São bem próprias da música eletrônica as coletâneas que carregam nos títulos o nome de suas gravadoras. A Kompakt trabalha com êxito essa característica ao lançar com regularidade álbuns da série
Total, um compêndio do que melhor produzem os artistas desse núcleo de Colônia, Alemanha. Em 2007, a gravadora colocou no mercado o
Total 8, um CD duplo cujo material de vanguarda merece aqui o registro.
Com segurança, a Kompakt sabe vender sua marca. O
Total 8, além de ser um belíssimo portfólio, burilou festas com o estrelado elenco do selo e confirmou nas pistas a simpática impressão de que é feito por gente amiga. Da inevitável vocação "marketeira" é interessante ressaltar que está à venda no site do grupo um belíssimo case timbrado com o nome da marca. Coisa para fãs, que não são poucos.
Burger e Voigt: diretoria

O prodígio Gui Boratto é um dos que tem sua música na coletânea. Tal qual os sócios-proprietários da Kompakt: Jurgen Paape, Jörg Burger e Wolfgang Voigt, esses últimos em aparição especialíssima.
Principalmente, o trunfo de
Total 8 é a capacidade de transportar o ouvinte para outras atmosferas. Sem exageros, consegue criar cenários e desfazê-los nas 22 faixas distribuídas igualmente em dois volumes. Enquanto o CD 1 reparte-se em muitos gêneros, o CD 2 mais parece um set preparado, feito para quem já está acostumado aos pratos mais específicos desta cozinha contemporânea. Em ambos os casos não há mixagem entre as faixas, mas o tempo de duração delas é bastante semelhante.
ALMODOVAR X WARREN BEATTY"Man Lebt Nur Zweimal" (da dobradinha Burger/Voigt), de acordes retrô e dramáticos, ecoa no que parece ser uma visão moderna das trilhas de velho oeste. "We Love", de letra simples e produzida por Jürgen Paape, tem vocais de Superpitcher e combina com ventilador no cabelo, truque cênico que há quem diga já ter visto ele fazer de verdade. Ele próprio entrega "Rainy Nights In Georgia", um cruzamento de progressivo, techno e bons efeitos de trance. Hipnótico em boa medida.
Superpitcher

A esta combinação soma-se "Trauermusik", bastante calma, como marolas oceânicas se possível fosse desenhar a música. Em contraponto, há "Every Day" (do Rex the Dog), canção cheia de vocoders e vocação FM entregue logo no refrão: "Every day could be our last day, anyday".
As placas de nota máxima piscam com "Über Wiesen", trabalho de Tobias Thomas e Michael Mayer. Esse é daqueles sons para montar clipe na cabeça, com sol nascendo e sensação de missão cumprida. A delicadeza dos pianos lembra Eric Satie.
Confirmando o estilo mais eclético deste CD 1 aparecem "Polyform 1" (de Jörg Burger) e "In The Moog For Love" (de Steadycam), mais calmas, entradas perfeitas para o CD 2, apesar de esta última escorregar na sirene um pouco deslocada. Um dos poucos reveses, ao lado de "Mr. Decay", de Gui Boratto.
ESTILO PANASONICÉ possível dizer que se ainda estivessem na moda os aparelhos "carrossel", cujos CDs eram tocados um após o outro, a coletânea da Kompakt funcionaria como garota-propaganda para eles. Pois é uma equação tão bem resolvida que não importa por qual CD o ouvinte comece, terá a mesma boa experiência de escutar um álbum sem caminhos rígidos.
"The Closer", assinada por Hervé AK, tem o mínimo de elementos. Já "Mariposa", do experiente DJ Koze, traz um verdadeiro enxame desses insetos. É tão forte quanto sombria e bonita, bastante parecida com "Falter" - do Echo Club. "Pickpockets" (de Justus Köhncke) é arrebatadora, tão ritmada quanto os passos de Tecktonick para os quais a faixa parece ter sido feita. Então "Coladancer" (de Broke) escancara a índole double dutch para encerrar em "Cold Wind", de Schaeben & Voss, a poderosa tríade houseira.
Mais que perfeita trilha para histórias de cada um,
Total 8 é referência para conhecer o gosto de alguém. Filho preferido em boas estantes, o CD separa os homens das crianças.
ouvi o primeiro, agora ouço o ultimo, como base de comparação, valeu pela idéia.
Kompakt é foda mesmo.