Jay Haze: charme e apuro musical

Quando foi escrita a epopéia
Ilíada e
Odisséia de Homero, lá na Antigüidade, crêem alguns estudiosos que a intenção, dentre outras, era a de preservar as tradições ancestrais e alguns contos mitológicos através da escrita. Milênios se passaram e, Leon Tolstoi, também admirado da riqueza dos poemas épicos de Homero, escreve
Guerra e Paz, um calhamaço tão importante quanto as obras de Homero. Nos dias atuais, inspirado ou não por epopéias, Jay Haze lança seu mais novo álbum,
Love & Beyond, em três partes distintas que podem ser adquiridas de três formas: em dois CDs e mais dois LPs vendidos separadamente totalizando 35 faixas (!). Ou pode-se ir até à
página dele e baixar de graça o CD 2 do álbum. É possível também comprar a versão digital , adicionada de mais duas faixas do primeiro single perfazendo então um total de 37 faixas.
Podemos dizer que
Love & Beyond é um certo paradoxo no mundo da produção atual, tão caracterizada pelo dinamismo das produções e pela fluidez musical. Cada parte do disco procura seguir uma lógica própria e busca mesclar, de uma maneira ou de outra, as diferentes propostas e referências musicais que os permeiam, do R&B à música de pista, passando por experimentalismo. É como se Jay Haze tentasse provar algo, muito embora ele mesmo não tenha sabido o que. E é nesse ponto que um Godzilla de músicas tropeça na própria cauda e não sabe exatamente a que veio. Jay acerta ao exibir a variedade de seu gosto e apuro musical, mas peca pela pieguice de bravatas sexuais e letras pobres, apesar de algumas frases bem sacadas.
Jay Haze para dançarPARTE 1 - TECHNONota: 3.8A primeira parte de
Love & Beyond é um disco para dançar - mas não agarradinho. Talvez seja este o porto seguro do lançamento, afinal foi dele (em sua versão física) que saiu o primeiro single, "Ass to Mouth", que tem participação de Ricardo Villalobos no lado B "Free Ride". Em tempo, ainda que com participações de alguns velhos conhecidos de Jay (Lil Dirrty Ghetto Bastard e
D:exter), esse CD, em certos momentos, se distancia estruturalmente do restante do lançamento.
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Jay Haze & Ricardo Villalobos - Free Ride (mp3)
Mas o disco cumpre MUITO bem a missão de chacoalhar esqueletos pista de dança adentro, com algumas músicas que saltam aos ouvidos. "Can't Forget" abre o álbum e traz na voz de D:exter uma homenagem ou cópia, depende da opinião do ouvinte, à letra da homônima faixa clássica de House de
Mr. Lee (1987). Na visão de Jay ela fica encorpada e com uma linha de baixo mais poderosa, o grave potente. "Ass to Mouth" é um minimal de bass pesado, com pitadas funky e que, por sinal, lembra demais produções de Detroit. O jogo de beats e blips construídos a partir de vocalizzos e sons feitos pela voz humana marcam a sutileza da produção. Outro ponto alto deste disco, "Riddim and Bass", tem no peso e nos vocais tratados de Lil Dirrty Ghetto Bastard a marca de sua estrutura, uma espécie de Frankestein de "
Just a Track" com Octave One. Essas duas últimas músicas trazem à tona um pouco da esquisitice de Haze e demonstram, em suas melodias, um quê ameaçadoramente excêntrico, ao invés de escondê-lo sob uma faceta de Casanova.
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Jay Haze - Can't Forget Feat. D:exter (mp3)
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Jay Haze - Riddim and Bass Feat. Lil Dirrty Ghetto Bastard (mp3)
Jay Haze para transar...er, amarPARTE 2 - R&B E SAFADEZASNota: 3.9E como bom Casanova que é, Jay Haze mostra a que veio no hip hop, só que em rimas pobres - embora este seja o mais aclamado disco de
Love & Beyond como um todo. Com um grande senso de humor para falar de sexo, Jay é engraçado também na construção harmônica e na produção em si, mesmo quando soa chulo nas letras. O disco é uma fanfarronice sem fim da proeza sexual do produtor através de rimas piegas, divertidas e meio bobas que dão toda a fluidez necessária ao álbum. Um outro ponto marcante são as inúmeras referências. Ao invés de caminhar apenas pelo soul, hip hop e R&B, o produtor adiciona inquietação musical e um pouco de glitch hop ao molho todo. Nomes como Flying Lotus, Dabrye e Funkstörung são os que logo surgem à cabeça ao ouví-lo.
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Jay Haze - Cocktail feat. Lil Dirrty Ghetto Bastard (mp3)
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Jay Haze - Prince of Spades (mp3)
A segunda música logo se destaca, "Soo Far Away", uma versão minimalista da cadência arrogante do soul/R&B da década de 70. Aqui, arranjo progressivo e poderosa linha de baixo são os destaques, fora a bela voz mais uma vez de D:exter entremeada por um backing vocal feminino que lembra Erykah Badu.
Prince Of Spades é outro chamariz, uma espécie de "get up music", canção para se preparar para noite, aquela noite! Alegre, com um synth analógico fazendo a melodia de fundo (algo bem comum nos 70s).
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Jay Haze - Soo Far Away feat. D:exter (mp3)
Já "Direct Hit" parece ter a força necessária a um grande hit. O tratamento de voz, tão típico das produções de Haze, adicionada à letra otimista e ao refrão pop udi-grudi faz dela um hit imediato. Quando menos se percebe já estamos cantarolando o refrão. Com groove, diversão e senso de humor essa música é, sim, para dançar. No entanto, mesmo otimista o mal das rimas pobres se faz presente, como em: "
You got to follow that voice from deep within your soul,/ Let the music take control of your emotions,/ Passion is so moving, so sexy". Isso acrescentado ao fato que antes era cantado sobre o conselho de uma migo para que Jay (?) mudasse sua vida.
Direct Hit
Jay Haze para alémPARTE 3 - INSTRUMENTALNota: 3.8
A terceira parte deste épico mais parece uma zona de experimentalismos sem fim. Em alguns momentos, frio e distante. Em outros, aconchegante e próximo. Dentre todos os atos des
Love & Beyond este é o que, talvez, mais se aproxima de sua faceta
Fuckpony. Aqui o expereimentalismo segue um caminho mais melódico e harmônico, por assim dizer, e é também onde se encontram alguns dos momentos mais jazzy de Jay Haze.
Em, "Rocket For Sale", parceria de Haze com Michal Ho, a conotação jazzy é logo percebida, tanto pelo trompete que pontua a música como pela base construída sobre guitarra acústica. Em "Awakening", a verve jazzy se mantém com um bass produzida por um baixão acústico, beats quebrados e alguns diferentes loops de piano, fazendo desta uma das mais (des)humanas faixas do disco. Talvez seja uma referência ao que ele mesmo
disse à XLR8R, "a coisa mais memorável em escrever este álbum foi a minha transformação em ser humano..." - ou talvez não. Fica a dúvida.
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Jay Haze - Rocket For Sale (Feat. Michal Ho) (mp3)
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Jay Haze - Awakening (mp3)
"Friday Funk You" é, talvez, uma das mais belas faixas de todo o álbum. Com um bumbo que por vezes lembra as batidas de uma alfaia num Maracatu, a música tem ainda um trompete com surdina no início denotando todo seu discorrer jazzy - os glitches entrecortados ao final por violinos são de uma delicatessen auditiva. A riqueza de elementos que permeiam este último disco deixa claro as variadas conotoções, mas não totalmente alcançada no epopéico lançamento de Jay Haze.
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Jay Haze - Friday Funk You (mp3)
Para uns, apenas dois discos se salvam, se tanto. Para outros, uma gigantesca miscelânea musical com, talvez, um toque de genialidade. Mas, talvez para a maioria soe gigante demais, como fora Golias para Davi.
Tracklist: Parte 01 e Parte 03Tracklist: Parte 02
Riddim & Bass" salva o lance techno cabeçudo.
Bjks.
Depois leio a resenha e digo o que achei.