Um dos principais escorregões que artistas que passam anos e anos sem gravar nada e que resolvem voltar à ativa acontece quando eles não conseguem se desligar do passado e acabam soando como pastiches de si próprios.
Um dos melhores exemplos disso é o "novo" disco do Guns'n'Roses, que levou séculos para ficar pronto e que, finalmente lançado, nos leva direto à pior fase do Guns nos anos 90.
A diva fashion musical jamaicana Grace Jones no entanto soube resolver muito bem essa equação e seu novo álbum, o primeiro em vinte anos, soa atual e moderno. Miss Jones abraça com fervor sonoridades atuais provindas de estilos como o dub e o dubstep, que casam incrivelmente bem com o seu tom grave de voz - que não perdeu o brilho com o tempo.
Traços dos trabalhos anteriores da cantora ainda são reconhecíveis à distãncia, como seus beats africanos a la "
My Jamaican Guy" e seu vocal narrativo-dominador, um certo toque de cabaret decadente aqui e ali (sintetizadores retrô passeando pelas melodias, influências de
chansons francesas, etc), mas aqui aparecem de maneira atualizada.
É o caso por exemplo da faixa "Well Well Well", que sampleia sem medo toda a batida de "
Private Life" (1980) e a moderniza, meio que reverenciando o passado glorioso da diva mas dando apenas um tchauzinho pela janela do ônibus.
Os melhores momentos do disco ficam por conta de faixas como "Williams Blood", "This Is", "Corporate Cannibal" e "Hurricane".
O FURAÇÃO ESTÁ CHEGANDO"Williams Blood" tem uma ótima linha de baixo funky por onde Grace reconhece a influência que sua mãe Marjorie Williams Jones teve em sua formação musical. "Eu tenho sangue de Williams dentro de mim", ela canta, numa faixa quase-disco densa e cheia de guitarras, que ainda faz referência ao clássico gospel "Amazing Grace'.
"This Is" é o dub/reggae que muito produtor daria o seu dedo mindinho para produzir. Estranha e acessível ao mesmo tempo, grave e melódica, é daquelas que grudam na cabeça, intercalando a voz de Grace em sua forma narrativa com o refrão cantado.
"Corporate Cannibal" é um dubstep assustador, com a voz de Grace soando como um Godzilla que pisa em cima de tudo o que vê enquanto caminha pela pista. O mesmo clima estranho/dark/opressor aparece em "Hurricane", com uma longa introdução quase acapella, mas logo caindo num trip hop de sabor jamaicano - influencia direta do músico Tricky, com quem Grace co-escreveu e produziu a faixa em 1997 para o disco
Force of Nature, que nunca foi lançado.
Tricky aliás não é a única estrela do time reunido pela cantora para esse trabalho, que inclui ainda Brian Eno, Tony Allen, e é claro a dupla Sly & Robbie, parceiros de longa data de Miss Jones em seus melhores álbuns pela gravadora Island. É Grace retornando em ótima forma, criando uma obra que atualiza seu trabalho para o nosso tempo, sem saudades demais do passado.
Amazing, Grace!
Grace = Hipnótica!