Paranoid Park
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ficha técnica
Paranoid Park
Direção: Gus Van Sant
Elenco: Gabe Nevins, Taylor Momsen
Duração: 80 min
Nota: 3.7 / 5
Ano: 2007
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Paranoid Park
A adolescência complexa e naturalmente resignada, pela câmera de Gus Van Sant
29.01.08 22:40
Adolescência não é a época mais fácil da vida. Crescimento desordenado, mudanças físicas, psicológicas e comportamentais, novos desafios e vontades, medos e ansiedades. O diretor americano Gus Van Sant não deve ter tido das mais simples juventudes.

Jared e Alex no Paranoid Park
Jared e Alex no Paranoid Park
Com Paranoid Park, 12º e mais recente filme do cineasta responsável por diversos clipes musicais nos últimos quinze anos e autor de Elefante, Garotos de Programa e Gênio Indomável, Van Sant eleva à estratosfera a sua capacidade de esmiuçar como ninguém a complexidade psicológica de jovens garotos.

No filme, Alex (o novato Gabe Nevins), é um skatista por volta dos seus 16 anos que descobre o mundo de pirações do Paranoid Park, reduto de skaters e jovens marginalizados. Sua curiosidade vai pela via da ousadia comedida, fazendo tudo certo até se envolver num acidente fatal com um segurança, quando ele tenta surfar em um trem próximo ao parque.

TENSÃO CONSTANTE
Van Sant é famoso por seu minimalismo truncado, linear, mas não-seqüenciado, que estica a expectativa do espectador até algo que enfim ocorre: a tensão é o mote, o aspecto em si. É uma estética usada nos seus mais recentes filmes, Elefante, sobre o massacre na escola de Columbine, e, num caso mais extremo e entediante, em Last Days, filme baseado na vida de Kurt Cobain.

Em Paranoid Park a tensão é menos elástica, subordinada pelo carisma do jovem protagonista e seu nariz de espinhas latentes. Há um sutil humor, tanto no trato do protagonista com sua assanhada namorada, a qual ele não quer nem se esforça para acompanhar o ritmo sexual; e também na linguagem resignada, bem fiel ao jeito norte-americano de poucas palavras, quando ele lida com familiares.

As tomadas, como há de se esperar, são longas, contemplativas e fiéis à intenção do diretor de nunca valorizar ciclos lógicos de acontecimentos. Aqui se valoriza o pensamento do tempo que passa, Alex é retratado mais tempo interpretando a si mesmo do que agindo de maneira efetiva.

Paranoid Park Soundtrack
1. Nino Rota - La Gradisca e Il Principe
2. Elliott Smith - Angeles
3. Elliott Smith - The White Lady Loves You More
4. Nino Rota - Il Giardino Delle Fate
5. Billy Swan - I Can Help
6. Henry Davies - Tunnelmouth Blues
7. Cast King - Outlaw
8. Menomena - Strongest Man In The World
9. Cool Nutz - I Heard That
10. Nino Rota - La Porticina Segreta
11. The Revolts - We Will Revolt
12. Nino Rota - L'Arcobaleno Per Giulietta
13. Beethoven - Symphony N°9 "Choral"
14. Ethan Rose - Song One
15. Robert Normandeau - La Chambre Blanche (Extrait)
16. Frances White - Walk Through « Resonant Landscape » N°2
O PESO DO COTIDIANO
É assim em praticamente todo o filme, o cotidiano e a supressão juvenil que não consegue vencer nem a magnitude de acontecimentos fatais: tanto faz, separação dos pais, fim de um namoro, piada de amigo, ou acidente envolvendo morte - nada funciona melhor que o andar do relógio.

Mais do que alienação juvenil, conceito que adultos que de elevada autocrítica sempre vão enxergar no filme, o que ocorre aqui é a evolução por osmose. Todos os acontecimentos apenas somatizam uma personalidade pré-adulta a ser formada, e os reflexos disso só ocorrerão - ou não - no futuro.

Só que Van Sant não se dá ao trabalho de passar esse recibo, e foca as poucas horas do acidente de Alex bem a seu modo: linguagem etérea, apreciando mais o sentimento do que uma escalada de fatos. É cinema sinestésico, nada lógico e racional, potencializado por uma trilha sonora melancólica (veja box).

SKATE PSICODÉLICO
Quem cresceu ou ainda salta sobre a prancha de um skate há de se deliciar com as tomadas em slow-motion e Super 8 dos skatistas em pipes, túneis de esgoto e ruas do tal Paranoid Park, lugar que existe até hoje e foi parar na grande tela após o escritor Blake Nelson criar um livro a respeito.

E Van Sant está em casa: fala da úmida e fria Portland, cidade vizinha do existencialismo grunge de Seattle, aquele vazio da adolescência perdida por simplesmente ser. A cidade é personagem do filme não só pelo parque ou pelas tomadas a identificar bem seus bairros e características locais - o excesso de Nikes Terminator é sintomático pois Portland é sede da multinacional de calçados, - mas por estar ali expressando o momento, um lugar que apenas existe como Alex, criminoso por acidente ou não, isso tanto faz.

Um parênteses geo-cultural: Portland é centro cultural e abastado dos EUA, foco de agitada cultura alternativa e das cidades mais populosas do país, logo, o filme é bom catalisador de um lugar onde a cultura pop encontra terreno fértil. Olhos mais estéticos perceberão a disseminação de olhos emos pintados de preto, meninas a la Avril Lavigne, calças skinny dando lugar aos jeans tradicionalmente bag dos skatistas, e claro, o hip hop como mainstream máximo.

A CATARSE ESTÁ NA LINGUAGEM
O cinema de Van Sant é de um minimalismo efetivo pois foge do andamento padrão hollywoodiano (o diretor assina o roteiro também), e nem passa perto do recurso bem utilizado nos últimos anos de cruzar X personagens diferentes para ampliar o campo sociológico da história. As tomadas montadas de forma desorganizada despertam a curiosidade naturalmente e a essência dos fatos está no modo como cada personagem lida com sua questão, não nos acontecimentos em si.

Não espere respostas resolutivas de Van Sant, apenas contemple. Se em Elefante você saberia que um tiroteio estava por vir, e em Last Days você apostava para ver como o suicídio do roqueiro ia ser retratado, aqui a catarse é inversa, existencialista mesmo e nula, goste você ou não de ver os créditos subirem de repente na telona.

Jade Augusto Gola
Jade Augusto Gola
Ilegal, imoral e engorda
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