Antes do cantor dinamarquês
Raz Ohara chegar aos ouvidos do grande público, principalmente através das produções de Alexander Kowalski e Apparat, ele já compunha suas próprias canções. Mas ao contrário do virtuosismo técnico alcançado com suas parcerias, Raz sempre foi afeito a paisagens mais despojadas, concebidas para serem ouvidas não com os pés na pista, mas pousados sobre algum banquinho de vime, numa varanda.
Seu primeiro disco,
Realtime Voyeur, já mostrava essa tendência de usar sintetizadores a propósitos jazzísticos e espontâneos; e seu novo álbum,
Raz Ohara and the Odd Orchestra, se aprofunda ainda mais nessa abordagem. O disco acaba de ser lançado pelo selo alemão Get Physical - casa de Booka Shade e M.A.N.D.Y - e conta com a participação do músico berlinense Oliver Doerell. Oliver é responsável pela parte instrumental das faixas e também por fazer um contra-peso acústico aos synths do dinamarquês.
As músicas são, em sua maioria, compostas à luz dos vocais aveludados de Raz. Dedilhados de violão também não faltam, como na bucólica "Wondering", desfiados sobre chiados bem baixinhos de teclado e crescendos melodiosos. As composições de bateria não poderiam ser mais minimalistas, e geralmente se resumem a uma caixa preguiçosa marcando o compasso ou a algum chimbal tímido acompanhando a toada.
MENOS VIRTUOSISMOO nível técnico passa longe do alcançado na parceria com Apparat, portanto não há nenhum momento de catarse auditiva como os proporcionadas por "Hailing from The Edge" ou "Arcadia". Aqui, as músicas se prolongam em um marasmo ensolarado, contemplativo, que apesar de não chegar a ser excitante, garante agradáveis momentos de lirismo escapista.
"The One" é o destaque do álbum. Guiada por um violão saudosista, faz lembrar alguma bossa cantada em inglês, com um pianinho acompanhando ao fundo. A base, animada e encantadora, serve de moldura para Raz desenrolar seu gogó envolvente. É o ponto mais alegre de um disco rarefeito de animação, mas que ainda encontra alguma felicidade contida na sugestiva "Happy Song" e na já citada "Wondering".
Raz Ohara and the Odd Orchestra é um disco composto sem momentos de êxtase, mas repleto de melodias convidativas e baladas agradáveis. "Love for Mr. Rhodes" tem barulhos de passarinhos sonolentos e "Kisses", outro destaque do álbum, faz um bom resumo do que aparece no resto do disco - faixas para se ouvir sem compromisso, com tempo disponível para prestar atenção nas nuances de Raz e aproveitar a bela voz do rapaz.