Dizzee Rascal - Maths and English
O rapper britânico agora quer conhecer o mundo fora do gueto
23.08.07 17:55
O grime, o estilo rústico de MCs ligado ao UK garage, pelo jeito, ficou pequeno para Dizzee Rascal. Este rapper do leste de Londres, que trocou os pequenos furtos da adolescência pela produção de som, incentivado por um professor, demorou dois discos para ganhar os holofotes: um inaugurou o grime (Boy in da Corner, de 2003) e o outro veio marcar território (Showtime, de 2004, que são as realizações da estréia ao cubo). Os três anos que separam Showtime de Maths and English, sua mais nova ogiva de baixas freqüências e rimas eloqüentes e penetrantes, forneceram a perspectiva necessária para que Rascal buscasse por novas abordagens.
Maths and English, para começo de conversa, tem apenas uns cincos grimes, a maioria deles flertando com batidas mais retilíneas e menos quebradiças, mas ainda assim focados nas características do estilo. "Where's da G's?" é um deles e dos mais pertinentes: Rascal recebe um trio de rappers de Houston, lá do outro lado do Atlântico, com um grime executado à perfeição, de batidas viçosas, hipnóticas, cheirando a rua e paranóia. O UGK, como são conhecidos os três rappers americanos, mandam um desconcertante recado aos figuras que, quando a chapa esquenta, fingem que não é com eles - os gangstas de balada. Mas sua presença em Maths and English é melhor observada como um sintoma já que este é o disco mais americanizado de Rascal.
Na Europa, os críticos já berraram. A análise é verdadeira e pôde ser sentida de cara no single "Sirens", que recruta esquadrões de guitarras pesadas e sirenes alarmantes bombardeando uma estrutura sonora dançante e pesada. Chegou a ser comparado com... Korn! Mas nada mais absurdo e inverossímil. Rascal não está fazendo rap americano, nem britânico, muito menos flertando com o rock: está ganhando uma voz e fechando o foco no discurso e reciclando influências na estética - sua atitude evoca até teores irônicos, uma vez que o rap é uma prática autenticamente americana. Essa auto-medicação dá o tom com exatidão em "Pussyole (Old Skool)", o segundo single do disco, um típico rap com samples da velha guarda americana e graves intermitentes e poderosos.
Quanto ao discurso (rap tem dessas...), a faixa de introdução, "World Outside", é lapidar. "Há um mundo fora do gueto e eu quero conhecê-lo", diz o refrão. Este mundo se abre num disco mais dançante, com rimas menos frenéticas, mais inteligível e versátil, que até cede um espacinho bem sacado para o pop (Lily Allen, sapeca, em "Wannabe") e o rock (Alex Turner, vocal do Arctic Monkeys, na boa "Temptation"). Rascal quer fugir do gueto - de todos eles: geográfico, artístico, pessoal. E, para isso, usa um texto lírico que se equilibra entre o poético e o mundano, entre o humor e o carão, a ironia e a confissão, como se arrancado direto do grafite de um muro: a vida urbana, o "inner city life", em suma.
Com edição irrepreensível, as 14 faixas deste álbum correm e respeitam os limites da paciência do ouvinte e da própria manifestação artística do grime - que, como o rap, dá o recado e não espera réplica. Apenas uma delas borra a harmonia notívaga do disco: "Da Feelin", produzida pelo veterano Shy FX, é um infeliz exercício de estilo que traz bateria jungle trepidando debaixo de samples que remetem ao drum'n'bass dos anos 90, quando o estilo abandonou a crueza do início. Ao contrário de Mike "The Streets" Skinner, com seu texto insosso, Rascal é contundente e sua voz é ativa. Páreo apenas para o também britânico Wiley, ex-amigo e ex-parceiro de Rascal, que acaba de lançar sua estréia.