Tribal aqui no Brasil pode tomar um sentido (pejorativo ou não) que remete à house progressiva e, o tribal da cena gay. Mas essa idéia musical pode ter outra acepção nos EUA: é no mundinho indie rock artistas que musicam o rock com percussão afiada, guitarras e mentalidades pós-punk misturadas num baião mezzo-eletrônico, mezzo-humano. O grupo americano Gang Gang Dance é um bom exemplo.
Eles lançam esse mês seu quarto álbum,
Saint Dymphna, em que a experimentação baticumlelê está mais para um noise rock desconstruído do que para o Olodum modernoso
Lizzi Bougatsos

ou o indie carismático do Vampire Weekend e seus lenços palestinos. Um bom paralelo é com a banda Mahjongg, de Chicago, em que a etnicidade tem o gosto mexicano que o paladar da música americana está acostumado. "First Communion", é um baião mariachi, como se um jovem Santana leitor do Pitchfork Media tocasse na banda.
A vocalista Lizzi Bougatsos é a alma da banda, com seus grunhidos típicos dessas bandas da nossa década que priorizam mais as infinitas camadas do que o vocal à frente - ela pode cantar, como em "First Communion", ou apenas berrar de fundo (lá no fundo mesmo, no 15º layer da mesa de som). É como ela aparece em "Blue Nile", que soa como interlúdio, so que é das mais marcantes do disco.
O Gang Gang Dance tem relativa fama entre a molecada indie americana - a banda já abriu show para o Sonic Youth, teve uma boa apresentação CMJ de 2007 e atualmente excursiona com o Of Montreal, que trabalha a mesma estética multi-sonora (não vou dizer maximalista, por mais que a mão coce) de maneira soul e pop, com uma identidade própria fortíssima (aka Kevin Barnes). Não à toa, Dymphna é o nome de uma santa irlandesa padroeira dos insanos.
PARANÓIAA falta de um descanso melódico, que unte o ouvido ante tanta barulheira, gera angústia na audição integral desse CD. O xilofone asiático luta para dominar "Inner Pace", mas um processamento de dados sonoro que computa buzinas e samples cirúrgicos lembra mais AFX do que o cheiro do incenso banghra.
As bases eletrônicas são o ponto alto do disco. "House Jam" não tem nada a ver com o gênero 4x4 mor, mas é assoviada e tem os vocais de forma límpida, dando uma atmosfera viajandona que parece saída do fundo do mar. Mas como é a etiqueta da banda, não faltam interrupções de samples e riffs esparsos, sem um compasso certo ao que parece. A faixa final, "Dust", é cinematográfica e minimalista, joga uma água de melissa no ouvido do espectador após tanta intervenção sonora.
É comum ler por aí que o Gang Gang Dance é "neo-tribal", e tal concepção suspeita é prova de que essa sonoridade é noise rock, mas longe da simplória concepção de barulho. A abertura de possibilidades e a própria desconstrução de gêneros vêm da própria música hoje, que em suas formas mais compostas ou cheias de camadas desafiam a identidade (do jornalismo) musical. Tudo é som, tudo é música, apenas ouça!