20 anos depois do verão do amor, ilha se populariza, tem Ting Tings como música da temporada e clubes sofrem cerceamento das autoridades
Esta semana foi publicada no site Resident Advisor uma
longa entrevista com o lendário DJ Alfredo, um dos grandes responsáveis pela explosão do acid house - ao longo da reportagem ele se mostra muito humilde em relação ao seu papel ma historia da música e principalmente de Ibiza. Com ar nostálgico, ele fala sobre os tempos em que hyppies e aventureiros vinham para essa pequena ilha no Meditârreneo. Como era de se esperar falou que as coisas mudaram muito em Ibiza ao longo das ultimas três décadas - a indústria do turismo se instalou por aqui, muitos hotéis cinco estrelas foram construídos nos últimos anos e o aeroporto recebe todos os dias vôos diários vindo das principais cidades da Europa. "Para o pior, posso dizer-lhe um monte de coisas… Para o melhor, eu não sei.", diz ele.

E este ano Ibiza, mundialmente conhecida pela sua liberdade, sofreu uma das suas drásticas mudanças, a chegada de diversos tipos de restrições e proibições (cada vez mais comum nos nossos dias), a principal delas é a limitações de horários impostas, música por aqui somente a partir das 16h e que pode ser estendida no máximo até às 6h da manhã - lei esta que praticamente aniquila after parties. É frustrante por muitos motivos, um deles é o fim da liberdade de escolha, aqui se poderia optar ir para uma festa segunda-feira ao meio dia - leia-se
DC10, talvez o after mais famoso do mundo - ou acordar no meio da madrugada e ir a algum club. O que se vê hoje são pessoas comendo apresadas nos restaurantes para chegarem a tempo na balada a ponto de poderem curtir todo tempo que lhes permitem. Isso porque quando se está em algum clube, ouvindo um excelente set, desfrutando do grande espetáculo de luz e som, às seis horas em ponto a musica acaba, se acendem as luzes e uma atmosfera que leva uma noite inteira para ser construída é destruída em segundos, todo mundo para rua.
No último dia 05/ago ocorreu uma manifestação no centro de Ibiza, com mais de 200 pessoas fechando umas das principais ruas da cidade. Ali se encontravam clubbers e outras pessoas que se sentiram prejudicadas com a nova lei, mas na verdade tudo era muito desorganizado, alguns gritos de guerra perdidos em meio à multidão, e se esperava que algum representante do governo local viesse dialogar com os manifestantes. Mas horas se passaram e ninguém apareceu. Aí alguém abriu o porta malas do carro e colocou a música em volume máximo, todos começaram a dançar e a manifestação virou uma grande fanfarronice a céu aberto - fato que tirou toda a credibilidade do protesto diante a imprensa.
As revistas inglesas estão cada vez mais atentas ao surgimento de um novo paraíso, cada ano que passa Miami ganha mais espaço no cenário mundial, muito elogiada por DJs e promotores pela excelente organização do WMC (Winter Music Conference). Mikonos na Grécia - talvez tão bonita quanto Ibiza - é outro nome forte que surge na cena mundial. Ainda está muito atrás no que se refere à estrutura dos seus clubes, mas a coisa vem tomando proporções maiores a cada ano. O sul do Brasil também vem recebendo excelentes comentários, o problema é a distância que se encontra em relação à Europa. Mas não podemos ser hipócritas, mesmo com todos esses problemas Ibiza continua sendo um lugar incrível para passar as férias. Suas infinidades de praias, um mar de um azul indescritível, pessoas com uma energia capaz de contagiar o mais sério dos mortais e, claro, aqui ainda estão alguns dos melhores clubes do mundo.
Riche Hawtin, Galluzzi, Sven Väth e Villalobos dão as boas vindas na entrada do Amnesia

O ROTEIRÃO E SEUS PERSONAGENSResolvi então deixar as criticas de lado e fui ver a open party do Tiësto. Ele estava como sempre lá com seu tradicional topete, camiseta estampada e braços abertos com seu eterno hit "Traffic". Mas o fato é que é um espetáculo realmente impressionante ver o DJ tantas vezes numero um do mundo tocando no maior clube do mundo - eram mais de 17 mil pessoas que se amontoaram na Privillegy (pagando entre 50 e 70 euros) - muitas ficaram do lado de fora.
Quem vem recebendo muitos elogios por aqui é a
Cocoon no
Amnesia, do comandante Sven Väth. A começar pelo material de divulgação da festa: na capa do flyer aparece ele acompanhado dos berliners Ricardo Villalobos e Ritchie Hawtin, todos em trajes espaciais que faria Stanley Kubrick sentir inveja. Dentro da história em quadrinhos
The Disco Invaders estão os três estão a bordo de uma nave espacial nos confins do universo, em busca dos sons e melodias alienígenas. Mas a nave recebe um chamado direto de Ibiza, pedidos urgentes de socorro clamam. Sven guia a sua trupe até a Ilha e ali se deparam com um monstro terrível, o
The Number One, que com sua música chata e repetitiva aliena a mente das pessoas. O trio então saca suas armas espaciais carregadas de muito funk e groove! O grande monstro é derrotado, foge para Mallorca e a noite termina com eles a serviço nas pick ups. Sem dúvida o conceito que os três construíram é libertador, o techno e o minimal que está sendo produzido faz que a Cocoon seja a crew mais respeitada de Ibiza.
Outro que merece excelentes comentários é Carl Cox, este señor de 48 anos - 27 deles de dancefloor -, não apenas sobreviveu a todas as mudanças e modismos que a música sofreu, como esteve também sempre no topo, tocando com a alegria e empolgação de um estreante. Este ano serão dez datas da sua festa
Carl Cox and Friends, e alguns desse amigos são DJ Hell, Laurent Garnier e um histórico back to back que vai ocorrer dia 26 entre o Mr. Cox e Fatboy Slim. Uma de suas melhores noites foi quando recebeu John Digweed. A noite começa com ele e alguns outros DJs não tão conhecidos fazendo um warm up na pista externa, e próximo das duas horas ele pega o microfone e profere: "Senhora e senhores muito obrigado por virem, agora gostaria de receber vocês na minha pista, onde eu e meu convidado estaremos tocando".

Ele usa o termo "minha pista" porque toda estrutura da pista principal da Space foi construída com base nos seus conselhos. Todas as pessoas seguem Carl Cox até lá. Naquele dia Digweed fez um set de muito bom gosto de mixagens perfeitas, mas o que bota tudo a perder é o distanciamento e a frieza como John Digweed trata a pista, são poucas as vezes que ele tira os olhos das pick ups. Já Carl Cox é o oposto, sempre com uma atitude positiva fica visível que ele gosta muito do que está fazendo, e seu set é animado e dançante. Ao final da festa ele dá um loop na musica, corta o bass, e munido do microfone diz com sua voz grave: "Senhora e senhores muito obrigado por virem, vocês não podem imaginar a honra que foi receber vocês aqui, espero que retornem", solta música novamente e a pista volta a explodir. Vejo os rostos felizes ao meu lado e acredito que todos estão pensando o mesmo que eu: "que isso Carl, a honra foi nossa!".
MISCELÂNEASExistem inúmeros conceitos de festas aqui em Ibiza que não estão focados apenas na música, como por exemplo a performática e obscena Manumission (Amnésia), que mesmo recebendo atrações como Mylo e Xpress 2, atrai grande atração para sua narrativa erótica
The Coney Island Review. Encenada ao longo da temporada, cada festa é um ato.
A comentada festa gay La Troya, muito freqüentada pelo público heterossexual, toda semana traz uma temática diferente, como "La Troya se va a Brasil". E alguns conceitos não tão prestigiosos, mas que igualmente atrai um grande público como a

Festas das Águas e a Festa da Espuma - infelizmente apresentada por
Rocco Siffredi, um dos maiores atores pornôs de nossa época.
Um lugar que vem gerando muitos comentários está temporada é a praia de San Antonio, muito famosa pelo Café del Mar e pelo pôr-do-sol, praticamente um território britânico dentro das Ilhas Baleares. Os ingleses estão em casa, comendo tranquilamente seu fish & chips, enquanto lêem sobre a nova recaída de Amy Winehouse no
The Sun.
Desde 2005 ali está o Ibiza Rocks (dos mesmo produtores da Manumission), um club com alma roqueira, ótima novidade que esta trazendo sangue novo às areias de Ibiza com muitos nomes da cena indie, eletrônica e new rave. Gente como Hadouken!, CSS, Mika e Arctic Monkeys se apresentam com um ótimo sistema de som e ingressos limitados. O lugar é pequeno, então a relação público e banda se torna mais próxima. Este anos as grandes estrelas são Ladyhawke, Dizzee Rascal e os irmãos David e Stephen, Dewaele tanto como 2Many DJs como Soulwax. Ainda falta outros nomões aparecerem: Justice, Hot Chip e Chimical Brothers só estiveram para DJ sets.
Ainda sobre o Ibiza Rocks, a grande novidade em 2008 é que foi inaugurado o Hotel Ibiza Rocks. As bandas que tocam no clube se hospedam por ali, então de repente você tem sorte e pode tomar um belo café da manhã acompanhado pela Ladyhawke. É possível ainda acompanhar alguns ensaios e pocket shows bem informais que acontecem na piscina do hotel.
DE PETE TONG A TING TINGSPete Tong foi de longe o DJ que causou mais polêmica nesta temporada. Isto porque depois de oito anos ele resolveu abandonar sua residência na Pacha, onde formava o trio de DJs popstars com Erick Morillo e David Guetta, sua nova casa agora é a Éden, a mais "humilde" das grandes discos de Ibiza. Em minha opinião, a casa parece um salão de festas transformado em clube. Mesmo assim ele receberá Timo Maas, Groove Armada e outros.
A desculpa de Pete foi o conhecido chavão "ir em busca de novos desafios". Ele disse ainda que San Antonio merece uma festa de qualidade, e que ele e a Pacha já não pensavam artisticamente da mesma maneira. O mais curioso de tudo é que essas palavras e o anúncio de sua saída aconteceram na própria
Pacha Magazine de maio, publicação realizada no verão de Ibiza. O gosto que ficou foi de história mal contada, e o que se disse por aí é que o problema foi contável, não de diferenças artísticas.
O que se notou em 2008 foi a ausência de grandes hits, nenhuma música conseguiu conquistar o status de hino da temporada como um dia "Music is The Answer" (Danny Tenaglia), "Rocker" (Alter Ego), "Drop The Pressure" (Mylo) e "Party All The Time" (Sharam) e "The Sun Can't Compare" (Larry Heard) o fizeram.
Mas quem fez muito barulho por aqui, mas talvez não seja exclusividade de Ibiza, foi a dupla The Ting Things com a grudenta "Shup And Let Me Go". Na praia, nos carros, no grito de guerra das meninas inglesas, nos restaurantes, aonde quer que vocês estivesse, aparecia Katie White dizendo para eu calar a boca e pedindo para deixá-la ir embora.
BABEL CLUBBERO público em Ibiza é muito variado, há aqueles que vêm em buscam de glamour, os freaks impecáveis, hippies, gays, nerds, todos eles em busca do próximo passo da música eletrônica, todos misturados fazendo de Ibiza uma imensa Babel Psicodélica. Isso fica bem visível no Bora Bora, um clube na beira da praia, também bem prejudicados com as novas leis. Mesmo assim a festa continua, numa combinação perfeita de sangria gelada, areia e house music - tente não se incomodar caso o DJ toque algum hit de FMs, a intenção de quem esta ali é deixar os

problemas para trás. No caso dos europeus, um desses problemas é o longo inverno pela frente.
A noite é o momento em que se abrem as portas do zoológico: muitas pessoas bêbadas e sobre efeito de outra coisas vagam na rua, gritando, brigando para encontrar algum táxi (são apenas 500 em toda a ilha, mais os clandestinos que cobram três vezes mais), promoters distribuindo pulseiras e um enorme desfile de moda: dos neons de Londres ao minimalismo de Berlim e a alta costura italiana, as meninas com maquiagens pesadas e coloridas sabem que bastam apenas alguns minutos de calor da pista para ficarem todas borradas.
Um dos fatos que mais atraiu minha atenção desde que eu me mudei para cá é a infinidade de histórias de pessoas que vieram passar alguns dias de férias e acabaram sua estadia por semanas, meses ou até anos. Freaks que batem o pé no chão e não voltam até o esgotamento dos recursos financeiros, empresários que largaram tudo e montam um bar na praia, adolescentes que começam distribuindo pulseiras na praia e entram para a direção de boates, fora os DJs que tocavam nas piscinas dos hotéis e, ano após anos, foram ganhando espaço e agora têm seus nomes impressos nos flyers das melhores festas. A ilha ainda é um celeiro de oportunidades e vivências para clubbers e globetrotters, o que faz de Ibiza a corrida de ouro da nossa geração dançante. Mas a popularização excessiva tem feito que infelizmente a matéria prima se esgote.
Uma revisão antes de postar o texto vai bem.. (Privillegy; Shup and Let Me Go; ficarem todas borradas, etc..)
Depois, San Antonio não está "dando o que falar" em 2008; já é old news há uns dez anos. Pergunta pra qualquer british na faixa dos trinta.
Um pouco mais Ibiza e menos deslumbre em http://euqueseideviagens.blogspot.com/2008/08/eivissa-princesinha-via-do-mar.html
richie, andre galluzzi, sven e ricardo.