Os Beach Boys de
Pet Sounds e o Pink Floyd de
Dark Side of the Moon decidiram fazer um disco juntos e chamaram o
Aphex Twin para produzir. Essa mistureba impensável e impossível é o que mais se aproxima da sonoridade do álbum de estréia de
Dominique Leone, e essas referências ainda são insuficientes para ilustrar a genial confusão sonora proposta pelo cara (sim, Dominique é homem. E americano).

Graduado em música e jornalista do
Pitchfork Media, Leone foi descoberto pelo produtor norueguês
Lindstrøm. Ano passado, lançou seu primeiro EP pelo selo
Feedelity, de Lindstrøm, e chamou atenção com "Clayrevoiant". Por causa da batida e dos vocais à la Prince dessa faixa e também pela ligação com o produtor norueguês, o som de Leone foi classificado como space disco. Um equívoco, porque tanto as demais faixas do EP quanto as do álbum recém-lançado (que, por acaso ou não, traz essas outras músicas, mas exclui "Clayrevoiant") não têm muito a ver com pista de dança. A música de Dominique Leone é fragmentada e totalmente imprevisível: de um compasso para outro pode surgir tanto um coral de crianças entoando um refrão pegajoso quanto um emaranhado de ruídos eletrônicos. Diante de tanta incerteza, resta ao ouvinte se deixar levar pelos diversos climas e pela riqueza de detalhes do disco.
O álbum abre com "Kaine", um exemplo extremo de esquizofrenia sonora. Acompanhe: a faixa começa com uma voz picotada e barulhos. Depois de uns 25 segundos, tudo se acalma: entra um violão dedilhado à maneira clássica e vocal em falsete estilo Brian Wilson. Percussões, baixo e som de palmas vão aparecendo aos poucos e, quando tudo indica que "Kaine" vai se transformar em disco music, surge uma torrente de ruídos ensurdecedores. Após alguns segundos de pura agressão sonora, tudo se acalma novamente. Entra então uma moça repetindo uma mesma frase em alemão, seguido pela gravação de um noticiário em espanhol sobre um caso de estupro. Volta o vocal do início e a música termina com uma voz feminina sussurrando em inglês. Ufa.

Embora a imprevisibilidade se estenda por todo o disco, nas demais músicas as mudanças são menos abruptas. "Duyen", "Claire" e "Conversational" tem melodias belíssimas, daquelas que dão vontade de programar "repeat", fechar os olhos e esquecer do mundo. A frase de guitarra que abre "Sim" e o coro de vozes infantis que aparece na metade da dançante "Nous Tombons Dans Elle" são dois achados.
O ponto forte do álbum são os arranjos. Dominique Leone se preocupa com detalhes e foge da tríade óbvia guitarra-baixo-bateria o tempo todo. A instrumentação inclui de violinos em pizzicato a campainha de telefone, tudo trabalhado com extremo cuidado. Só alguém com essa visão quase artesanal do fazer musical poderia compor "The Return", faixa com 13 minutos de duração que em nenhum momento é enfadonha.
Talvez não seja exagero dizer que o debut de Dominique Leone venha resgatar o rock progressivo (apesar de não ser exatamente um disco de rock). Após o estouro do punk no fim dos anos 70, o gênero recebeu o rótulo de "chato" e foi quase varrido do cenário musical, sobrevivendo apenas na discoteca de tiozões e no som de bandas como
Dream Theater e
Symphony X (o tal do prog-metal), que abusam do exibicionismo e da grandiosidade vazia, soando mais como Brian Adams do que como
Brian Eno. Leone, ao contrário, aboliu o virtuosismo e incorporou os recursos da eletrônica, provando que dá para ser progressivo sem ser quadrado, anacrônico ou brega.
O álbum também aponta para uma tendência que, depois de
Oracular Spectacular, do MGMT, e de
Modern Guilt, do Beck, parece estar voltando: a do pop ao mesmo tempo melódico e lisérgico, marca do fim dos anos 60 e, especialmente, dos Beach Boys e dos Beatles. Se o caminho a ser seguido por outros artistas for o mesmo dos três discos citados, o revival será muito bem-vindo.