Segundo álbum do produtor da Environ verte futurismo retrô com sintetizadores e violinos
20.02.08 14:55
Enquanto roqueiros famosos legitimam sua musicalidade em composições orquestradas, há um produtor que segue o rumo inverso, extraindo maravilhas da sua formação clássica para criar pequenas narrativas de pop eletrônico: é o croata-americano Kelley Polar e seu mundo mágico de contos espaciais ambientadas num sci-fi dance.
Kelley lança essa semana via iTunes seu segundo álbum, I Need To Hold You While The Sky Is Falling, seqüência cheia de futurismo vintage do elogiado Love Songs Of The Hanging Gardens (2005), ambos lançados pelo discreto e potente selo americano Environ (Metro Area, Morgan Geist, Daniel Wang).
UNIVERSO SINTÉTICO Os violinos de Kelley, remissão direta à sua infância ambientada pela disco, estão de volta, agora ornados por uma aura synth-pop obscura, sutilmente mesclada com a atmosfera futurista e non-sense de uma italo-disco dark, bem 80s. "Entropy Reigns (In The Celestial City)" exemplifica bem, num dueto de vocais homem vs. mulher, "tell me how does it feel", associação inescapável a "Blue Monday".
Não que Kelley seja pop na concepção mais conhecida da palavra - sua música é etérea e lúdica demais para virar até hit de pista -, mas sua construção de refrões e bridges trazem acessibilidade a uma melodia sempre repleta de elementos espaciais, entrepostos entre a cantoria e a base sempre abaixo dos 100 BPM.
METRO AREA NO BRASIL Está quase certa a vinda ao Brasil de Morgan Geist e Darshan Jesrani, a dupla do Metro Area, nomões da Environ. Eles devem tocar um live + DJ set no Vegas, em maio. A dupla ficou famosa em 2002 com hits do clickhouse como "Miura" (ouça) e "Caught Up" (ouça), ambas com participação de Kelley Polar nas cordas.
O músico, violinista desde os três anos de idade e famoso jubilado da clássica escola de artes Juilliard por ter tentado criar um recital eletrônico com vocais de beduíno, sabe utilizar estéticas retrô a seu favor, em "We Live In An Expanding Universe". A associação clara é com a Tonto's Expanding Head Band e seu gigantesco sintetizador analógico, máquina nababesca embrionária do acid e do electro. A faixa especula sobre a composição do Universo e seus mistérios com synth grandioso, sapos robóticos e baterias metálicas, um Lewis Carroll clubber.
Mais bolhas sintéticas do jurássico Tonto parecem soar em "A Dream In Three Parts (On Themes By Enesco)" e na existencialista "Zeno of Elea", ambas retrô de cunho cutting edge mais forte do que, por exemplo, Matthew Dear (outro americano) e seu Asa Breed.
LÚDICO Essa estética crua que mostra o denominador comum entre Kraftwerk e a deep house soa bem a ouvidos acostumados com o minimal pop de Isolée, e a soul house de Junior Boys, todos artistas com um inegável pé no pop. De modo que pop aqui simboliza o uso da abstrata música inorgânica para criar expressões compreensíveis, literárias. "Sea of Sine Waves" é um bebop de retrogosto latino, soul minimalista e ondas quebrando na praia.
Kelley Polar - Chrysanthemum
O primeiro single é "Chrysanthemum", sussurrada e sinestésica, que fala do calor solar e tem coro de backing-vocal potente num BPM de galope suave. Aliás, a veia minimalista é menor nesse álbum, por ele estar cheio de mosaicos de elementos cósmicos, quase uma concepção maximalista, pode-se dizer.
Só na versatilidade inorgânica da música eletrônca Kelley Polar encontraria liberdade para criar composições como "Satellites", uma inocente e infantilóide narrativa de amor entre satélites (!), cheia de raios energéticos e teclados descabidos aparecendo num break houseiro, quase downtempo. O abstracionismo rígido da polida música clássica não permitiria expressões sonoras como essas, e é isso que Kelley consegue fazer bem: contar histórias pela música dançante. Algo que pode até parecer simples, mas não é de modo algum.
polar é bom, mas só como experimento. profundidade mesmo tem os donos da environ, afinal, são os donos...
rs