O burako é mais embaixo
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ficha técnica
Nota: 3.5 / 5
Ano: 2008
Selo: Sony/BMG, Enchufada e Fabric
Estilos: Kuduro, bass, grime, funk
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O burako é mais embaixo
Mistura de Portugal, África e Jamaica - com um pé no Brasil -, o Buraka Som Sistema coloca o kuduro no globo em sua estréia em CD.
21.11.08 09:45
 
O nome um tanto insólito do trio Buraka Som Sistema, que acaba de despejar no mercado seu disco de estréia, Black Diamond, dá uma boa pista para se investigar o som também um tanto incomum que praticam. "Buraca" é uma das onze freguesias que compõem a cidade de Amadora, pertencente ao Distrito de Lisboa - cuja capital é, evidentemente, Lisboa, Portugal. Beleza. O importante aqui é ter em mente o fator luso-africano da equação, pois você, que não faltou às aulas de Geografia, sabe que os portugueses colonizaram parte da África. E "Som Sistema" nada mais é do que o aportuguesamento do pilar fundamental da cultura jamaicana na década de 60: o sound system, ponto de convergência dos principais elementos da música jamaicana (DJ, MC, remix e a atenção no termômetro da pista).

Acontece que, assim como hoje é a Inglaterra que mais aderiu ao espírito do sound-system jamaicano, alguns dos ritmos africanos foram traduzidos por imigrantes aos subúrbios portugueses. Entre eles o kuduro, sério candidato a hype. É um ritmo eletrônico que se desenvolveu em Luanda, capital de Angola, no começo dos anos 90, sob a batuta do cantor e produtor Tony Amado que tentou criar "algo que fosse em cima daquilo que eu ouvia bastante, como o house music e o funk". Foi colidindo a métrica do house com a batida convulsiva do miami bass e do ragga jamaicano,
DE QUEM É ESSE KU?
O nome "kuduro" é isso mesmo que você está pensando. Belo dia, Tony Amado viu na TV um filme com o ator e lutador fake Jean Claude Van-Damme, em que protanoizava uma cena de dança. Rindo à beça de sua "bunda dura" ("cu duro" no melhor português coloquial), Amado batizou o ritmo e ainda inventou uma coreografia baseada no bizarro estilo do galã belga.
nutrindo os três no rio subterrâneo de uma invencível herança tribal, que o kuduro fundiu a África com a modernidade e fez a cabeça dos bem informados manos portugas Lil'John, Riot e Conductor, que não só embalaram toda esta aventura em Black Diamond, como foram um pouquinho além.

Após um EP de êxito razoável (From Buraka to The World, de 2007), o BSS potencializou seus melhores atributos (como a sofisticação das produções e a experimentação nos arranjos) e aterrissou no disco de estréia pensando o kuduro já em outras esferas - mal comparando, enquanto Tony Amado é o DJ Marlboro do kuduro, o BSS é equivalente ao Turbo Trio. Mesmo as faixas mais próximas do kuduro "roots" aqui, como "Tiroza", que conta com o eloqüente flow do MC Bruno M, e "Kalemba (Wegue-Wegue)", chicletuda colaboração da MC Pongo Love, são mais orientadas ao gosto, digamos, europeu. Subtrai-se um pouco do fator tribal em favor da ornamentação eletrônica - mas nada tão radical que force o indômito ritmo angolano a ceder lugar a uma asséptica e vazia preponderância das elipses eletrônicas.

Também o que torna, neste disco, o som do BSS algo menos africano do que europeu, em outras faixas, não é tanto a produção em si, mas a forma com que eles organizam os elementos que se dispõem a investigar, tendo o kuduro como máximo denominador comum. Crentes - como Tony Amado, aliás - no poder evolutivo do funk carioca, os produtores linkam seus elementos dispersos convocando a MC Deize Tigrona na hilária "Aqui Pra Vocês"; o grupo britânico Vírus Syndicate na indecisa mistura de kuduro, grime e rap de "Black Diamond"; e a anglo-cingalesa M.I.A., histriônica como sempre, na poderosa carta de intenções "Sound Of Kuduro". O elemento jamaicano fica subentendido na herança cultural que resultou, justamente, no nascimento de toda a música urbana baseada no conluio entre DJ, MC, pista e os climas dubby de determinadas faixas.



Flash Content
Buraka Som Sistema - Sound Of Kuduro (Feat M.I.A., Dj Znobia, Saborosa, Puto Prata) (mp3)

O KUDURO PROGRESSIVO
A mistura do BSS, até aqui, em graus um pouco variáveis, e sob camadas um pouco diversas, ainda colocou o kuduro na reta (!) e o seu melhor atributo - o apelo rebolativo - em primeiro plano. Enquanto seguem assim, beleza. A veia dance experimental de Black Diamond, no entanto, além de colar ao trio o suspeito título de serem precursores do "kuduro progressivo", nos revela em algumas faixas uma vocação digna de nota mais pela coragem do que pelos acertos. Se a melhor realização neste sentido, "Luanda Lisboa", seguramente um tech-kuduro instrumental à prova de cus-moles em qualquer gueto, adiciona tempero novo ao caldeirão étnico global, faixas como "Kurum" e "IC19" são menos inspiradas e devem funcionar melhor num remix. Isto para não falar da modorrenta "New Africans". Já "General", apesar da gostosa melodia tipicamente praiana, pode conter mais genes africanos do que a garota branca fã de Dança do Créu pode suportar. É evidente que, se separássemos todas as 12 faixas de Black Diamond em dois EPs, um mais orientado ao kuduro e outro à eletrônica "ortodoxa", o primeiro seria incomparavelmente mais original e melhor resolvido.

É curioso notar que esse CD repita os mesmos méritos do EP de 2007: a a investida num kuduro globalizado e centrado no MC. Mas repete os deslizes também: a deficiente concatenação entre os ritmos eletrônicos mais ortodoxos e os "étnicos", por exemplo. Bem ou mal, é uma forma de coerência. Tavez porque o trio está mais identificado com a questão do gueto (da colônia e da metrópole), onde o estilo ainda é selvagem e conta com ferramentas de produção mais rudimentares e está mais suscetível à influência urbana angolana, do que com o espaço descolado da metrópole, onde tudo tende a se adaptar ao ritmo reconhecível e linear da eletrônica. O que move o BSS é forte: ser um ponto de convergência da "favela global" entre o Rio, Londres, Kingston e Luanda, e o kuduro pode encontrar neles uma via para se globalizar (já que a tendência é esta) sem se desvincular totalmente do continente pátrio. Mas é preciso fazer uma opção.
MP3
Flash Content
Buraka Som Sistema - Luanda/Lisboa (Feat. Dj Znobia) (mp3)

Flash Content
Buraka Som Sistema - Aqui Para Voces (Feat. Deize Tigrona) (mp3)

Flash Content
Buraka Som Sistema - Kalemba (Wegue Wegue) Feat Pongo Love (mp3)

Flash Content
Buraka Som Sistema - Kurum (mp3)


Rafael Guedes
Rafael Guedes
No pop no style - strictly roots
comentários
10 comentários
Raquel Setz
Raquel Setz(06.12.08)
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Com os EUA indo pro burako, é chegada a hora do terceiro mundo!!

Agora, Rafael, só não entendi a última frase da resenha ('Mas é preciso fazer uma opção'): que opção?!
Felicio Marmitex
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Ahh... confundi... mas acho que vc mencionou bastante a MIA na resenha do "Baile Bass", do T3... acho que foi isso que me fez pensar no Kala...
Rafael Guedes
Rafael Guedes(25.11.08)
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Grande Felício, valeu mano. Honradíssimo.

Só uma correção: eu não resenhei o Kala, hehe. E se quer saber, devo ser o único, mas prefiro o disco da estréia e a parceria com o Diplo.
Felicio Marmitex
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Que resenha tão importante para os leitores do Brasil, como a que fez de "Kala". Valeu Rafael! Precisamos desta lente de aumento deste momento histórico que passamos!!! No começo do ano, Camilo registrou o estopim com o texto "DJs Globalistas" na Folha, sampleado depois aqui no blog! E que venha o verão de 2009, globalizado e quente, muito quente... Música eletrônica sem a etnicidade digital não sobreviverá a explosão das macrópoles...
lomeu
lomeu(23.11.08)
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em angola temos o kuduro (http://www.youtube.com/watch?v=4FE3RanwGlg)
na franca, o tecktonik (http://www.youtube.com/watch?v=TH7sEDnwfn0)
e no brasil, o rebolation (http://www.youtube.com/watch?v=pGchmVVkUAw)

uma blz!