Em 1999, Beck estava prestes a dominar o mundo. Quem ainda não havia virado fã das colagens sonoras do cara (que geraram comparações com Frank Zappa), iria se render ao clima festivo e ao groove de
Midnite Vultures, disco que acabara de lançar. Mas, no ano seguinte, o artista se separou da esposa. Na fossa, compôs uma série de canções folk deprê que, em 2002, viraram
Sea Change, álbum cheio de orquestrações e com vocais à la Eddie Vedder que resvala na breguice não poucas vezes. Felizmente, a dor de cotovelo durou só um disco e Beck voltou à velha forma com
Guero (2005) e
The Information (2006), mas a trilha apontada por
Midnite Vultures parecia ter sido, se não perdida, ao menos esquecida.
Até que, na semana passada, foi lançado
Modern Guilt.
Os dois álbuns são, sem dúvida, muito diferentes, mas algumas características do disco de 1999 reaparecem com força no novo trabalho: ao deixar de lado o jeito rapper de cantar, Beck abriu espaço para explorar as possibilidades da sua voz (que não são poucas) e para criar melodias mais elaboradas. E, nesses aspectos, Modern Guilt não é apenas a retomada do caminho traçado por
Midnite Vultures: é o seu ápice.
Produzido por Danger Mouse, o disco abre com uma tríade de obras-primas: "Orphans", canção dançante porém melancólica com Cat Power no backing vocal, "Gamma Ray", trilha sonora para bailinho nenhum botar defeito, e "Chemtrails", balada que parece ter sido extraída do cérebro de Brian Wilson. Aliás, em muitas faixas se ouve ecos de Beach Boys e até um pouco de Beatles - afinal, se Beck está se dedicando à criação de belas melodias cantadas, não há na música pop modelos melhores do que essas duas bandas. Palmas marcando o ritmo e guitarras com timbre vintage completam o clima anos 60, enquanto batidas e efeitos eletrônicos lembram que estamos em 2008.
PSICODÉLICO, FOLK E... GAY?A expectativa gerada pela seqüência inicial arrebatadora faz com que o disco perca um pouco a força a partir da quarta faixa. Mas não se trata de nenhuma queda brusca, como podem comprovar a mistura de psicodelia com breakbeat de "Replica" e o folk nada piegas de "Volcano", só para ficar em dois exemplos. Na verdade, a única decepção é "Youthless", música que poderia estar em um disco do George Michael. Tem potencial para fazer sucesso na pista d'
A Loca (o que não é um demérito, pelo contrário), mas não é exatamente uma canção inspirada.
"Youthless" também é a única que parece destoar do restante do álbum. Embora não seja homogêneo e passeie por diversos gêneros, Modern Guilt apresenta uma coesão difícil de encontrar nos trabalhos do Beck (o antecessor
The Information parece ter sido feito por umas dez pessoas diferentes). E talvez esteja aí um dos motivos para a má repercussão na mídia: quando Beck, que já é o rei das colagens malucas, requisitou os serviços de Danger Mouse, muita gente achou que o resultado seria o disco mais esquizofrênico de todos os tempos. Afinal, além de produtor e membro do Gnarls Barkley, Danger Mouse é o mashupeiro que teve a idéia insano-genial de misturar o
White Album dos Beatles com
The Black Album do rapper Jay Z., criando assim seu
The Grey Album.
Outro motivo possível para os narizes torcidos são as letras de
Modern Guilt. Apesar de não serem totalmente diretas, elas são bem mais decifráveis do que aquelas que fizeram de Beck também o rei do nonsense. Além disso, Beck, já quase quarentão, anda meio down. Fala sobre aquecimento global em "Gamma Ray" ("And the ice caps melting down"), sobre paranóias modernas em "Modern Guilt" ("I feel uptight when I walk in the city") e discorre sobre as agruras da vida em "Walls" ("Some days are worse than you can imagine"). Nessas horas realmente dá saudade de versos sem pé nem cabeça como "In the Time of chimpanzes I was a monkey" ou "I got the devil's haircut in my mind".
Ainda não foi dessa vez que Beck dominou o mundo.