Com shows históricos de Devo e The Rapture, horários rigidamente pontuais e boa locação, o Planeta Terra é sério candidato a melhor festival do ano em sua primeira edição grandiosa.
ESTRUTURAPerto dos problemas que festivais anteriores apresentaram (no-show de headliners, roubos, filas, atrasos) o estreante realmente fez bonito. O local, um terreno de antigas fábricas no final da Marginal Pinheiros, foi bem ocupado por três palcos diferentes e bastante espaço para o público circular, tirar fotos que poderiam ser impressas e coladas pelas parades em formato lambe-lambe, comer pipocas e algodão-doce ou comprar cervejas e picolés pelos ambulantes que circulavam, sem compliações. Sem filas e comportando confortavelmente as cerca de 15.000 pessoas presentes (de acordo com a organização) o principal problema notado foi a má acústica do Indie Stage, que em alguns momentos prejudicou as apresentações do Datarock e do CSS, e a saída desse mesmo palco por um corredor lateral, que apesar de espaçoso, era único.
A festa começou às 17h30 e acabou cedo por volta das 03h, o que também foi motivo para críticas - muito bom o esquema de chegar de trem durante a tarde, mas não funciona depois da meia-noite e aí resta gastar os tubos em táxis ou se arrumar para pegar carona com amigos. Quem foi de carro, mesmo gastando R$30 por uma vaga, se deu bem: os estacionamento eram amplos, em espaços vizinhos à tal Villa do Morumbi e não teve drama da hora de sair.
Sem relatos de acidentes ou furtos e com cerca de trinta atendimentos no posto médico durante toda a noite (a maioria por problemas como dor-de-cabeça ou enjôos) e sem a tradional parafernália de marketing, que apesar de intenso no palco e no laranja em todos os cantos, foi suave e prevaleceu a estrutura da antiga fábrica
O foco foi, então, a música, como tem que ser. Público e bandas estavam inspirados, a vinda tardia de um Devo ainda em plena forma, o encerramento
Dirty Dancing do Datarock, o fiel público do CSS cantando junto cada letra, a catarse dance-rock do Rapture, a bebedeira da Lily Allen no palco, tudo isso fez a noite ficar entre as mais legais deste ano.
O Devo que me perdoe, mas Vitalic é fundamental
Desafiado pelo Planeta Terra a escolher entre ele e o Devo - como se duas atrações dessas fossem corriqueiras por aqui - escolhi o francês. Não me arrependi.
Se eu tivesse de escolher uma palavra para definir o live de Vitalic, seria "reconfortante". Sim, reconfortante, porque serviu para lembrar que, numa pista, nada supera o techno. Nada mesmo. Depois de uns dois anos só ouvindo colherinha batendo, eu já estava com saudades de um gravão sacudindo o peito. Deu até flashbacks de algumas noites memoráveis - Mau Mau no Skol, Liebing em Arujabel, Varela na Loca...
Vitalic é um monstro. Mas é um monstro gentil, com um pé no pop. Esse é o segredo: todas as suas faixas, mesmo as mais rápidas, têm um toque "disco", uma sensibilidade pop que o destaca da aspereza do EBM. Vitalic faz discoteca industrial. Ele é o filho bastardo de Giorgio Moroder com o Nitzer Ebb. Mais importante de tudo, o francês faz música que é dele e de mais ninguém. Você ouve trinta segundos e sabe de onde veio. E isso é cada vez mais raro.
Como sempre, o live termina cedo e de repente. Dura menos de uma hora. Ele tocou "My Friend Dario", "La Rock" e "Bells", mas esqueceu "You Prefer Cocaine", "Juliet India" e "You Are My High". Isso é que é talento: as músicas que ele deixa de fora do set são melhores do que os hits de meio mundo.
Vitalic tem um dom raro: faz música eletrônica para cantar junto. Não é à toa que até indies ortodoxos e roqueiros de carteirinha têm se convertido. Se fosse o careca naquele palcão em vez da Lily Allen ou do Kasabian, tinha gente lá até agora.
(André Barcinski)
VITALIC FOI DESTAQUE DO DJ STAGEO festival era composto pelos dois palcos para bandas - Main e Indie Stage - e mais uma tenda menor, lembrando em alguns momentos as pequenas tendas dos primeiros Skol Beats, onde rolaram as apresentações dos DJs.
Renato Ratier abriu a noite para um público meio variando, de danças esquisitas, mas não demorou para a pista começar a esquentar. Na apresentação do Jon Carter, que teve até um momento kuduro, a pista respondia bem. Mas foi só com o show do francês Vitalic que a coisa realmente pegou fogo. Querido do público techno/electro brasileiro, Pascal Arbez-Nicolas tocou os hits que a audiência esperava - "My Friend Dario", "La Rock" - junto com homenagens a outros sons (só eu ouvi "20hz" do Capricorn ali?) e muita distorção com momentos tirados do álbum mais recente (
V Live) mas nunca apresentados aqui.
Quem já viu o show do Vitalic sabe o que esperar, mas mesmo assim a reação do público foi acima de qualquer expectativa: quem chegou na hora de "La Rock", por exemplo, viu pessoas ensandecidas, gente subindo nas grandes, pulos e socos no ar, debaixo de uma forte luz vermelha, estrobos e o som mais alto do festival. Após esperar pelo bis que não veio, o público foi expulso da tenda por uma versão de "Mas que Nada" do BEP. E pouca gente conseguiu ver os três shows do final: Devo, Rapture Vitalic, já que as apresentações eram simultâneas, mas são escolhas que esperamos que mais festivais como esse nos permitam fazer.
COBERTURAS - PALCOS» MAIN STAGE» INDIE STAGE» MARATONA RRAURL @ PLANETA TERRA» EM TEMPO REAL NO SÁBADOfotos: Alberto Boni
Sem contar que eu tinha um motivo a mais para festejar e provavelmente não poderei ver o Nokia. :/
Então declaro: Terra eleito o melhor festival de 2007.
Fora que o local era super bacana e os shows nem se fala...