O mundo já viu, algumas vezes com olhos marejados, muitas bandas e produtores reciclarem sonoridades regionais em nome da boa inovação e do progresso da música. Apesar do tema não ser novo, foi no ano passado que ele voltou com força graças à explosão dos chocalhos do balkan beat, à
tendência globalista de alguns DJs e ao lançamento de
Kala, álbum multi-étnico da anglo-cingalesa MIA que para muita gente ficou entre os melhores de 2007.
E no meio dessa efervescência de sotaques, um grupo nova-iorquino de nome estranho encerrou o ano com um dos álbuns mais interessantes e inventivos no que se refere a invocar referências do além-mar - o Yeasayer. Saída do Brooklyn, a banda lançou
All Hour Cymbals - seu disco de estréia - em outubro, pelo sugestivo selo independente
We Are Free, e conquistou ouvidos menos engajados com o pop com sua sonoridade bruta e ritualística.
BATUCADA ROCKO quarteto, formado pelos músicos Anand Wilder, Chris Keating, Ira Wolf Tuton e Luke Fasano, faz um som essencialmente percussivo, mas que não aposta somente na intensidade e na dinâmica criada pela batucada. Por cima dos bumbos, estouros de chimbal e meia-luas, há espaço para melodias intricadas, sintetizadores atmosféricos e coros épicos. Os momentos de quietude praticamente não existem e, mesmo quando há algum instrumento soando solo, texturas e ambiências acompanham de longe, ao fundo.
Ao contrário da maioria das bandas saídas atualmente do Brooklyn - bairro que se tornou sinônimo de atitude hipster em Nova York - o Yeasayer compõe faixas distantes do hedonismo clubber predominante na região. Suas letras são carregadas de otimismo místico, com um quê de ingenuidade. "É ano novo / estou feliz de estar aqui / é primavera fresca / vamos cantar", diz o refrão da messiânica "2080" - primeiro e único single lançado pelo grupo até agora.
Os nova-iorquinos, que dobraram a esquina rumo às audiências mundiais após o festival South by Southwest 2007, lançam mão de samples de aves, muita reverberação nos instrumentos e camadas sobrepostas para criar um vendaval de timbres. O turbilhão inclui crianças cantando em coro, tambores africanos, referências à música oriental e guitarras distorcidas.
Quarteto global

All Hour Cymbals abre com "Sunrise", cuja linha de percussão poderia ter saído de alguma faixa do Cordel do Fogo Encantado. Mas ao contrário da banda pernambucana, o Yeasayer segue por um caminho mais melódico, cheio de sintetizadores etéreos e sussurros ecoando ao infinito. "Wintertime" revela a vocação ao rock psicodélico do grupo e a aproxima de alguns outros artistas dessa leva neo-kraut como o francês
Turzi e o californiano
Wooden Shjips (escrito assim mesmo, com J).
A LUZ COMO SALVAÇÃO DO MUNDOOuto destaque é "Winter Time" (pelos nomes, nota-se a abordagem pagã e escapista das músicas do quarteto), guiada por uma meia-lua insistente e por um violão despojado. O clima lisérgico é reforçado pelos backing vocals distantes e pelo coral de vozes melodiosas - fórmula perfeita para ser tocada à noite, ao redor da fogueira de algum acampamento cigano perdido na Europa oriental.
All Hour Cymbals embarca na globalização cultural e faz com o rock psicodélico algo similar ao que Ricardo Villalobos já fez pelas veredas do techno e MIA pelas do pop. O disco de estréia do Yeasayer é, além de uma garantia de audições prazerosas e viagens distantes, um manifesto de esperança e de boa vontade com o futuro. No single de "2080", uma mensagem com os seguintes dizeres acompanhava o disco: "Em 2080, apenas a iluminação poderá evitar o terror em todos os lugares". Talvez seja a tentativa de mostrar que, se tantas referências culturais podem coexistir em um único disco, uma resolução similar para nossos problemas políticos e humanitários ainda seja possível.
Fica a dica também da Vampire Weekend, que segue +- essa linha.
Abç.