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Del Candeias - A Louca
Romance dentro de inferninho underground chove no molhado, apesar de bons parágrafos
31.10.07 19:55
É perto do impossível ler o romance A Louca e não fazer ligação com a boate da rua Frei Caneca. Apesar de escrito na última página que "qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência", o aviso não sustenta tamanha ingenuidade diante dos fatos narrados. Dessa forma, a observação fica mais parecida com uma medida cautelar. É que personagens de alguns capítulos são gente real, conhecidos freqüentadores do clube quase homônimo. Da mesma maneira que é idêntica a arquitetura do lugar descrito no livro e a da boate paulistana.

Todo o resto é a obra de ficção do autor Del Candeias, que se faz protagonista do próprio romance para contar, em primeira pessoa, a experiência de um sujeito chamado Del ao freqüentar um inferninho chamado "Louca".

O personagem Del é um homem heterossexual que gostar de beber e se divertir. Certo domingo ele vai à famigerada "Louca". Em companhia de alguns amigos, paquera mulheres, é seduzido por travestis e, de maneira tão galopante quanto sua sexualidade vai se abrindo, também cresce seu desejo de freqüentar aquele lugar. Por fim, entristece-se com desilusões sentimentais, mas torna-se, aparentemente, mais confortável com as próprias taras.

Nesse caminho aparecem o DJ Pomba, o host Ricky Levy, a garota Natália, o jovem Ambooleg e até a cantora do CSS Love Foxx (cujo nome fora impresso em caixa alta na passagem que aparece no livro). Figuras tão familiares como as referências da história ao mundo do blog e do fotolog. Os diálogos, aliás, escritos como em script de teatro - separados por nome e dois pontos - parecem conversa de MSN.

UNDERGROUND MAINSTREAM
Não fosse por alguns truques muito manjados e o escopo do assunto ter pouco charme, o livro não seria tão médio. Del Candeias domina a linguagem, é bem humorado e tem poder nas descrições, porém, falta um pouco de condução para um roteiro de quase 200 páginas. Ao passo que a história avança e o personagem descobre cantos escuros, prazeres sexuais e o consumo de cocaína, a leitura não rende mais "graça" depois da narrativa do primeiro travesti e da primeira carreira de pó. É como se uma crônica curta fosse arrastada numa coleção de doze volumes. Aos que conhecem o mundo underground o livro chove no molhado.

De todo modo, há bons parágrafos. É um prazer a anti-defesa que Del faz do filme Cidade dos Sonhos numa conversa com outro personagem. Também é ótimo quando escracha o óbvio e "se recusa a abrir um presente cujo embrulho permite deduzir o que ele contém". Tal qual é bom o trecho que pensa em recorrer de multas pois, bêbado, não poderia estar atento às placas. Todas passagens pungentes igual na vez que dita que "a malícia das drogas está justamente na ausência".

Contudo, faz corar de constrangimento o trecho em que se dirige ao leitor passando uma bronca, como se comunicasse em tempo real, além-livro. Um texto tão pouco convincente como são as dez páginas do quinto capítulo com erros grosseiros de digitação. Naquela instante do romance, Del estaria sob efeito de cocaína e os erros seriam alusão ao seu estado.

Pode ser que o livro interesse mais a quem pouco conhece de uma boate underground. Perto do final, Del compra um filme pornográfico e o atendente da banca de jornal lhe trata melhor porque o filme escolhido é com travestis. Pois essa é uma boa comparação com o efeito que a leitura de A Louca pode surtir para algumas pessoas. O estranho, antes de tudo, fascina um pouco.

NOTA: 2.5
ANO: 2007
EDITORA: Dix Editorial

Danilo Poveza
Danilo Poveza
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