"(...) This is me again.
You are about to hear a collection of some recorded stuff
Some are good. Some are bad.
Some are just ok.
Turn off the light. (...) You are ready"
Dadas as introduções e a análise sincera, Mr. Oizo (Quentin Dupieux) inicia as atividades de seu terceiro álbum autoral,
Lambs Anger lançado hoje três anos depois de
Moustache_(Half_a_Scissor) e quase uma década após
Analog Worms Attack, aquele da inesquecível "
Flat Beat". O CD marca a sabatina definitiva do francês na sonoridade Ed Banger, gravadora da qual ele é agora parte do staff oficial, consagração de um namoro que rolava há dois anos e teve um bom momento com o filme
Steak, em que ele dirige e faz parte da (ótima) trilha sonora.
Espere electro distorcido e maximalizado, mas fique tranqüilo, pois a tradicional licença poética de Mr. Oizo já previa picotes e colagens ensandecidas de samples e efeitos em várias camadas - isso bem antes da estética hooligan disco ecoada por Pedro Winter e afins. Logo,
Lambs Anger passa o recibo para a Ed Banger, e vai além: covers, picote de referências, house, fidget house, bom humor e ironia em
2009: ano da França no Brasil, Mr. Oizo entre nós!

dezessete faixas que faz esse disco ser, de fato, o melhor release do selo francês em 2008. Então como estamos falando de sons picotados e distorcidos, vamos por partes, começando por aqueles saudosos que gostam do flat beat de Monsieur Dupieux.
A MISTUREBA É O PRESSUPOSTO"Jo" é um exemplo do critério freestyle de Mr. Oizo em misturar faixas díspares: um french touch leve, house de cunho pop, final feliz de um filme que começou em 1997 com Daft Punk e Cassius. Mas a faixa vem no meio de dois hipotéticos singles, prova de que este disco é um momento de pista do produtor: o fidget tribalzão de "Bruce Willie is Dead", hooligan disco na concepção pista-cheia da coisa; e a ótima "Postif", bombante, pastilhada e entrecortada por um vocal em francês indefectível (alguém consegue decupar o que se fala?) do mesmo modo que um bom DJ intercala
capellas com techno. Para alguns tais faixas podem soar descompromissadas com a música "séria", já que ele não tem medo de arriscar que seus beats chafurdem na baba mais mainstream possível. A boa idéia de matar Bruce Willis e criar um tribal-maximal chamado "Gay Dentists", com vocal "everybooody get up and dance" faz com que tamanho pastiche só conte a seu favor.
Assim como se deu nos poucos bons momentos da
terceira compilação da Ed Banger, Mr. Oizo brinca com saxofones em clima de rádio na simpática "Cut Dick", interlúdio (quase todas soam como faixas de transição para algo que nunca se completa) para "Two Takes It", uma cover da famosa "
It Takes Two" (Rob Base & DJ E-Z Rock), hitaço hip house de 20 anos atrás. Apesar de a vocalista Carmen Castro soar como Uffie, a faixa é classuda, arrisca uns violinos de disco e outras paradas de house, tirando
Lambs Anger da safra 2008 de electro de alta-voltagem. Isso porque muitos momentos do disco lembram a batida metálica e ofensiva do Justice, como a paranóica "Z", "Pourriture 7" e o encerramento ainda mais angustiante com "Blind Concerto", música para ambientar uma cena de perseguição sanguinária.

O clima de trilha sonora é onipresente no disco. Tanto por sua variação descontrolada de um espectro ao outro da música quanto pela melodia "literária", sempre cheia de referências veladas a contar uma estória. "Rank" é continuação natural da trilha de
Steak e "W" é como se tentássemos retratar o futuro niilista em 1977. De modo que tamanhas nuances formam um todo extenso e congruente, uma micro-opereta pop da dance music que faz a gente lamentar que Jean-Michel Jarre não tenha se revigorado.
Lambs Anger mostra como a personalidade indefinível, bizarra e curiosa de Mr. Oizo se adapta às sonoridades atuais de forma surpreendente, mais um episódio nessa infindável saga francesa.
Terminé!
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