O Dirtbombs é uma banda estranha. A começar pela formação: além da guitarra, o grupo tem dois bateristas e dois baixistas. Surgida há 16 anos em Detroit, o líder Mick Collins afirmava que a banda só duraria 4 anos e que só lançaria EP's em vinil. Parte dessa promessa foi quebrada. O Dirtbombs existe até hoje e já lançou alguns CDs. "Decidi que se fossemos lançar discos, eles teriam que ser álbuns de verdade: com um conceito único para cada um deles e com as músicas se conectando entre si".
O mais recente trabalho do grupo,
We Have You Surrounded, seria originalmente um EP de cinco faixas. Acabou virando um álbum com 12 faixas que abordam, segundo a própria banda, "a paranóia urbana".
"Costumamos dizer que em Detroit, se você toca apenas um estilo de música, você não é sério", explica Collins. Talvez esse seja um dos motivos que o deixam tenso quando rotulam sua banda de garage rock. Isso se deve em grande parte a banda anterior de Collins, os Gories - essa sim de garage rock. O Dirtbombs nada mais é que uma resposta aos Gories. Enquanto essa última tinha somente duas guitarras e uma bateria somente de tom-toms, o Dirtbombs utiliza duas baterias e dois baixos para tocar um rock fortemente influenciado pelo soul, pela disco music e até pelo glam rock. Tendo mudado de formação diversas vezes, a alma da banda se manteve intacta, preservando a diversidades de ritmos que fazem a cabeça de Collins, a própria encarnação do grupo.
O chefão...

FATOR MICK COLLINSA banda já foi chamada para tocar numa festa do festival de Cannes e foi elogiada por Yoko Ono e Elliot Smith. Jack White, estrela do White Stripes e do Racounteurs, já disse que Collins é o chefão do garage rock de Detroit. Mas nada disso parece abalar Mick Collins. Nas entrevistas, ele diz que sua maior preocupação é a sua música. Collins age como um verdadeiro nerd: não bebe álcool, é viciado em histórias em quadrinhos, ficção científica e Star Trek. Prova de sua nerdice é a faixa "Leopard Man at C & A", cuja letra foi escrita pelo roteirista Allan Moore. "Moore toca de vez em quando com David Jay do Bauhaus e escreveu essa letra para o Bauhaus. Procurei essa música por um ano e nunca a encontrei, acho que eles não chegaram a gravá-la. Então, eu mesmo resolvi fazer a minha música para essa letra", diz Collins. O resultado ficou bem longe do clima gótico do Bauhaus.
As duas primeiras faixas de We Have You Surrounded, "It's Not Fun Until They See You Cry" e "Ever Lovin Man" misturam blues e punk. A primeira, abusa da sonoridade suja e do vocal abafado, enquanto a segunda soa mais punk com vocais femininos fazendo coro. "Indivisible" e "Wreck My Flow" são as duas músicas dançantes do álbum, ficando muito clara a influência da eletrônica.
A paranóia urbana, transformada em música, se torna apocaliptica, principalmente no final do disco. A urgência de "I Hear the Sirens" é seguida pelo caos sonoro da faixa que dá nome ao disco. A penúltima faixa amontoa uma série de ruídos em mais de oito minutos, preparando para a música derradeira, "La Fin du Monde". No final, o resultado fica abaixo do esperado para alguém com a bagagem musical de Collins. Mas não é o fim do mundo.