Amy Winehouse - Back to Black
Inglesa revisita soul e jazz clássico e impressiona geral
04.04.07 19:40
Aqui no QG todo mundo já virou fã. Afinal, a mulher é pé na jaca profissional. Como diz a letra de "Rehab", seu maior sucesso: "Me tentaram levar para a rehab [clínica de reabilitação] e eu falei não, não, não." Como que para provar que não é de papo furado, outro dia ela cancelou uns shows porque caiu de uma escada depois de encher a cara, quebrando os dentes da frente.
Mas o que a gente mais gosta é porque Amy Winehouse pertence a essa categoria rara e exclusiva de pessoas que, por mais doidonas que sejam, são absurdamente talentosas e competentes no que fazem (nada melhor do que isso para irritar caretões reaças de talento medíocre, não?). E agora, a londrina judia, branquela e tatuada (visualmente, um cruzamento genético de Cher com PJ Harvey) arrebentou a porta da frente do showbiz americano e cravou seu segundo álbum -- uma empolgante coleção abrangendo soul, R&B e jazz clássico -- no sétimo lugar da parada dos mais vendidos dos EUA. Os americanos estão idolatrando Amy, que vem deixando queixos espalhados pelo chão com suas apresentações.
O que? Na terra onde nasceu uma linhagem que vai de Billie Holiday e Aretha Franklin a Sarah Vaughan e Macy Gray, é uma inglesinha destrambelhada que está dando uma aula de interpretação de música negra? Como é que é isso então?
A resposta é óbvia: Amy canta de verdade e resgata um jeito de cantar e gravar soul music que há muito tinha desaparecido do radar pop americano. Soul e R&B (e, até certo ponto, o jazz) há um bom tempo virou, em 90% dos casos, um som insípido, limpinho e comportado (aquilo que o amigo Jade Augusto Gola classificou de "bunda music"). Ração balanceada e sanitizada para as FMs, academias e shoppings. De vez em quando aparece alguma Macy Gray ou Lauryn Hill ou Timbaland ou Pharrell Williams para temperar ou inovar nessa seara mas a realidade é uma vasta paisagem de filhotas de Whitney Houston.e Toni Braxton (as minas) ou de cópias de Usher e D'Angelo (os manos). Em faixas como "He Can Only Hold Her" e "Tears Dry On Their Own", Amy Winehouse lembra um tempo onde as gravações de soul exalavam suor, sexo, sujeira, desprendimento e emoção a flor da pele.
Está certo que o som de Amy Winehouse é puramente retrô, com o produtor Mark Ronson (o mesmo de Lily Allen) usando sem pudor referências da sonoridade dos dois grandes selos de soul dos anos 60, a Motown (por exemplo, a faixa-título do álbum de Amy começa igual a "Baby Love", de Diana Ross e Supremes) e a Stax ("You Know I'm No Good" tem uma seção rítmica que soa como Booker T & the MGs). Mas aí é que está a graça da brincadeira: com a black music atual sufocada por tantos clichês e tiques de super-produção e super-polimento, o retrô de Amy soa como uma rajada de ar fresco, um clarão de vivacidade em meio a tediosos vocalises e interpretações robotizadas.
E outra: com sua voz potente e versátil, com tons que vão de Billie Holiday a Etta James a Macy Gray, Amy Winehouse podia cantar um jingle de propaganda de cerveja que a gente ia gostar.
Pensando bem, é a cara dela.
Fodona!
eu até gostava de "you had me".