Novo álbum do produtor alemão saiu pela Cocoon e nós ouvimos as faixas imersos num matagal urbano em São Paulo
Pouca gente sabe do prazer que é passar uma manhã nublada no parque ouvindo minimal techno. E depois de ler a notícia de que o alemão Dominik Eulberg, conhecido amante da natureza e de aves selvagens, estava lançando um novo álbum pela Cocoon - apenas alguns meses depois de seu trabalho anterior,
Heimische Gefilde, ter saído pela Traum -, resolvi procurar no meio do mato a fonte da prolificidade do produtor.
Fui escutar
Bionik dentro do Parque Tenente Siqueira Campos, o famigerado Trianon, para tentar entender de que maneira o clima úmido dos matagais inspira Eulberg a domar suas sonoridades borbulhantes. O lugar não podia ser mais adequado, já que ele é um pedaço de verde incrustado em um dos maiores blocos de concreto do país - a avenida Paulista, em São Paulo. A mistura do som de folhas farfalhando com buzinas abafadas pela densa folhagem do lugar combinou perfeitamente com a atmosfera do álbum, que permeia do começo ao fim a relação paradoxal entre o mecânico e o natural.
FAUNA ARTIFICIALOs estalos e ruídos característicos do minimal, que no isolamento de um quarto silencioso podem não fazer muito sentido, vão se fundindo aos poucos com os cliques e bleeps da vegetação. Foi inevitável, ao primeiro canto de pássaro de "Der Traum vom Fliegen" ("O Sonho de Voar", em alemão) olhar para a copa das árvores em volta e, constatado que não havia nenhum bem-te-vi sobre minha cabeça, colocar a música para tocar novamente. E para meu alívio, lá pelos três minutos da faixa realmente aparece a sample de algum passarinho camuflado pela flora intrincada e sintética de Dominik.
O barulho de lufadas de vento repentinas arrastando folhas secas serviu mais de uma vez como instrumento (literalmente) orgânico nesse arranjo híbrido. O assovio estridente e frenético de insetos imaginários ou o grunhido metalizado de alguma ave - como o que abre "Freche Früchte" -, idem. Todos aparecem em
Bionik, curiosamente vestidos com trajes sintéticos sob alguma linha melódica de sintetizador. Até o som de uma fonte de água que estava nas proximidades parecia ter sido sampleada para a construção de algumas linhas de baixo do álbum.
O Trianon

É como se todos os elementos das músicas se revelassem vivos sob o estímulo da clorofila e do cheiro forte de terra que havia no parque. É difícil, talvez impossível, não imaginar - nesse contexto - que é o barulho de um grilo irrequieto que acompanha a belíssima linha melódica de "Löwenzahn-Luftwaffe". E foi assombroso quando, ao fim da mesma música, um casal de maritacas empoleiradas em algum galho do Trianon começou um duelo vocálico quase que acompanhando o tempo da faixa. Lisérgico.
DUALISMO EULBERGUIANOO lado mais mecânico do disco, que me fez lembrar do pandemônio urbano que se passava a poucos metros dali, aparece com força em "Autopfoten", com seus estouros de metal enferrujado, e "Haifischflügel", repleta de graves distorcidos e arrastados. O caráter mutante das músicas de Dominik, que tornou a excêntrica "Die Rotbauchunken vom Tegernsee" um hit, não aparece tão acentuado em
Bionik, mas as variações de humor e os elementos que saltam de surpresa para dentro dos arranjos não faltam. "Rückenschwimmzipper" é um exemplo, com suas repentinas mudanças de direção, incursões distorcidas ou mergulhos no silêncio puro.
Mas ainda assim, a maior parte das músicas serve ao propósito de contemplação interior ou exterior, o que depende do lugar e estado de espírito em que você está. No fim das contas, a impressão é de que os paradoxos propostos por Dominik em
Bionik - do nome do disco ao título das faixas - têm muito mais a ver com nosso cotidiano do que uma primeira audição pode revelar. Talvez seja o palpite de um produtor que acredita que seja possível o convívio pacífico entre o cheiro de asfalto e o de grama molhada, ou de maneira mais óbvia, que pode haver vida e emoção correndo pelas veias geladas do techno.
Lotuseffekt
Vale 14.90 no beatport, até pra quem não é DJ.
Tapa na cara da burguesia isso
e Dominik Eulberg é uma potência do minimal... não tem nem o que dizer