Rod Modell em 13 experimentações metalingüísticas e temáticas sobre a mesma faixa
Rod Modell

Detroit não morre. E se não reinventa seus dogmas imutáveis, ao menos se recicla. Um bom exemplo recente é
Vantage Isle Sessions, reunião de 13 faixas do DeepChord, benquisto projeto do produtor Rod Modell. O CD é o cume de uma idéia para um live no Detroit Electronic Music Festival de 2002, que seguiu em disputados vinis no ano passado e representou um novo
turning point na carreira de Rod Modell, o pai do projeto.
Vantage Isle Sessions é um novo episódio da conhecida saga dub techno (aka dubby techno), uma salada geográfica criada lá nos anos 90 entre essências da eletrônica alemã quase mineral de tão impessoal, com especificidades mais "humanas" de Chicago e Detroit. Tudo numa referência explícita ao dub jamaicano. Maurizio e o selo Basic Channel são os expoentes desse momento que, junto com as inegáveis referências de Robert Hood, Jeff Mills e Plastikman, formam a trinca de evidências que fixam a origem do minimal de hoje, tão disseminado, lá nos anos 90.
Voltando ao
Vantage Isle..., este é um álbum estruturalmente experimental, 13 faixas de mesmo nome, processadas em estéticas diferentes - o resultado a conferir. Para tanto, Rod convocou o produtor e engenheiro de som Steve Hitchell (aka Soultek) como parceiro nas sub-alcunhas Echospace/Spacecho e CV313. Essas propostas de edição se deram de quatro formas: leituras metalingüísticas e temáticas, remixes, e versões ‘dub'.
TECHNO INSTINTIVOPodemos chamar a primeira e a décima faixa de ‘originais', ambas intituladas "DC mix". São as mais inertes e cruas do álbum, e ilustram bem a base de 120 BPMs e os semblantes espaciais que permeam em todo o disco. O apelo é instintivo: beats que envolvem com calor os ouvidos, como as batidas de um coração; a ambientação sideral e vazia do dub soando como os fluidos a correrem pelo corpo. Techno em estado puro.
Flash Content
DeepChord - Vantage Isle (DC Mix I) (mp3)
Rod (e Steve) se utilizam apenas de materiais analógicos em seu trabalho, prova de que, ao contrário do futurismo robótico dos anos 80, o techno hoje humaniza-se, busca ser mais ser orgânico pelos meios maquinantes que lhe cabem. Culpa é do gênero em si, seus excessos (minimal? hard techno? loops?) e bstrações quase arrogantes de enxergar o futuro, que no fim das contas já chegou e não ofereceu nenhuma panacéia ou nirvana tecnológico. Ofereceu apenas a massificação prog-tech-minimal insossa e hypes da simbiose quase oportunista com o rock.
TRACKLIST
Vantage Isle (DC Mix I)
Vantage Isle (Echospace Glacial)
Vantage Isle (Echospace Reshape)
Vantage Isle (Spacecho Dub)
Vantage Isle (DC Mix II)
Vantage Isle (Spacecho Dub II - Extended Mix)
Vantage Isle (Convextion Remix)
Vantage Isle (Echospace Reform)
Vantage Isle (Echospace Spatial Dub)
Vantage Isle (DC Mix III)
Vantage Isle (CV313 Reduction)
Vantage Isle (Echospace Excursion)
Vantage Isle (CV313 Reduction II)
Nesse disco a analogia vai além do corpo humano. Na versão "Echoscape Glacial" (faixa 2), o beat é mais sistemático, preso à sua cadência, e exibe ao fundo uma cortina úmida de chiados que, para nós brasileiros não familiarizados com a reverberação sonora da neve, parece mais uma chuva tropical do que qualquer ruído glacial.
SOFISTICAÇÃO: AGRADEÇA A JAHO sincretismo deep/minimal/lo-fi de Maurizio, Basic Channel e do dub techno no geral sempre foi motivo de incansáveis elogios acríticos - algo costumeiro quando se trata da indiscutível música de Detroit -, sendo a "sofisticação" (adjetivo perigoso e vazio) um dos pontos aclamados dessa turma, DeepChord incluso.
Mas de onde vem tamanha finesse neste som intragável para muitos, cru e abstrato demais para outros? Vem da Jamaica, e nada mais. O subgrave e o éter de efeitos ocos (delay, reverb) que dá ao cérebro a possibilidade de sentir e assimilar cada decibel da música, eis a fonte de tal sofisticação! Foi o dub jamaicano que popularizou a extração metalingüística da música de nossa época (metalinguagem = estudo da linguagem; a linguagem como tema), tão utilizada pelo techno (tanto deep quanto minimal) e fortemente reverenciada pelo DeepChord em suas "Vantage Isles".
As ilustrações do dub costumam remeter ao espaço, e isso acontece na faixa nove (Echospace Spatial Dub), a mais acelerada (logo, a mais "pista"), techno naturalista que parece ter sido feito numa floresta de mármore em Júpiter. E um ponto positivo na criatividade do DeepChord é ir além dessas referências emaconhadas da Jamaica e propor até mesmo a redução de forma gastronômica (faixa 13, ‘CV313 Reduction'). Como se fosse um bom caldo, a "Vantage Isle" é ‘reduzida' aqui a um bom extrato de groove, talvez a faixa mais notável do disco.
Rod Modell & Stephen Hitchell: Echospace, Spacecho e CV313

Neste tempo em que novas referências jamaicanas são aclamadas na eletrônica (dubstep),
Vantage Isle Sessions é quase um simpósio de produção musical, techno bruto de referências muito além de seus sub-gêneros e outras homenagens datadas a cidades (Berlim ou Detroit, que seja). Só assim a música 4x4 pode evoluir puramente como um molde versátil, livre de limitações e cheio de possibilidades para a construção eletrônica.
Talvez um dos limites para essa sonoridade, ao menos hoje no Brasil, tem a ver com a evolução da noite e seu campo sociológico comportamental: é um tipo de som que
cabe na pista? De modo que, sendo apta ou não para pitch de DJs, a boa notícia é a crescente versatilidade dos modos de se consumir música eletrônica.