Um teto de zinco, um bar sem filas e dois pilares de caixas de som eram apenas algumas das coisas no grande espaço destinado a área "indie" do evento, cheias de show de gente grande. A tenda abrigou destaques do dance punk mundial e apesar do som instável em alguns lugares da área, abrigou boas atrações e foi o palco mais pontual de toda a noite.
DESTAQUE NACIONAL: LUCY AND THE POPSONICSUma banda menos potente que esse casal brasiliense não agüentaria o tranco de estrear o palco do Indie stage. O festival começou morno, quase que sem público, e foi graças ao electro rock da banda do panda que os primeiros pulos surgiram.

O som do palco favoreceu bem a dupla, as bases pré-programadas soaram ideais nas caixas de som do festival. Os riffs de guitarra fortes e altos acompanhados do vocal gritado de Lucy e de seu baixo pulsante foram a definição perfeita do estilo que representam durante todos os trinta minutos de apresentação.
TOKYO POLICE CLUBUma coisa precisa ser dita sobre o Tokyo Police Club antes de começar a resenha de seu show: A banda é muito recente, eles possuem apenas 12 músicas lançadas; e isso contando os b-sides dos dois últimos singles.

Ainda de dia e com a tenda meio cheia, os candenses entraram ovacionados pelo público como grandes estrelas. No final de cada música, seu rock de garagem arrastado, apoiado em teclados bonito era aplaudido com vontade - uma pena que a seleção das músicas começou a frear e esfriar. Ainda assim foi um show competente que deverá melhorar quando a banda compor e testar novas músicas.
Devo? Nunca ouvi falar...

DATAROCK: RIFFS E BITS INCANSÁVEISUm sintetizador agachado, bateria, dois backing vocals e um vocalista formavam a opereta vermelha do show da dupla norueguesa Datarock, segunda atração internacional do Indie Stage. Com dois, vá lá, três hits, a banda mostrou porque, apesar de relativamente desconhecida, tem o direito de se gabar de já ter feito mais de 3000 shows.
É justamente no palco o forte de uma banda que resume bem o que jovens roqueiros de boa-vontade alternativa têm como referência para construir seu som: new wave e obscuridades Depeche Mode, Ramones, Metallica e exagerada gritaria metal e algum grunge, como a "Bulldozer", clima de hino em menos de dois minutos e um arpejo só, rápido e letal. E o clima rockzinho cool-balada-boa de "Nightflight to Uranus"? De novo, semelhanças com Klaxons não são mera coincidência.
O primeiro abraço ao público veio com "Computer Camp Love" e seus refrões nhénhénhé com jeitão Klaxons, caixa da bateria como norteador de um tum tum tum e um gostoso sotaque norueguês, perceptível no fafafá de outro sucesso, "Fa Fa Fa", que ao vivo vira fafáfafa (um acento muda tudo), e esquentou tanto o palco que acabou em moshe do baterista - algo inédito não? o baterista se jogar? - e um encerramento epiléptico com um cover de "(I've Had) The Time of Your Life", hit supremo de Jennifer Warnes para o filme
Dirty Dancing, algo que o We Are Scientists fez parecido no Nokia Trends de 2006, quando abriu seu show com cover de (ui) Phil Collins.
CANSEI DE SER SEXYExistia, sim, um clima de "o CSS precisa provar aos brasileiros porque eles ficaram famosos lá fora". Os veículos da mídia comparavam ao caos da apresentação do Tim Festival 2004, os integrantes se diziam preocupados com a cobrança geral e os fãs queriam saber o que mudou desde 18 meses atrás - data da última apresentação em solo nacional.
Parecia que eles não conseguiam mais esperar para subir no palco e fazer o melhor que eles pudessem. Três minutos antes do previsto eles entraram ao som de "Patins". Lovefoxxx, usando sua famosa segunda pele brilhante, discutia o fim da relação com Adriano Cintra. O som estava meio embolado no Indie Stage, os graves mais altos do que o necessário e a voz do baterista mal aparecendo. O público fiel deixava a banda mais confortável, TODAS as músicas foram cantadas pelo coral armado sob a tenda de zinco.
E o nervosismo se transformou em festa e veio "Alala" com sua guitarra rasgada e sintetizador sujo, "a canção triste", como a vocalista mesmo definiu "Fuck Off Is Not The Only Thing You Have To Show", uma música nova, a "The Beautiful Song" e aquela "música doida do verão" ("Meeting Paris Hilton"); no lugar do nome da herdeira entrou um "São Paulo é um muito quente".
Lovefoxxx tirou a roupa e mostrou outra segunda pele colorida, com um rosto pintado de fazer inveja à Björk ela se contorceu, pulou, dançou com seus trejeitos e fazia piadas internas sobre querer ver a Xuxa no domingo, engolindo o gás hélio para fazer o rap da infantilóide "I Wanna Be Your J-lo", prendendo a atenção com sua irradiante apresentação.
Para encerrar o show eles escolheram "Let's Make Love and Listen Death From Above", o maior hit do grupo. A temperatura deve ter subido pelo menos 5º graus nesse momento. Era o Cansei se mostrando de verdade e digno do hype construído lá fora. Talvez por isso eles não tocaram a faixa "CSS Sux": essa fase irônica que servia para justificar a falta de capacidade já passou. O Cansei é uma banda de verdade agora e, diga-se de passagem, eles são uma banda incrível.
THE RAPTURE E O FATOR DANÇANTE
Incrível como a idéia de banda, de multi-instrumentação é mais elástica e versátil quando uma banda de rock toca dance music. Palminhas animam um compasso mais monótono da bateria, o cowbell balançando guitarrinhas suspensas por dois vocalistas que se esgoelavam mais alto do que o reverb do Indie Stage, sábado. Eis o The Rapture.
Desde 2003, quando eles fizeram o mundo levar a sério que música punk, estacionada no marasmo desde o quê? Offspring?, o Rapture angariou fãs carinhosos que remetem esta e aquela época, o vocal de Luke Jenner sempre na dicotomia vida noturna-corações confusos, e um clima DFA, quase um "neo-Embalos de Sábado a Noite".
Enquanto o Rapture tocava "House of Jealous Lovers" e o Devo lá fora sintetizava "Whip It", São Paulo recebia um microcosmo musical oriundo da mesma raíz onde dançar foi uma expressão de liberdade: sex pistols, Joy Division, New Order, acid house, raves, techno, house, anos 2000 e pow - mais um pós-punk energético criador de hinos. Ouvir Rapture tocando "House Of..." é como ver Madonna ao vivo com "Express Yourself" e Rolling Stones incorporando "(I Can't Get No) Satisfaction".
Mas o melhor é que eles destruíram mitos e essa não foi a óbvia melhor música do show - o encerramento com uma versão extendida de "Olio" que rendeu um bis que parecia quase jam sessions de club de jazz dos anos 50, aquelas cenas bonitas das pessoas dançando sem se importar com a época ou contexto social. Ah, se as casas de apostas se importassem para isso elas teriam um forte nome para melhor show do ano.
LAYO & BUSHWACKA!: SURPRESA NO FINALNo telão, a boa nova: uma festa rolaria ao fim do festival no Indie Stage para comemorar o sucesso do festival. Incubidos da missão, Layo e Buschwacka! comandaram sozinhos, um de cada vez, uma tarefa que foi até quase 04h da manhã: fritar num progressivo hipnótico e bombator o palco coberto.

Os sets apostaram muito na fórmula de longas acelerações de bases hipnóticas, minimalistas com inesperados abruptos de breaks e batidões. Do trance, a influência maluca de sons dispersos se auto-consumindo, se fagocitando em blips, nhééeins, tóins e onomatopéias que criavam um big bang 4x4 gigantesco, que pesava na cabeça de quem não dança ou como zumbi, ou num acelerado passinho. Beats para as massas: foi, definitivamente, uma boa surpresa para um festival teoricamente indie rocker.
(Participaram da cobertura Marcus Vinícius Brasil, Jade Gola e Raphael Caffarena). Fotos: Alberto Boni