novas do U2, eles estarão num bom caminho.