PJ Harvey - White Chalk
Sentada ao piano, a cantora inglesa faz do fundo do poço um belo lugar
07.01.08 15:10
Pergunte a qualquer músico de jazz, rock progressivo e afins qual a importância de dominar um instrumento e ele responderá que "possuir técnica abre muitas possibilidades, pois o músico se torna capaz de executar o que quiser". Faz sentido, mas verdade que muitas vezes o inverso pode ser mais interessante: criar dentro de uma limitação faz com que o artista tenha que extrair o máximo da criatividade sem apelar para solos a 300 km por hora ou outros truques batidos.
White Chalk, oitavo CD da cantora inglesa PJ Harvey, vem reforçar essa tese. Nele, PJ desligou os amplificadores, guardou a guitarra no case e resolveu sentar ao piano. Ela não sabia (e provavelmente continua não sabendo) tocar o instrumento, e reside nesse detalhe boa parte da força do álbum. Ao invés de desfilar harmonias cheias e "complexas" (a quantidade de notas que os guitarristas virtuosos desperdiçam em solos, os pianistas o fazem em acordes), ela cria arranjos minimalistas, apertando as teclas como uma criança que brinca de descobrir sons. E que belas melodias ela encontra...
Vocais sussurrados e melancólicos, alguns toques de harpa e uma percussão sutil completam a sonoridade de um álbum tão belo quanto triste. E se é usado aqui o termo "álbum" é porque se trata realmente disso: White Chalk possui uma lógica e uma coerência interna, não se tratando apenas de uma reunião de músicas aleatórias compostas dentro de um certo período, como acontece na maioria dos lançamentos da indústria fonográfica.
NA ESCURIDÃO
A primeira faixa, "The Devil", já resume bem o espírito que permeia todo o trabalho. Começa com uma introdução simples e poderosa: enquanto acordes são martelados na cabeça de cada tempo, uma melodia quase etérea é cantada por um misto de voz humana, assobio de vento e sintetizador. Em seguida, PJ confessa: "Assim que sou deixada sozinha/ o diabo vaga pela minha alma". No refrão, grita contida "Venha, venha [...] porque todo o meu ser está se consumindo" e logo volta a sussurrar "O que enfim me alegrou/ agora me parece insignificante". E então, quando parecia que o refrão seria repetido ou uma nova estrofe acrescentada, a música termina com um acorde solitário soando até desaparecer. Todas as canções de White Chalk parecem acabar antes da hora, como se após contar seus segredos mais íntimos PJ se arrependesse e calasse. Mas o silêncio só dura até a próxima música, quando novos demônios são trazidos à tona.
É assim em "Dear Darkness", na qual a cantora conversa com a escuridão e pede para esta a cobrir, dizendo que foi sua amiga por muitos anos; "When Under Ether", em que PJ descreve uma anestesia e diz sentir felicidade ao olhar para o teto deitada em uma cama; e na faixa que dá nome ao álbum e seu ambíguo verso "passeei com nossa criança não-nascida em mim". Estaria PJ falando sobre aborto, sobre perda ou simplesmente sobre coisas que nunca aconteceram?
Ironicamente, é a faixa intitulada "The Piano" a que mais se parece com um rock. Ou melhor, a que mais parece que poderia se tornar um rock. Começa com uma letra violenta, dentes sendo esmagados com um martelo, mas na hora H, quando se tem a certeza de que tudo explodirá em um refrão raivoso, PJ puxa o freio de mão e murmura "Oh God I miss you..."
As duas músicas seguintes destroem de vez qualquer esperança de ouvir algo remotamente pesado ou otimista. A última faixa, "The Mountain", é de uma tristeza e de um desengano profundos. PJ tem certeza de que tudo está perdido e finaliza a canção com gritos ao mesmo tempo desesperados e renegados.
White Chalk é um disco para se ouvir de olhos fechados, contemplando a própria desolação. Caso o ouvinte não tenha nenhuma dor lhe atormentando, logo tratará de inventar uma, pois PJ Harvey mostra, com toda (in)habilidade, que o fundo do poço é um belo lugar para se estar.
Raquel SetzBarulhos, experimentações e esquisitices em geral
o cd é maravilho como todos da PJ!
Confesso que estranhei bastante o novo disco. Mas no meu caso isso é um bom sinal. Gosto de provocações. Agora um protesto: fui correndo comprar o cd e me decepcionei com a qualidade gráfica, encarte etc. Não conheço a versão gringa, mas acredito que não seja tão pobre como esta. Acho que isso é incentivo à pirataria. O mesmo aconteceu com "Volta" da Björk. Não dá nem para ler as letras do encarte. Uma vergonha.
Raquel, coloque mas resenhas pra gente.
Esta ficou bem legal.