UNKLE - Psyence Fiction
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ficha técnica
Nota: 4.7 / 5
Ano: 1998
Selo: Mo Wax / PIAS / ElektroMotor
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UNKLE - Psyence Fiction
Dez anos depois, o álbum essencial do projeto de James Lavelle e DJ Shadow
28.11.08 15:10
Lançado há dez anos pelo UNKLE, Psyence Fiction sinaliza, em grande estilo, um possível epitáfio para o trip-hop. O gênero musical, então estacionando no tempo, ficou conhecido pela fusão das batidas eletrônicas com os vocais elegantes do R&B, além de também valer-se do melhor legado do jazz pós-60.

Em Psyence Fiction sobressai a narrativa seca e direta - bem no espírito de uma época em que tornou-se escasso o espaço para utopias, sonhos e metáforas. Suas batidas angulosas e incisivas soam como um contundente comentário das relações hoje, e o que resta é um som muito sombrio e melancólico. Aclamado pela crítica internacional, aqui o disco parece não ter gozado prestígio que merece -_basta uma googlada para constatar. Curioso que recentemente a banda foi headliner da grandiosa edição argentina do festival Creamfields.

Fruto da parceria entre os DJs Shadow e James Lavelle, o trabalho conta com participações do quilate de Thom Yorke, Richard Ashcroft e Mike D., dos Beastie Boys. Na revisão, não só mantém intacta sua matéria como comprova a força de sua poética, alcançada por uma incomum mistura de samples de fontes diversas (veja a lista aqui, segundo a Wikipédia), aliados a uma criteriosa orquestração em algumas canções. Tal organização das composições preserva o mistério, o ponto cego do encantamento de cada faixa, ao contrapor a crueza da percussão, ou mesmo do desmembramento rítmico muitas vezes promovido pelo rap, com a condução pungente e melódica acrescentada pelas cordas.

IRONIA
As letras vão direto ao ponto, e seguem uma lógica cara a um bizarro espetáculo de variedades. Tratam, com alguma ironia, da solidão e isolamento, aliados a circunstâncias tão esdrúxulas quanto a que é apresentada bem no meio do disco, na vinheta "Getting Ahead in the Lucrative Field of Artist Management": a música consiste no sample do comercial de um videogame chamado Bullbaster, " a family game, fun for children/And for adults, it's exciting!".

Na caótica faixa de abertura, "Guns Blazing (Drums of Death Part 1)", versos levados pelo rapper Kool G, conduzem o ouvinte a uma vertiginosa e crua experiência, em que as mais insuspeitas rimas em torno da máfia e do submundo do crime servem a especulações, sem qualquer rodeio, sobre os limites entre a realidade e a ficção - não é à toa a citação, na música, a Tarantino e Scorcese, entre célebres intérpretes de mafiosos, uma curiosa referência ao gangsta rap, moda de outrora.

A Patota
A Patota


Por sinal, é interessante como Psyence Fiction parece situar-se em um mundo paralelo e irreal. O trabalho de pesquisa é de tal forma primoroso - algo por sinal já visto no disco Entroducing (DJ Shadow), também do selo MoWax - em que a compilação de samples convergem para um campo semântico musical eficiente em repertoriar sensações tão densas quanto claustrofóbicas.

Tais efeitos surgem já nítidos no próprio nome da banda. O som oclusivo que a letra K no meio da palavra UNKLE propicia sugere uma poderosa imagem para este disco, que tem como característica perseguir a experiência de quem está aprisionado na frustração das experiências e ambições. Tanto assim que a pulsante "Nursery Rhyme/Breather" termina com a inserção da respiração ofegante de James Lavelle.

VAMP PODEROSA
Se o disco alcançou boas vendas no Reino Unido, chegando ao quarto lugar do chart local, talvez parte de seu sucesso deva ser creditado à eficiência de sua edição musical. A coesa versatilidade do coletivo pode ser encontrada em momentos díspares, como o rap "The Knock (Part 2)", com participação de Mike D, ou na classuda "Bloodstain", momento em que brilha a parceria entre o baixo melódico e a gravidade da interpretação perfeita de Alice Temple - uma versão possível de Shirley Temple crescida e desiludida, vamp poderosa, em versos como "You don't know the size of my heart/No gain with no pain/Its time to blow this fire out".

Mesmo a emoção e sentimentalismo de um vocalista como Richard Ashcroft é potencializada na épica "Lonely Soul", e o que poderia resultar em mera auto-comiseração reveste-se de uma grandiloqüência reflexiva, em versos como "I believe there's a time when the cord of life/ Should be cut, my friends/ There's no secret to living, Just keep on walking".

Acordes lentos e reiterativos de piano dão o tom para o encerramento. Circular e gélida, trata-se de "Rabbit in Your Headlights", cantada por Thom Yorke. Conforme dito pela crítica na época, equivale a um "beijo na espinha" ou, pela própria letra da música, "Fat bloody fingers are sucking your soul away". Como é de se esperar, o vocalista do Radiohead arrasa na emoção, em uma condução plangente, rumo aos confins da tristeza. Assista ao clipe.

MP3
Flash Content
Unkle - Bloodstain (mp3)

Flash Content
Unkle - Guns Blazing (Drums Of Death Pt. 1) (mp3)

Flash Content
Unkle - Lonely Soul (mp3)

Flash Content
Unkle - Nursery Rhyme / Breather (mp3)


Flávio Aquistapace
Flávio Aquistapace
comentários
7 comentários
Fábio Petz
Fábio Petz(02.12.08)
2AprovadoQueima
adoro
álbum com faixas bem diferentes q constroem um... álbum
Ney Faustini
Ney Faustini(01.12.08)
2AprovadoQueima
Álbum muito, muito foda. É um daqueles CDs que, apesar da idade, tá sempre em rotação constante, sem ter que pular faixa (e bem lembrado a respeito de toda a parte gráfica). Eu tive o prazer de conhecer o Endtroducing alguns meses antes, então qualquer coisa que viesse do DJ Shadow depois daquilo deveria valer a pena.

Pena que o UNKLE atual já é um projeto bastante diferente, sem o DJ Shadow. O próprio, aliás, também já não entusiasma mais, infelizmente.
gui xavier
gui xavier(30.11.08)
1AprovadoQueima
Um dos melhores discos que eu já ouvi, junto com tudo mais que o Unkle já fez.

Respect!
Raul Cornejo
Raul Cornejo(30.11.08)
-2AprovadoQueima
Esse foi um álbum que cresçeu lentament no meu gosto. Achei uma decepção imensa na primeira vez que ouvi. Honestamente, foi como comer caviar: na primeira você estranha, depois tolera, na terceira está gamado e nem sabe como aconteceu.
Ainda não é meu petisco favorito de todos os tempos e nem como sempre, mas gosto mucho quando revisito.
Já que chato já é meu segundo nome aqui, não posso deixar de dizer (já que foi mencionado na resenha): Endtroducing > Psyence Fiction, pelo menos umas 100 vezes.
f-zero
f-zero(29.11.08)
2AprovadoQueima
faltou falar da arte grafica da parada e do boneco simbolo do unkle, que foi feito nada mais pelo mestre futura 2000...