Electropop esterelizado marca o novo álbum de Caroline Hervé, a eterna Miss Frank Sinatra
14.02.08 17:50
Para um artista, estourar sob os auspícios de algum rótulo momentâneo pode ser uma glória ambígua. Por um lado, é consagrador porque seu nome estará sempre associado ao gênero que garantiu seu sucesso, e ainda será lembrado para todo o sempre em retrospectivas e histórias da carochinha. Por outro, não será uma empreitada fácil desassociar sua imagem e sua sonoridade ao rótulo, caso algum dia ele caia no abismo do esquecimento ou, pior, congele no tempo para nunca mais voltar à luz da relevância.
Um dos exemplos mais emblemáticos dessa sinuca de bico em que se encontram muitos artistas é o da cantora e produtora francesa Caroline Hervé, mais conhecida pelo seu nome de guerra, Miss Kittin. Caroline apareceu para os porões do mundo todo na mesma época em que Amanda Lepore era sinônimo de glamour sintético e que Larry Tee dizia que caía bem ao som daquela virada de milênio o título "electroclash".
Miss Kittin no inesquecível after pós-Skol Beats de 2007
NARINAS SECAS Mas esse tempo passou e a estética da época se petrificou em uma bolha temporal, junto ao auge da francesa. Dez anos depois, Kittin acaba de lançar um novo disco pelo seu próprio selo, o Nobody's Bizzness. BatBox saiu sem muitos confetes no dia primeiro de fevereiro e conta com a produção do veterano Gabriel Pascal. Sobrou pouco da crueza de suas primeiras composições e do tempo de "Frank Sinatra", quando os sintetizadores eram secos como as narinas de seus amigos famosos e ainda havia muito espaço para trepar na área VIP.
O álbum é uma continuação do trabalho de reciclagem que Kittin já começou a fazer em seu lançamento anterior, I Com, de 2004. "São treze faixas sobre minha animada viagem através da mudança. Deixe os morcegos voarem para fora da sua cabeça, adeus antigos fantasmas! Na luz, as sombras encolhem. Tempo para uma nova percepção, um mundo de intuição", diz a francesa em seu site oficial.
É mesmo natural que Kittin queira pular de um barco encalhado há anos, então as faixas soam mais sóbrias e os vocais não trazem mais aquela rouquidão desleixada induzida por efeitos digitais. O resultado é um disco de electropop esterilizado, com bons momentos de inspiração voltados para a pista, mas que rala para convencer que seu objetivo maior não é simplesmente manter o nome da cantora rodando no mercado.
HIGH, VERY HIGH BatBox abre com "Kittin is High", o primeiro single e destaque do disco. A faixa tem uma linha de baixo em arpejo e vocais etéreos acompanhando a bateria reta. Ao invés de sacanear com cantores famosos falecidos, a moça agora fala em bruxas e vampiros: "O sol está alto, eu estou indo para fora / Vampiros estão adormecidos / Bruxas estão tomando conta".
"KITTIN IS HIGH"
A música que dá título ao álbum faz lembrar mais a antiga assinatura electro 2000, mas repaginada e com um forte quê comercial. Destaque também para "Play Me a Tape", com seus vocais virginais e batida quebrada à la (Kittin que nos perdoe) electroclash.
"Solidasarockstar" (vejam, nem toda pose blasé ficou para trás) flerta com o break-beat em câmera lenta, similar à bombástica "Requiem For a Hit". A música é vagarosa, cheia de melodia, e tem uma linha de baixo atraente - prova de que coisas boas ainda são desenfornadas pelas mãos da produtora e que pensar o contrário é pura maldade preconceituosa.
MUITOS MORCERGOS AINDA Mas há também os momentos injustificáveis, como a estranha "Barefoot Tonight" e a sacal "Pollution of the Mind". De resto, "BatBox" não anda muito mais na fórmula electropop e a repete em "Wash'n'Dry" e em "Sunset Strip", com o mesmo jogo de vocais e sintetizadores sobre bateria quebrada.
Miss Kittin espantou os morcegos do sótão e mudou, afinal, ela é uma veterana e aprendeu a se reinventar ao longo dessa década. Mas ainda que ela prefira fazer electro para o regozijo das massas, a sombra de seu passado junkie e brilhante ainda vai ofuscar qualquer de suas tentativas de mudança por muito tempo.
essas músicas não me dizem nada... não passam nada...
ouvi-las ou não em alguma pista não faria a menor diferença.