Produtor de Amy Winehouse e Lily Allen faz a ponte entre o pop britânico e estadunidense
Ele tem um pé fincado no soul europeu, com inspirados naipes de metal que lembram a banda-projeto Commitments, e outro no atual hip hop norte-americano, universo por onde o branquelo Ronson circula com bastante conforto. Também é conhecido por agitar festas de P.Diddy e casamentos de celebridades como Tom Cruise, mais todo aquele blablablá cheio de glamour que você já deve ter lido nas revistas no Brasil que estão encantadas com a presença do rapaz entre nós.
Mas o interessante aqui é só o que faz dele um dos produtores em alta do momento: a capacidade de conseguir fazer a ponte entre o que existe de melhor atualmente no pop inglês (não por acaso, é ele o genial arranjador que deu alma aos discos recentes de Lily Allen e Amy Winehouse) e norte-americano (a super trabalhada produção dos discos do universo hip hop). Exemplo claro é a versão de "Toxic", maior momento da musa white-trash Britney Spears, retrabalhado pela enésima vez, cheio de metais e com o vocalista Tiggers e o falecido rapper Ol' Durty Bastard repartindo os vocais.
CHARME E TALENTO O ecletismo não é novidade. Ronson já tinha mostrado do que é capaz em seu primeiro álbum,
Here Comes the Fuzz, lançado com bastante sucesso em 2003. Mas é em 2007, com
Version, que o talento de arranjador alcança novos patamares, e não só por causa do celular cheio de bons contatos. O trabalho com Amy Winehouse na versão para "Valerie" do Zutons, por exemplo, você pode achar quase cruel, mas não dá para não prestar atenção no (termo recorrente) naipe de metais em um crescendo constante, os
bells, as cordas e toda a musicalidade que vem à frente do vocal grave e delicado da cantora-sensação. Acentuar ou suavizar determinados contornos para chegar no clima certo é trabalho do produtor e, nesse sentido,
Version é um sucesso.
A mesma constatação vale para a participação do vocalista do Maximo Park, Paul Smith, na releitura com um quê ska de "Apply Some Pressure". A faixa mudou de um bom rock indie bem inglês para algo entre a salsa e o northern-soul, com trompetes e violinos, épica e exagerada - mas com a benção do criador original. Coisa que parece que não aconteceu na versão mais falada de todo o disco, "Stop Me if You Think You Heard this One Before", clássico-corno dos Smiths que ganhou interpretação dançante e poderosa do vocalista australiano Daniel Merryweather, colaborador constante de Ronson (o primeiro álbum de Merryweather é o trabalho atual do produtor e deve chegar ao mercado em meados de 2008) e que, diz a lenda, rendeu não só um bafo midiático com os Arctic Monkeys como uma ameaça de morte por parte de fãs mais maníacos da ex-banda do Morrisey.
Mark Ronson, Daniel Merriweather e banda fazem "Stop Me" ao vivo no Glastonbury 2007Mas é como eu disse: lenda. E a persona Mark Ronson está imersa nelas. Filho de uma socialite britânica, aos 8 anos mudou para NY e onde sua mãe foi casada com o guitarrista Mick Jones (da banda Foreigner), o que rendeu uma infância cheia de histórias de como seus desenhos infantis teriam sido analisados por Andy Warhol ou que teria acordado uma manhã para ver seu padastro jogando xadrez com David Bowie na sala do apartamento. Tudo isso e muito mais está na rede em uma pequisa rápida e em revistas para adolescentes, que adoram o charme de garoto certinho do produtor. E tendo esse background em mente, é engraçado pensar nas releituras que Ronson faz de faixas como "The Only One I Know", hino dos 90 da banda Charlatans UK, agora com vocal do charlatão pop Robbie Williams. Ou "Just" do Radiohead, com a banda californiana Phantom Planet (sim, aqueles da trilha de abertura do seriado teen
OC).
E é aí que está a graça. Gatinho, bem-nascido e cheio de charme, Mark Ronson nem precisava ser talentoso. Mas é, mesmo com seu gosto peculiar por excessos musicais e sua pretenção desproposital. E isso, em um mundo onde o perfeccionismo dos produtores está pau-a-pau com a criatividade dos artistas (Timbaland, Neptunes e não me deixam mentir) pode ser capaz de torna-lo um dos criadores importantes deste começo de século.
A minha preferida no disco? "Inversion", cheia de
french horns, pianos e bossa. É a faixa que em apenas um minuto e quarenta e sete segundos concentra todo o clima de
Version.
+/-
"Inversion" é boa
todo dia nos ouvidos!
adorei a resenha gá.
=c)