O álbum de estréia do Crystal Castles soa urgente e desesperador, como se fosse a trilha sonora de um cenário caótico. É uma construção dos canadenses Alice Glass e Ethan Kath, que evoca o clima lisérgico e borram a sujeira do punk com fluorescentes sintetizadores 8-bits.
Com um mito maior do que a própria música, "Alice Practice" foi criado enquanto Ethan Kath brincava com sintetizadores e Alice, sem saber que estava sendo gravada, ensaiava na frente do microfone. A bela só foi saber que sua primeira música havia sido gravada quando recebeu a MP3 em sua caixa de correio.
Diferenciando-se da inocência dos Gameboys de certos
músicos chiptune, o duo usa os saudosos barulhos para atacar os tímpanos com devastadoras partículas 8-bit. E esse efeito característico é alcançando graças a um chip do clássico vídeo-game Atari instalado em seu teclado.
Porém, para imprimir o estilo Crystal Castles às suas composições, o duo às vezes abre mão da melodia e ataca com bases agudas e vocais gritados apenas pelo prazer de chocar. Ao contrário das apresentações ao vivo, onde há adição de peso e as faixas se fazem punk de verdade, no estúdio essa energia falha a convencer, soando mais como interferências em suas caixas de som.
E o problema é que essas 'intervenções sonoras' conseguem quebrar o agradável ritmo das faixas de bpm desacelerado e timbres mais aveludados, que são, sem dúvida, o grande triunfo dessa estréia. "Magic Spells", "Air War" e "
Knights" te guiam através de um mundo em
slow-motion repleto de línguas irreconhecíveis.
Isso porque Ethan mutila os vocais de Alice por todo o CD, fazendo com que as palavras percam a identidade a fim de se tornar elementos instrumentais. O que torna impossível a identificação, extensão e intenção real das letras. Um exemplo é a faixa "Crimewave", da banda de rock-noise Health - único remix/participação presente no lançamento -, em que o produtor canadense manipula tanto a timbre do vocalista que uma letra sobre sexo se torna mórbida ao fazer de morte (die) uma palavra constante. Detalhe que este trecho nem existe na versão original.
E como uma idéia, por mais criativa que seja, não consegue se manter se não for bem executada, a má transposição dos momentos mais hiperativos e claustrofóbicos fazem ruir o álbum como um todo. Talvez, com uma melhor produção e escolha de faixas (sim, 16 são um exagero), ele venha a soar menos como instalação e mais como música.
REMIXES
Além do álbum oficial, também tem circulado pela internet uma compilação intitulada Remixed Rewired, em que estão reunidas algumas das famosas reinterpretações da dupla. Tem remix para os Klaxons, Bloc Party e The Whip, todos adicionando às faixas originais a assinatura 8bit e a sonoridade de chip defeituoso dos canadenses.
As versões são sempre mais entorpecidas, reduzindo drasticamente a animação das músicas. De "Atlantis In Interzone", por exemplo, foram mantidas as sirenes de abertura, soando junto dos vocais bêbados dos Klaxons sobre uma linha de baixo catchy e cambaleante. Em "Hunting for the Witches", do Bloc Party, o elemento escolhido para guiar o remix é também o mais animado da fonte - nesse caso a guitarra frenética de Russell Lissack -, mas o resultado da reciclagem insiste em ser mais deprê e chapado.
No trabalho com "Trash the Rental", do quinteto londrino Soho Dolls, a dupla manipulou os vocais da mesma maneira que alguma cria do french touch faria - fatiando-os repetidamente até formar uma melodia complementar à criada pelos sintetizadores. Já na melosa "Lovers Who Uncover", dos Little Ones, a pegada pop da voz do vocalista foi sufocada por um filtro sinistro e por synths que poderiam musicar a tela de "Game Over" para algum jogo de Master System.
Flash Content
Crystal Castles - Hunting For Witches (Crystal Castles Remix vs Bloc Party) (mp3)
Crystal Castles vs Bloc Party - Hunting for Witches
Flash Content
Crystal Castles - Atlantis To Interzone (Crystal Castles vs Klaxons) (mp3)
Crystal Castles vs Klaxons - Atlantis to Interzone