Filme francês narra com delicadeza a história de menina rebelde nos tempos do aiatolás
O ano era 1979. O Irã vivia um regime ditatorial com o Xá Reza Pahlavi, que modernizava o país, mas esmagava a oposição do clero xiita e dos que defendiam a democracia. O Aiatolá Khomeini se aproveitou do desgosto da população e, com o seu apoio, fez a Revolução Iraniana, estabelecendo uma república islâmica com leis conservadoras inspiradas no Islamismo. Essas leis foram ficando mais rígidas com o tempo e acabaram facilitando as coisas para que Saddam Hussein no ano seguinte invadisse o país e começasse uma guerra sangrenta que durou oito anos e matou milhões.
Este é o pano de fundo de
Persépolis, a animação baseada nos quadrinhos autobiográficos de Marjane Satrapi e dirigida por ela e por Vincent Paronnaud. O filme é quase totalmente feito em preto e branco e mostra o crescimento de Marjane no seio de uma família intelectual e politizada que sofre com as regras rígidas dos aiatolás.
REBELDIA OCIDENTALMulheres não podiam sair sem véu, as meninas aprendiam chorar as vítimas da guerra batendo no próprio peito e havia falta de alimentos nos supermercados. Tudo só piorava, e Marji, rebelde por natureza, se transformou em punk e passou a ouvir Iron Maiden no quarto, num ato de rebeldia e protesto particular.
Mas seus pais se preocupavam. Sua personalidade forte acabaria lhe trazendo problemas, então eles mandaram a filha para Viena para que ela fugisse da guerra e pudesse continuar a ter uma educação laica. Só que Marji nunca conseguiu se adaptar. Depois de muitos perrengues, ela volta para o Teerã, mesmo sabendo que perderia sua individualidade e que deveria se submeter de novo às regras dos fundamentalistas.
Sua narrativa é esperta e ágil. Marji ri de si mesma assim como dos "guardas da revolução", e mostra para o mundo ocidental uma visão diferente do seu país. Não, os iranianos não são todos fanáticos, e sim, muitos deles acabaram virando fundamentalistas por causa de anos e anos sendo bombardeados (aqui no sentido figurado) por um governo repressor que educa como lhe convém.
O título, segundo o site do filme, é o nome "da capital persa fundada no século 6 A.C. e que depois foi destruída por Alexandre, o Grande. É um lembrete de que há ali uma antiga e importante civilização, assediada por vários invasores ao longo da história mas que segue firme até hoje. E segue muito mais profunda e complexa do que a visão atual do Irã como uma cultura única de fundamentalismo, fanatismo e terrorismo."
Persépolis também não é só isso. O filme retrata os sentimentos da autora, as incertezas da adolescência, o amor e a admiração pela família, as dificuldades na hora de crescer. Ao mesmo tempo, não passa de uma história simples, contada com traços simples.
A primeira Riot Girl do Islã.