The Bug - London Zoo
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ficha técnica
Nota: 4.5 / 5
Ano: 2008
Selo: Ninja Tune
Estilos: grime, Jamaica, dancehall, UK
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The Bug - London Zoo
Movendo-se entre Jamaica e Inglaterra pelas peripércias do grime/dancehall, Kevin Martin faz um álbum de excepcional visão de mundo
18.09.08 15:55
 
O produtor, músico e jornalista londrino Kevin Martin é um cara cheio de taras musicais no mínimo, bizarras. Assinando como God, Ice, Techno Animal ou Curse of Golden Vampire, ele passou a primeira metade dos anos 90 (só para efeito de comparação: a década da cultura rave, do smile, acid-house, techno e trance, o "segundo verão do amor") expurgando os seus pesadelos interiores em molduras que iam do jazz-core ao industrial-hip-hop, em tons sempre obscuros. Mas foi justamente a sua fixação por uma Londres nada idílica e festiva - pelo contrário, a imagem de um lugar soturno, que induz ao isolamento e à vida mergulhada nas
Live bug
Live bug
sombras - que o levou a ser absorvido, no final dos anos 90, por nichos não menos peculiares como o dubstep (assinando como Pressure) e o grime (como The Bug), gêneros que hoje representam o centro nervoso da verdadeira cultura urbana londrina.

Não seria de se espantar que, dentro destes guetos naturalmente apegados à estranheza e ao total descompromisso com a acessibilidade imediata, Martin fosse considerado um organismo intruso, mais estranho que os demais. Embora demonstre um incontestável domínio das ferramentas de produção - através de criações originais cuidadas nos detalhes e na condução perfeita dos "climas" -, é o seu processo obstinado e peculiar de assimilar a realidade e vomitá-la em músicas que planam em esferas psicológicas individuas que faz com que ele seja um artista que paire acima do nicho. Em London Zoo, novo disco do projeto The Bug, Martin capta a essência do desespero coletivo e o exprime fotografando com exatidão (e indo além) a Londres pós-jamaicana deste começo de século.

PERMEADO PELA FUMAÇA JAMAICANA
Você pode demorar a entender as minúcias do inglês, algo próprio dos MCs que, além das gírias, absorvem a fluência jamaicana. Mas o recado de London Zoo fica subentendido: vivemos como insetos correndo aflita e desordenadamente atrás sabe-se lá do que. Cabe a Martin, em companhia dos MCs Flowdan (do crew Roll Deep), Rick Ranking, Warrior Queen (a predileta dos dubsteppers) e Spaceape (parceiro do produtor Kode 9), ser o bug que aponta as incoerências e faz o sistema aparentemente desordenado entrar em colapso - pois foi sempre ele que esteve do lado de fora, afinal de contas. É a lenda do dancehall britânico Tippa Irie o primeiro a anunciar o "estado das coisas" na faixa de abertura "Angry", um dancehall bem dance cujo refrão bate sem dó entre batidas convulsivas, preparadas para ferver no caldeirão de qualquer gueto, seja ele em Londres, Luanda ou Capão Redondo ("muitas coisas me deixam puto/ muitas coisas me deixam louco/ e eu preciso falar").

Flash Content
The Bug - Angry ft.Tippa Irie (mp3)

Devidamente filtrados pela metodologia de Martin, vão emergindo no decorrer do disco grimes que são verdadeiros blends jamaicanos: "Murder We", com Rick Ranking); metralhadoras giratórias ("Jah War", com Flowdan); falatórios angustiantes em slow-motion ("Fuckaz", com Spaceape, citando de leve o seminal "Under Mi Sleng Teng", marco-zero do ragga digital na Jamaica em 1985); manifestações luciféricas de consciência (no single "Skeng", com Killa P. e Flowdan); e anunciações irônicas de alta periculosidade ("Warning", novamente com Flowdan) que dão ao disco certa uniformidade, levando-nos a crer que é um disco de grime. E essencialmente o é. Mas tendo como artistas prediletos gente como Lee Perry, Adrian Sherwood e Jah Shaka, Martin percebe na sua quebrada não mais a influência unilateral da Jamaica sobre a cena londrina, mas sim a influência londrina sobre o som jamaicano - como num circuito de retro-alimentação.


THE BUG feat. KILLA P - SKENG


Neste sentido, London Zoo está impregnado dos ares sedativos da maconha, quer dizer, da Jamaica, seja em citações na letra, no instrumental ou na climatização dub, mas em certos momentos é predominante. Nascida na colônia, mas crescida nos bairros de imigrantes da metrópole, Warrior Queen, rainha de uma tribo em que sua conterrânea M.I.A. é apenas aviãozinho, pragueja o verdadeiro bomboclaat (xingamento cabeludo do patoá jamaicano) em "Poison Dart" e se queixa da demência geral na candidata a single "Insane". O que é revolta com ela vira lamento com Ricky Ranking no doce dancehall minimalista "Too Much Pain", um lamento digno de um rude-boy. E até o afeto (se tem uma arte que os jamaicanos prezam mais do que o futebol ou o manejo do revolver, é a arte do cortejo) dá as caras em "You and Me", uma cama armada no espaço com Roger Robinson.

Com um nome propício, "Judgement" dá o desfecho do drama num clima mais resignado do que esperançoso, tecido sobre ambiências que se alternam entre o inferno (representado pelo grime) e a possibilidade de redenção (nos climas etéreos de um trip-hop que parece ter sido gravado dentro de uma igreja). É a única demonstração mais próxima do "belo" como o conhecemos, mas não afasta a idéia geral de que, para Kevin Martin, estamos ainda num frio e duro purgatório.

UMA VISÃO ÉTNICA ALÉM DA ESTÉTICA
Que London Zoo traga um pouco dessa fragmentação étnica e cultural tão em voga entre os fashionistas, é apenas detalhe. O que conta aqui é a sua visão absolutamente pessoal e a capacidade de organizar com uma coesão obstinada os elementos em torno desta visão. Talvez influa aí o olho observador do jornalista, talvez seja a atitude pessoal de alheamento. Fato é que London Zoo é exatamente isso: a vista para um zoológico sem fronteiras seguras, uma janela aberta para as veias convertidas em ruas de um organismo social convalescente. It's serious times, camaradinha.
MP3
Flash Content
The Bug - Murder We ft.Ricky Ranking (mp3)

Flash Content
The Bug - Fuckaz ft.Spaceape (mp3)

Flash Content
The Bug - Poison Dart ft.Warrior Queen (mp3)

Flash Content
The Bug - Judgement ft.Ricky Ranking (mp3)


Rafael Guedes
Rafael Guedes
No pop no style - strictly roots
comentários
3 comentários
xalxa
xalxa(23.09.08)
0AprovadoQueima
muito boa a resenha, the bug é genial.
Dubstrong
Dubstrong(19.09.08)
0AprovadoQueima
Blade Runner inna dancehall styleee!!!

Ta no repeat.

[]s

Felipe Passarelli
0AprovadoQueima
Fantastico! Adorei esse album desde a primeira vez que ouvi. Nunca ouvi um projeto que combina tão bem dubsteb e dancehall/rasta/reggae como o The Bug. Tá no meu Top 10 anual. Nota 10!