Sabres of Paradise - Sabresonic
Primeiro álbum do essencial projeto de Andrew Weatherall funde dub, ambient, techno e trance para criar trilha pós-balada
02.05.07 20:40
Andrew Weatherall já abriria a última década do século vinte em bons prados, com remixes bem sucedidos para Happy Mondays, New Order, Death in Vegas e My Bloody Valentine no currículo e funcionando em pistas como as do Hacienda e do Shoom. Gary Burns e Sergio "Jagz Kooner" Rodrigues, os outros Sabres do triângulo, idem: como tecladista e engenheiro de som do quinteto The Aloof, respectivamente, montavam faixas posteriormente muy requisitadas por coletâneas de vibe baleárica ("Never Get Out the Boat" e "On a Mission" são exemplos), ajudando a desenhar os fundamentos do que hoje conhecemos como progressive house.
Mas, dados justos créditos a Weatherall pela produção da pedra fundamental Screamadelica, do Primal Scream, foi mesmo Sabresonic, de outubro de 1993 virada de 180 graus do entusiasmo clubber em direção à reflexão pós-techno o álbum a fincar o nome dos rapazes na calçada da fama da eletrônica britânica.
Não é difícil captar a razão para o feito. O disco é testemunho chave da efervescência criativa do início dos 1990 quando o assunto é música eletrônica. Na Warp, gravadora que deu luz ao Sabresonic, o histórico recente era de singles e mais singles de bleep techno, pelas mãos de gente como Forgemasters, Sweet Exorcist, Nightmares On Wax e LFO ("Still Fighting", que abre o álbum dos Sabres, ascende desta linha).
Pelas vizinhanças, havia o Jumpin' and Pumpin', casa do The Future Sound of London. Em Detroit, grandes como "Revolution for Change" e "Galaxy 2 Galaxy", da turma do Underground Resistance, já estavam na praça. Na Bélgica, o R&S era radar para o que havia de mais vanguardista e dançante na época. Enquanto isso, o Tresor fazia as honras em Berlim, vide as aparições de gente como Eddie Flashin' Fowlkes, Juan Atkins e Blake Baxter no selo. E havia a FFRR e seu Orbital de "Halcyon", "Lush" e "Chime", e aconteciam as "Little Fluffy Clouds" do The Orb. A house lisérgica e de atmosferas românticas como a de Mr. Fingers já era familiar a Chicago e aos principais clubes do circuito acid inglês.
Clubes nos quais Weatherall declarou, em uma entrevista de 1996 à revista Wire, ter descoberto "o ecstasy e a acid house" o que, para ele, àquela altura um ávido fã de Throbbing Gristle (grupo pioneiro de industrial), representou uma severa mudança. "Para ser honesto, foi um bom alívio", declarou ele na ocasião. Pinceladas de todas estas influências convergem em Sabresonic. Daí tal contextualização ser fundamental; assim se justifica o status tão marcante do disco.
A repercussão de Sabresonic foi alavancada para valer, na verdade, com o inesquecível remix de 15 minutos de David Holmes para "Smokebelch II", híbrido mestre de trance e acid house que faz funcionar qualquer chill-out decadente. Tal versão, apesar de lançada no mesmo ano, não faz parte do álbum. Este inclui a versão "beatless" (sem batidas) da música, ponto alto do Tesouro em questão e vinculada por alguns ao então incipiente trip-hop.
Sabresonic, portanto, não é hour concours de pistas de dança mas, ao experimentar com o diálogo entre o bleep, a acid house, o trance e o ambient (paralelo para alguns dos melhores momentos que Future Sound of London e Orbital já registraram, vide a faixa "Clock Factory" e a própria "Smokebelch II"), merece fazer parte do pódio entre as melhores traduções de "blue Mondays" pós-euforia Madchester. Assim, a inspiração dance está lá, mas é discreta, envolta por um humor gótico e subterrâneo. Sabresonic mostra como os sabres colocaram a teste as convenções do techno o que, através de quase duas décadas, o elenco da Warp tem feito com maestria e impacto.
Após o sucesso de Sabresonic, que emplacou na lista dos 40 melhores álbuns do semanário Melody Maker em 1993, o trio lançou mais um álbum de estúdio inédito, o dubby Haunted Dancehall (cuja inspiração jamaicana já tinha sido inaugurada pela faixa "R.S.D.", em Sabresonic). Mas em 1995 eles já tinham largado mão dos sabres, partindo para trilhas separadas.
diziam que isso era trance na epoca.
Excelente albúm e resenha ainda melhor com muitos detalhes!
:]