Último disco da cantora pela Warner é costurado a toque de caixa pela batida imperialista de Timbaland e pelo bom charme de Pharrel Williams
"Já que temos que salvar o mundo, porque não nos divertimos enquanto fazemos isso?", diz Madonna à
Interview. Madonna é foda. Madonna é a mãezona do pop, a gerentona que sabe de tudo e ninguém tem o que falar, é isso e mais nada. Só se fala nela e no seu novo álbum, e mesmo que a música não estiver na pauta, ela estará aí nos adentrando goela abaixo em alguma ação na África ou em alguma política que seja importante para o mundo.
Ela sempre quis salvar o mundo, na verdade, e agora em 2008 essa é a imagem plena a seu respeito: uma neo-Bono que está aí sempre de volta, lançando o 11º disco, de novo pela Warner/Maverick, gravadora que a hospeda há mais de 20 anos. O contrato vai acabar ano que vem e ela se mudará (como sócia, aliás) para a empresa cultural do momento, a Live Nation, em um contrato de mais uma década de álbuns, shows, turnês e tudo mais - (até verbas para fã-clube há).
As bees são um público cativo...

É o imperialismo pop. Então já que teremos de conviver com mais um "novo disco da Madonna", vamos falar dele.
Hard Candy musicalmente é irrelevante, apesar de suas três ou quatro músicas legais. A maioria das faixas que importam é produzida pelo Neptunes, uma das atividades do bom produtor e intérprete Pharrel Williams. "She's Not Me" é funk-balanço americano dos anos 80 com groove disco. Fora a pomba-gira de Kylie Minogue que baixa nela no meio da música (Madonna sempre tem momentos de Kylie nos CDs dessa década, repare), contrabalanceado pelo riff sacudido de Wendy Melvoin, uma das clássicas mulheres de Prince. Pra quem gosta de pop, é a melhor faixa do disco. Pra quem busca dance music, "Beat Goes On" mata a fome. É sutilmente housy e tem de brinde a boa voz de Kanye West. Tem tambéma engraçada "Give 2 Me", que parece Timbaland mas, de novo, é polida pelos Neptunes.
POXA, VEM LOGO EM DEZEMBRO PRA CÁ, MADDIE!Então tem o Timbaland, o Jay-Z do hip hop sulista americano. Ele que soa como co-autor/parceiro do álbum por sua participação na produção. Formou trio com Justin Timberlake, um cara ultra-valorizado de pinta meio Pierce Brosnan que faz música new-Michael Jackson, você conhece. Justin também co-produziu, e dessa trinca saiu o primeiro ato de
Hard Candy, o single "4 Minutes". Apesar do belo balanço
bouncy (olha a aliteração!), a fusão batida+vocais é irritantemente repetitiva. Somado com o "tic tac" cantado, artimanha já usada no single de estréia do
Confessions, o álbum anterior.
Menos fórmula,
Maddie, por favor, você pode mais que isso. Você pode até mais do que esse clipe simplório. Queria colocar o YouTube aqui para vocês, mas nós, pobres brasileiros,
não podemos assisti-lo no
The Official Madonna YouTube. Pobres de nós! Mesmo assim sabemos que você ama o Brasil. Estamos fazendo figas para lamber seus pés no Maracanã, quem sabe lá dia nove ou treze de Dezembro?!?!
N. do A.: Madonna é dona de um canal YouTube e claro, não permite embed. Desde os tempos das faixas que ela vazou xingando quem baixava música, dá pra ver que internet nunca foi uma paixão dela.)
Voltando à música. "4 Minutes" é isso, Madonna contratando o pop mais fácil para lhe acompanhar, mais politicamente correta do que nunca - em 2003 o ódio visceral a Bush era até apelativo em
American Life. Hoje é meio chute no saco falar "ei, estou aqui salvando o mundo também, mas ouça a minha música, é rapidinho". A fofa não fez o menor esforço para ser nem
hippie-crite. A preocupação africana que gerou até um terceiro filho a ela é algo do cotidiano de estrela-beneficente, não se ouve em seus versos.
TOQUE DE CAIXAMadonna faz talvez o disco mais inacabado de sua história. "Vamos lançar o último álbum logo pela Warner e picar a mula daqui", bem como aconteceu com o agora revolucionário Radiohead. Até os títulos refletem isso, são idéias tão básicas do pop como "Give 2 Me" e "Dance 2night". O vocal está bem trabalhado pelo cuidado e pela rouquidão da idade, mas coisas como "Voices" são tão clichês
American Idol, que até o Simon a gongaria. Ou diria que você faz bom pop, mas não tem personalidade. E a estranha coincidência? Madonna lembra a Annie numa música chamada "
Heartbeat", justamente título de um dos hits da noruegusinha! Talvez seja culpa da limitação pop. Ou culpa de que Madonna fez um disco só com produtores americanos, faz falta britânicos como Stuart Price ou William Orbit.
E o Brasil te ama!

A resenha do americaníssimo Pitchfork reflete esse "fator americano" com o generoso 5.3 que deu para o disco, abrindo o texto com o (positivo, claro) fator de que após uma década Madonna "voltava para casa", num disco trabalhado só com americanos que definem o pop global. O disco não acrescenta nada a ninguém, mas para os americanos não importa, é sempre bom quando se valoriza o produto caseiro. Síndrome ufanista que a MPB têm, fadada a ter Brasil até em seu nome.
"Incredibleee, let's finish what we started", diz a sétima faixa, a mais bmore do disco. Sim, baltimore club, sonoridade apresentada por Pharrel que cai bem em
Hard Candy, mesmo o resultado final na maioria das vezes soando como qualquer música do TVZ. E isso não é incrível, Madonna se nivelou por baixo dentro do senso-comum que o pop americano, oriundo do hip hop, faz. Já conseguiu assistir ao TVZ inteiro?
Acho que não é uma época boa para a música negra. Black music de qualidade tem sido bem feita por cantoras inglesas e brancas (
algumas são negras, claro, não quero generalizar). Mas nessa semana de
BEE WEEK aqui no rraurl calhou de darmos duas notícias negativas sobre negros, então fica a sensação a música e a cultura negra não estão numa boa fase - black não é necessariamente beautiful. Mas como constatar isso é delicadamente perigoso, melhor encerrar a resenha logo: o disco da Madonna é ruim e pronto. Mesmo com músicas boas, a sensação é essa.
valeu a sinceridade! :)
:)
Jade ...não deveria se chatear com isso....achei q vc era menos prozaico....