Industrial e épico, terceiro álbum dos ingleses vence a falta de beleza pela via da força
Para falar sobre
Third, o novo álbum do Portishead, é preciso falar em mudança. E na música, mudar é uma tarefa de risco, principalmente para uma banda consagrada e intimamente associada a um gênero - no caso, o trip hop. Há exemplos similares, como o
último trabalho do Bauhaus, que nem mesmo anos de exílio foram suficientes para provocar mudanças significativas na sonoridade de grandes ícones. Seja por receio ou por acomodação, álbuns como
Go Away White chegam ao mercado com poucas novidades, e conseguem no máximo chamar a atenção de alguns antigos fãs.
Mas o Portishead mudou. Os dois primeiros álbuns da banda viraram história, digna de ser contada em
nossos tesouros, e
Third chegou com força suficiente para fazer esquecer qualquer associação ao trip hop de Bristol dos anos 90. Saíram os scratches e a cadência do hip hop deprê, e em seu lugar entrou a densa atmosfera industrial herdada de bandas como o
Einsturzende Neubauten. Se "fossa" e "tristeza" eram bons termos na antiga discografia do Portishead, agora é mais adequado falar em "potência" e "intensidade".
Geoff Barrow

AINDA UM BAQUEAcabou-se a melodia e a beleza de cabaré. Influência assumida de bandas como o
Sun o))), os arranjos agora são envolvidos por uma fumaça preta atordoante, que atrai o ouvinte não pela beleza, mas pela tensão contínua. Não há frases instrumentais grudentas ou refrões fáceis - e é por isso que não bastam algumas audições para captar toda a densidade de
Third. As músicas crescem aos poucos, e quando acabam, é como se uma sombra colossal tivesse passado por perto, deixando para trás um quê de espanto e admiração.
O vocal de Beth Gibbons também não é o mesmo. Se em
Dummy e
Portishead a moça parecia mais à vontade para variar a entonação, aqui ela parece limitada a uma escala de tons muito mais reduzida. É como se Gibbons estivesse presa a um transe tonal enquanto fala sobre temas existenciais e distribui charadas metafóricas. O resultado corrobora com a aridez do conjunto, e é o que torna o disco tão admirável. Sem contar com nenhum elemento que tradicionalmente faria um disco de destaque, ainda assim ouvir
Third é um baque.
Exemplo fácil dessa nova estética está em "Small". A música começa com a cabeça na fossa, orientada por um punhado de acordes soturnos que parecem não valer nem alguns trocados. Mas chegando aos três minutos, irrompe do arranjo uma frase de sintetizador arrepiante. Claramente inspirado nos anos 60, como já aparecia em
Dummy, o synth vai ficando mais e mais encorpado, acompanhado por guitarras distorcidas até desaparecer em uma nuvem de dissonância atordoante. Sem lirismo nem clichês, essa é uma das faixas que mostram que a beleza de uma canção não se encerra apenas em complexidade harmônica e melódica.
STREAMING!
Em uma iniciativa inédita, Third será disponibilizado integralmente para streaming no Last.fm dia 21/abril, uma semana antes do release oficial.
APOCALIPSE EM DRUM MACHINESA apocalíptica "Machine Gun" é outra referência básica para falar de
Third. Enquanto a bateria eletrônica dispara rajadas de bumbos e pratos distorcidos, Gibbons discursa metaforicamente sobre messias imaginários com voz lamuriosa. Aqui ficam expostas a influência do
drone metal norte-americano, ainda que por uma via mais eletrônica, e a atmosfera épica que não aparecia nos álbuns anteriores do grupo.
Ouvir o terceiro álbum do Portishead faz imaginar como ele serviria bem de trilha sonora para o silencioso
Metropolis, obra-prima de Fritz Lang. Soturno, industrial e metafórico - assim como o longa -,
Third é, como o próprio Geof Barrow admite em
entrevista ao Pitchfork Media, uma saída ao beco criativo encerrado com o lançamento de seu último disco de estúdio, em 1997. Se o trip hop existiu algum dia, agora ele jaz sepultado pela história, e nesse caso específico, pelo peso existencial do novo Portishead.
Média final de Third (GOSTEI + NÃO GOSTEI): 3.3
-> favor ouvir All Mine, 10 anos atrás...
trip hop sepultado pela história? pesada a afirmação, mas... sei lá! enfim, influenciou muita coisa boa.
Tb gostei muito de Third, nota 4.5!