Apesar do frio, Creamfields Buenos Aires ferve
Tendas próximas misturavam os sons
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Apesar do frio, Creamfields Buenos Aires ferve
Principal festival de música eletrônica argentina consagra top artistas e o house progressivo
13.11.07 15:15
O escritor brasileiro Miguel Sanches Neto escreveu certa vez que "Buenos Aires é qualquer coisa entre La Paz e Madrid, Paris e Havana.". Miguel parece estar certo: dos edifícios antigos e suntuosos ao novíssimo bairro de Puerto Madero (Madrid? Paris?), passando pelo traçado das avenidas largas apinhadas de carros deteriorados (Havana?), e chegando até periferias cada vez mais repletas de imigrantes indígenas (La Paz?), Buenos Aires representa como nenhuma outra cidade as ambigüidades que o desejo de erguer uma metrópole européia em plena América do Sul representa.

A paixão dos argentinos pela música eletrônica talvez possa ser explicada por esta influência européia tão presente na cultura local. Os argentinos, em especial os portenhos, importaram cedo o costume de amanhecer em uma pista de dança, e junto com a empolgação da música vieram clubes, festas e marcas européias.

Uma das marcas a desembarcar em Buenos Aires foi o Creamfields. Em 2001 foi realizada a primeira edição do festival fora da Inglaterra, e de lá pra cá o evento se tornou símbolo da movida argentina. Este ano estima-se que cerca de mil brasileiros foram à Buenos Aires para a festa, que bateu novo recorde de público e contou com mais de 65 mil pessoas, público que confirma o evento como o Skol Beats porteño.

Muitas atrações = Horários Cruzando
Realizado no Autódromo da Cidade de Buenos Aires, o festival tinha um line-up extenso, ilustrando bem a preferência do público local pelo house progressivo: John Digweed, Dubfire, James Zabiela, Hernan Cattaneo e 16 Bit Lolitas eram headliners. Ao mesmo tempo sinalizou o retorno do techno com Carl Cox, Christian Smith, Anderson Noise e Craig Richards. Minimal, house, tech-house e electro estavam bem representados por Mark Farina, Wally Lopez, Tiefschwarz, Aril Brikha e Matthias Schaffhauser, além de bandas como 2 Many DJs, LCD Soundsystem e, é claro, a maior atração do festival, os Chemical Brothers.

Como sempre acontece em grandes festivais, por mais tendas e palcos que houvesse as principais atrações acabaram se apresentando em horários idênticos, o que significa ter que fazer difíceis escolhas e se conformar em perder a chance de ver muita gente.

Cheguei no festival perto das 22h30, e no caminho pude escutar pelo rádio trechos da ótima apresentação de Mark Farina (foto). Na entrada, o que chamava mais a atenção não era o novo local da festa, grande mudança em relação aos outros anos, mas sim um frio com vento cortante que dificultava permanecer nos lugares abertos. Isto fez com que as pessoas se concentrassem nas tendas, que tiveram alguns problemas de superlotação (Cream Arena). Hernan Cattaneo atraiu uma multidão às 21h00, que segundo relatos foi uma das melhores da noite. Enquanto chegava na festa, conseguia ouvir, à distância, do estacionamento, o show do LCD Soundsystem, que pareceu empolgar o público.

O Autódromo não chega a ser um local ruim para eventos, mas é mais acanhado e não tem um visual tão simpático quanto o parque imenso de Puerto Madero, além de ser numa distante e perigosa região. Como as tendas ficaram mais próximas umas das outras, em vários locais o som de cada uma delas se cruzava ou se misturava ao do palco principal.

CHEMICAL
Chemical e sua fauna
Chemical e sua fauna
Perto da meia-noite, era hora do show mais aguardado do festival. Os Chemical Brothers não visitavam a Argentina desde 2004 quando fizeram um set em uma festa aberta promovida pelo clube Pacha, e dessa vez a qualidade impressionante das imagens nos telões do palco principal fez da apresentação de Tom e Ed um show inesquecível. Até quem não é chegado muito no som da banda se rendeu ao espetáculo de som e imagens. Cheguei a dar uma passada rápida pela tenda na qual Aril Brikha se apresentava, e o que pude ver foi uma multidão dançando muito techno.

A hora e meia do show dos Chemical Bros. passou rápido, e quando acabou ficou aquela desorientação e dúvida entre ver John Digweed, 2 Many DJs ou Tiefschwarz, que tocavam no mesmo horário. Acabei optando por ver Digweed, um dos DJs mais esperados pelo público local, que lotou demais a tenda. Ele fez um set lento e hipnótico oscilando entre techno e algumas faixas de progressivo. Abriu com uma intro de sua última produção, "Gridlock", seguida pelo já hit "Numbers" do Booka Shade, mantendo os BPMs baixos durante quase todo o set, só aumentando no final quando tocou um remix para Depeche Mode - "Behind the Wheel".

Depois foi hora de palco principal para conferir o final do set de Carl Cox. Empolgante e energético como sempre, Cox usou bastante seu famoso microfone e nem o frio de quase zero grau que fazia na madrugada portenha foi suficiente para acalmar os ânimos da multidão que se concentrava no palco principal. Teve um pouco de tudo, principalmente techno e algumas coisas de eletro-house, como Mason - "Exceeder". Terminado o set, era difícil ter disposição para caminhar até a Cream Arena para ouvir Zabiela, e pelo horário achei que não tinha clima para assistir o techno de Christian Smith. Como a Arena 1 era próxima à saída, encarei a última hora do set do espanhol Wally Lopez e não me arrependi. Wally fez um set funkeado e empolgante, perfeito para mandar o povo pra casa com aquele sorriso estampado no rosto.

SALDO FINAL
LCD Soundsystem
LCD Soundsystem
A conclusão é praticamente o mesmo das outras edições do Creamfields Buenos Aires: o sistema de som do palco principal e das tendas estava alto, potente e redondo, e a empolgação do público argentino continua sendo um dos principais atrativos do evento. Havia muitas filas nos bares, já que todo caixa tinha que entregar as notas mais altas para pessoas que lentamente verificavam a sua autenticidade, mas no geral a organização foi boa. Talvez os maiores equívocos foram aproximar algumas tendas e concentrar as atrações preferidas do público na Cream Arena, que apesar de ser a maior, não comportou todo mundo que quis conferir as atrações. E além disso, o frio terrível que surpreendeu a todos e chegou a quase 5ºC na manha de domingo.

Dentro de uma proposta sem novidades, o Creamfields Buenos Aires mostra vigor exatamente por ser um festival honesto a seus propósitos: reunir o maior número de pessoas para dançar ao som de bons DJs. Pensando simples, não é difícil ver que sem truques (como dividir um festival em duas noites ou insistir em locais rodeados de concreto) é possível fazer um evento que, apesar de nem um pouco inovador, é capaz de proporcionar diversão com qualidade para um grande público.

Fica a impressão de como na Argentina música eletrônica é coisa séria, e vale lembrar do poema no qual o espanhol Frederico Garcia Lorca já em 1933 advertia: "Buenos Aires tem algo de vivo e pessoal. Algo cheio de dramáticas batidas, algo inconfundível e original em meio a suas mil raças que atrai o viajante e o fascina". Dificil encontrar palavras mais adequadas que estas.

Fotos: Paulo Joliv

João Anzolin
João Anzolin
twitter.com/joaoanzolin
comentários
15 comentários
caetano
caetano(18.11.07)
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2 ano que vou e com certeza ano que vem estarei la novamente...... melhor festa, nem tem com o que comparar........
g.@.w
g.@.w(14.11.07)
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Nossa, ngm falou do Speed Bar...galera mais jovem, vários LCD's, akela orloff (qdo muito!) + speed a 15 pesos foi trash! O VIP bombou de uma hora pra outra, apesar de abrir bem tarde, umas 22 no mínimo. Nem me lembro dos djs mas uma infra digna de Ibiza, muito confortável e a galera show...2014! 2014! ahuahuauha Concordo com a Bru da galera sem idade para fritar, mas nada diferente do Brasil, bem mais sussa que Europa, enfim. Ponto negativo para a PFA na entrada do autódromo, além de ser inseguro pacas aquele lugar, se eu quisesse entrar com varios E's num maço de cigarro e uma arma escondida, seria piece of cake. O taxista da ida já havia me alertado sobre a dificuldade de talvez arrumar um taxi naquela região + possíveis assaltos, por isso, saí um pouco antes de amanhecer. Outro ponto negativo foi a hora q começou a venda das bebidas, demorou uma cara, cheguei lá cedo e justo no momento do início da venda, começa a chover...lixo. Anyways, coisas secundárias, em suma: uma PUTA BALADA
Bru Fontes
Bru Fontes(14.11.07)
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dubfire e digweed arregaraçam!
amanheci com carl cox! valeu a pena encarar o frio.
Bru Fontes
Bru Fontes(14.11.07)
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público variado..muita moçada, gente mais velha, molecada tbe..rs.Foi um tanto engraçado. Cena tranquila por um lado, sem confusões. Mas pelo número de pessoas nesse evento, inevitável empurrões, uns bebâdos sem nocão e mta gente frita por metro quadrado.Pessoal novo...uma pena. Muita. Muita mesmo. Os argentinos não respieitam muito as mulheres, caem matando em cima mesmo, sem dó e sem critérios, mesmo acompanhada.A cream arena era a mais impossível de transitar... estava lotadaça, o frio cortante expulsou mta gente do main stage, na hora do carl cox. Comecei a saga com Mark farina, depois spitfire e na sequência chemical. Chemical brothers: inesquecível! Passei na cream arena e curti um pouco do Aril brikha ( fodasso!!) e voltei pro main stage.
Aí foi: Carl cox direto, lá frente e foda-se o frio!!! muito bom, puta presença de palco, interagindo com a galera, povo super animado.Perfeito! Entre um "intervalo" e outro, fui checar dubfire, digweed, wally lopez e zabiela.
g.@.w
g.@.w(14.11.07)
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huahauhua tenho um azar com Bs.As, em julho qdo eu piso no lugar, cai neve depois de uns 90 anos, agora, depois de uma tarde ensolarada maravilhosa no autódromo, me cai uma chuva e temperatura no 0 graus! Acabei vendo pouca coisa...montei um puta line-up animal, tipo maratona do techno, mas akele Creamfields VIP Club, todo quentinho, com a recepetividade das porteñas...sinceramente, SKOL Beats vira balada de periferia!