A essa altura do campeonato,
Dear Science já figura em seu lugar garantido nas principais
listas de melhores discos do ano de importantes revistas e sites estrangeiros. E isso não é nada exagerado.
Os nova-iorquinos do
TV On The Radio conseguiram resolver muito bem a equação sonora que faz com que o terceiro disco de uma banda seja talvez o mais temido deles - aquele capaz de derrubar completamente a reputação ou elevar a banda um degrau acima, separando-os daqueles que não sobreviveram ao hype.
O TVotR já tinha feito bonito em seu segundo disco,
Return To Cookie Mountain (2006), que também recebeu louros de críticos do mundo todo e apresentava um som que trazia originalidade e inventividade ao art-rock moderno, misturando diversas influências sonoras com uma habilidade notável para escrever ótimas letras.
Talvez o principal segredo do TVotR seja o de conseguir produzir um álbum cheio de canções pop acessíveis aos ouvidos comuns mas sem deixar que tal acessibilidade se sobreponha à criatividade e à um certo experimentalismo que garantem às faixas aquele selo de qualidade que todo mundo procura.
UM GOSTO ADQUIRIDODear Science é um daqueles discos difíceis, feitos mais para serem mais admirados do que para "morrer de amor" por ele, demorando um pouco para ser assimilado. É um estranhamento gostoso, como um filme de suspense que te causa medo mas que não te deixa passando mal o resto do dia, e que depois aparece em lugar de destaque na sua coleção de DVD's.
O disco traz uma forte veia funky que serve bem tanto para um momento mais pista quanto para ser ouvido em casa, embalada por uma voz que sugere um cruzamento entre
Bowie e
Peter Gabriel - esse último presente também em várias influências melódicas. É música pra se ouvir batendo palmas, balançando os pés e cantando alto.
Outra influência direta é a dos saudosos
Talking Heads, o que nos faz imaginar que talvez a banda estivesse soando exatamente como o TVotR hoje em dia caso David Byrne não tivesse estragado tudo quando se apaixonou pela lambada brasileira.
MAXIMALISMO É ISSOUma das impressões mais fortes que o disco nos deixa é a de que o estúdio onde ele foi gravado devia estar lotado de músicos de várias bandas que se reuniram para uma grande jam session. Em todas as faixas, especialmente as mais dançantes, os instrumentos vão chegando e sentando á mesa como bons amigos, e começam assim a conversar, criando camadas e camadas de sons que vão crescendo á medida que a conversa vai aumentando.
É o caso da ótima "Red Dress", um funk animado com toques afro, e segue adiante em outras faixas "Golden Age" (bem Bowie), o hip-hop jazzy de "Dancing Choose" (vibrante e intensa, uma das melhores do disco), e a faixa de abertura "Halfway Home", um rock cheio de percussões e claps triunfais.
Claro que nem tudo são rosas, e faixas um pouco mais lentas e com toques meio pretensiosos como "Family Tree", apesar de belas, se sobressaem do disco por motivos que não são dos melhores: elas soam "polidas" demais.
Dear Science é o TV On The Radio vencendo a maldição do terceiro disco com talento e brilhantismo, fincando o seu lugar como uma das melhores bandas da atualidade - e como uma daquelas em que vale a pena prestar atenção.
Esse deve ser o álbum que mais ouvi em 2008. Até o shuffle do iPod insiste em só tocar ele. =)