Concept 1 - 96:CD (M-nus)
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ficha técnica
Nota: 4 / 5
Ano: 1998
Selo: M_nus
Estilos: techno, minimal, click
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Concept 1 - 96:CD (M-nus)
Primeiro CD do selo de Richie Hawtin ilustrou as relações entre techno e artes visuais
22.02.08 18:10
Há exatos dez anos surgia um dos mais controversos e relevantes selos da história recente da dance music. A M_nus foi fundada em 1998 pelo DJ e produtor canadense Richie Hawtin, e se tornou plataforma para o lançamento de artistas como Troy Pierce, Marc Houle e Magda. Sua trajetória, que começou como uma dissidência da grife de techno Plus 8, se confunde com o surgimento e consolidação do minimal techno, um dos rótulos mais debatidos, refutados e incensados da última década.

No mesmo ano de sua criação, a gravadora editou em um único álbum a série Concept, lançada originalmente em 1996 no formato de doze vinis. As faixas, que na época soavam como uma espécie de manifesto do minimalismo na música eletrônica, formataram as diretrizes que guiaram o desenrolar do minimal nos anos posteriores, até chegar aos dias de hoje. As músicas são de uma esterilidade extrema, utilizando a mesma "estética da exclusão" que, nos anos 60, colocou uma porção de artistas plásticos nova-iorquinos sob um único rótulo, batizado mais tarde como minimal art.

UNTITLED MUSIC
Relacionar o som e a estética da série Concept às "estruturas" e "propostas" de nomes como Frank Stella e Donald Judd é um exercício de observação revelador, que mostra instantaneamente algumas semelhanças intrigantes. Para começar, ambos decidiram abolir os títulos de suas obras. Gente como Dan Flavin, famoso por criar formas geométricas utilizando lâmpadas fluorescentes, as expunha sem nenhum batismo, assim como Judd - cuja assinatura era dispor em seqüência retângulos e quadrados pintados, feitos com latão ou cobre. À semelhança desses artistas, as faixas de Concept têm os títulos formados da combinação de ‘0's, e "o"s minúsculos e maiúsculos - que não remetem a nenhuma idéia figurativa ou temas concretos, e se justificam apenas enquanto som.
Sol LeWitt
Sol LeWitt

Assim como haverá sempre a controvérsia sobre a existência do minimal techno (há quem diga que é apenas techno, ainda que em uma forma naturalmente evoluída daquele feito ainda na década de 80), a arte visual minimalista também nasceu e amadureceu sob o movediço signo da dúvida. O termo foi cunhado pelo crítico Richard Wollheim, em seu ensaio Minimal Art, de 1965. Mas a parte irônica da história é que nenhum dos principais artistas associados posteriormente ao movimento pela crítica, como Frank Stella e Dan Flavin, foram citados no texto original de Richard.

Os próprios figurões do movimento recusavam o termo. Flavin disse, em 1967, que considerava "objetável" o convite para participar de uma "exposição de ‘arte minimal' sem título". "Não aprecio a designação de minha proposta como a de alguma ‘movimento' dúbio, jocoso, epitético, proto-histórico" (trecho encontrado no livro Minimalismo, de David Batchelor). Mas o fato é que, assim como aconteceu com o techno, o rótulo pegou e se tornou uma das principais correntes nas artes plásticas do pós-guerra norte-americano, ao lado da pop art.

EXPRESSÕES ESPACIAIS
O uso de pequenas estruturas em repetição para compor uma unidade maior também é encontrado tanto nas faixas de Concept quanto em um Sol LeWitt, por exemplo. Enquanto as músicas de Hawtin repetem loops mínimos de bateria e baixo ad infinitum para criar arranjos intricados com até dez minutos, LeWitt levantava suas esculturas híbridas repetindo quadrados vazados, soldados uns aos outros. David Batchelor afirma, em Minimalismo, que "uma fileira de caixas de aço não é menos sobre ou de sua época que um quadro ilustrado convencional. Pelo contrário, talvez". O mesmo pode ser aplicado à música.

Em "OOOOOOOOO0oo", a sétima música de Concept, fica explícita outra relação entre o minimalismo no techno e nas artes plásticas. Ambos abusam da experiência de espacialidade, e no caso da faixa citada, Hawtin brinca com os canais de áudio como se o ouvinte passeasse ao redor de uma caixa de som - emitindo música que ora fica mais distante, ora fica ao pé do ouvido. Robert Morris fazia algo similar com seus retângulos de madeira - os expunha em posições diferentes na sala, para que a posição do observador influenciasse na contemplação dos objetos.
Frank Stella
Frank Stella

O uso de texturas, como as que compõem a breve "OOO0oooooooo" se assemelha ao que Robert Rauschenberg fazia ao pintar sobre jornal amassado - criando saliências e irregularidades sobre a superfície da tela. A recorrência constante à ultra-simetria, que no caso da escultura surgiu como uma resposta ao antropomorfismo abstrato de artistas como Kandinsky, também é usado por Hawtin para extrair da música qualquer lembrança de que aquilo foi feito por alguém de carne e osso.

O som de Concept é essencialmente anti-natural, sempre composto pela forma geométrica recusada pela natureza - o quadrado. Os loops são dispostos como se houvessem sido soldados por uma máquina em série, sem breaks ou traços artesanais. Parecem ter saído de uma forma gelada, assim como as estruturas de LeWitt.

A filosofia da subtração, apesar de prescrita no começo do século passado por artistas como Ludwig Mies Van der Rohe (do aforismo "menos é mais"), ainda diz respeito à nossa realidade urbana, tanto na esfera visual quando na música. Mesmo que refutado por um suposto ataque neo-barroco na eletrônica (aka maximal), o minimal e a estética lançada pela série Concept ainda dizem muito sobre o tipo de som que consumimos hoje, mesmo que novos negociantes da moda tentem fazer o consumidor acreditar no contrário.
MP3
Flash Content
Richie Hawtin - OOOOOOOOO0oo (mp3)

Flash Content
Richie Hawtin - OOOOOOOOOO0o (mp3)

Flash Content
Richie Hawtin - OOOO0ooooooo (mp3)

Flash Content
Richie Hawtin - OOO0oooooooo (mp3)


Marcus Vinícius Brasil
Marcus Vinícius Brasil
twitter.com/marcvs
comentários
6 comentários
Fil
Fil(26.02.08)
0AprovadoQueima
Richie Hawtin realmente é um grande artista. Mesmo que tenha vindo com uma defasagem de 50 anos em relação há Bauhaus, merece ser respeitado pela ousadia de depurar os conceitos de detroit (graças ao "pulo" tecnológico da ultima década) em meio a overdose de referencias do final dos anos 90. Mas é bom ressaltar que de vanguardista (falando de arte de uma maneira geral) não teve nada.
Raul Cornejo
Raul Cornejo(25.02.08)
1AprovadoQueima
Acho q vc acabou esquecendo a regra mais elementar: keep it simple.
pablo
pablo(24.02.08)
1AprovadoQueima
porra!! fiz maior desenho ai na hora de mandar fica assim ??
pablo
pablo(24.02.08)
0AprovadoQueima

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kaks
kaks(22.02.08)
1AprovadoQueima
mto boa matéria. sua pesquisa foi interessante e mostrou similaridades reais entre diferentes formas de arte. além disso, a m_nus merece um presente no aniversário por tudo que fez pelo techno (e pelos bons momentos que propicia aos ouvintes de seus artistas). valeu pela matéria e viva a m_nus!que mais 10 estejam por vir...