Ruy Castro dá aula de escrever sobre música
Tempestade de Ritmos traz muito jazz e música brasileira
23.10.07 21:25
Ruy Castro é um craque do jornalismo cultural brasileiro. Ele já escreveu biografias primorosas de personagens fundamentais como Carmen Miranda, Garrincha e Nelson Rodrigues, já destrinchou a bossa nova até os mínimos fiapos em Chega de Saudade, compilou uma divertidíssima "enciclopédia" sobre Ipanema e, depois de anos rabiscando no Estado de S. Paulo, entrou há pouco para o time de articulistas da página dois da Folha de S. Paulo. Lançada há pouco pela Companhia das Letras, esta coletânea traz artigos que vão de 1978 a 2006.
O texto de Ruy é elegante, solto e balança bem entre informações mais técnicas e os aspectos humanos e cotidianos dos movimentos e personagens que aborda. O que significa que ele consegue prender a atenção de quase todo mundo, do especialista ao novato.
Essa compilação de textos seus publicados em lugares como Folha, Estado, Istoé e Veja (reescritos e reeditados especialmente para o livro) demonstra isso perfeitamente. Tratando principalmente de jazz, gênero sobre o qual sou assumidamente ignorante, e música brasileira, que conheço mais, mas também não sou expert, a escrita de Ruy conseguiu prender minha leitura fácil, fácil.
De um lado, tem histórias como a de que Louis Armstrong aprendeu a tocar trompete no reformatório, para onde foi mandado aos 12 anos por atirar para cima com um revólver 38. Sem falar que era íntimo de prostitutas ("como sua mãe"), bêbados, drogados e mendigos de Nova Orleans. Já no genialmente intitulado "Para que enxergar quando se é Ray Charles?" ele conta que o maestro do R&B e do soul, que todo mundo sabe que é cego, sabia guiar carro, moto e bicicleta. Ele só precisava de alguém acompanhando no banco de trás, apertando seu ombro direito ou esquerdo para avisar que era hora de virar o volante.
Ao mesmo tempo, Ruy enriquece nossas perspectivas com suas opiniões bem-fundamentadas sobre porque o jazz e o blues não são, nem nunca foram, músicas "puras" ou o preconceito invertido que diz que negros tem mais "dom natural" para jazz do que brancos. Outras aulinhas de história obrigatórias incluem um capítulo sobre Alex Steinweiss, o cara que inventou a capa de disco, e outro sobre o surgimento dos filmes falados. Some a isso, informações detalhadas sobre filmes, músicas, álbuns e artistas e você tem um pacote de escrita musical... quase perfeita.
Sim, quase... há uma ressalva a fazer, apesar de ser mais uma questão de gosto. Ruy detesta música moderna, pop, rock (nem quero imaginar o que ele pensaria do minimal techno) e, sempre que pode, dá uma varetada na cabeça dos estilos "adolescentes", mesmo que não tenha muito a ver com o assunto que ele está comentando. Fiquei me perguntando: do que foi gravado nos últimos 40 anos do que será que ele gosta? (ele também não gosta de "modernices" e fusões no jazz, saudando em um artigo um retorno aos sons clássicos que rolou nos anos 80)
Ainda assim, só me resta chover no molhado ao resumir Tempestade de Ritmos: Ruy Castro é professor, e dos melhores.