Para definir o álbum
Beyond the Valley, a alemã Anja Schneider se vale de uma lenda infantil particular: além do vale (daí o título o disco) é o lugar onde seus pais diziam para ela não brincar, porque lá tudo poderia acontecer. Era perigoso e todas as criaturas banidas da vila se escondiam lá. É claro que, assim como crianças curiosas, nós também acabamos espiando os seres que vivem nesse lugar longínquo em
Beyond the Valley.
Na verdade é isso que Anja quer que façamos; Que nos joguemos em sua música minimalista, ainda que dançante, conceitual às vezes, porém instigante e aberta a

variações sonoras entre o techno e a house. Ela mostrou em sua recente primeira passagem pelo Brasil que é uma DJ multifacetada, que não vive só de paisagens sonoras profundas e monótonas como muitos imaginam que os DJs/produtores de minimal vivam.
Beyond the Valley foi co-produzido por Paul Brtschitsch, colaborador de Anja há algum tempo. Paul também faz parte do refinado elenco do Mobilee, selo fundado por Anja em 2005 e hoje no topo dos mais descolados. A alemã admite que não tem muito jeito com máquinas e softwares, e como precisa de alguém para auxiliá-la, ninguém melhor que Paul, que só toca ao vivo com máquinas e não gosta de laptops na cabine de som. Ela tem formação de radialista e desde o começo da década também ataca de DJ, mas só recentemente começou a produzir e a remixar.
VARIEDADE MÁXIMAAs dez faixas do disco são marcadas por timbres africanos e hispânicos, muitas camadas sonoras, inventividade e boa levada para a pista. Os destaques de
Beyond the Valley são "Safari" - que abre o álbum com uma sonoridade que lembra a trilha do seriado setentista Daktari, que se passava na África -, a dançante "Gimlet" - que a partir da metade tem várias camadas de diferentes batidas sobrepostas -, "Belize" - que saiu no ano passado, mas continua ótima por aproximar techno, house e linhas de teclado retrô - e "Fish at Night" - um som meio
dubby que tem voz de Anja cadenciada, como que apenas falada, o que lembra de cara os melhores momentos de Laurie Anderson.
As outras faixas complementam a primeira investida de Anja Schneider no universo dos produtores de eletrônica. "Cascabel" retoma sonoridade afro-hispânica, "Get Away" e "Little Red Riding Hood" são bons momentos para pista, enquanto "Maki" e "Beyond the Valley" apostam na melodia e no clima atmosférico. "Mole", primeiro single do álbum, acaba de ganhar um remix da dupla Pan-Pot. Segundo Anja, outras reinterpretações virão em breve. A alemã começa sua turnê mundial em maio, assim que
Beyond the Valley for lançado no mercado. Para quem tem pressa, o disco já está disponível na Internet.