Air - Pocket Symphony
Nicolas Godin e Jean-Benoît Dunckel criam lamúrias e bossa japonesa eletrônica, mas não tão orgânica assim
03.04.07 12:40
Tem viagens que mexem com a vida de uma pessoa. Fato mais comum ainda quando se tratam de longínquos e exóticos roteiros como o Japão. Foi a terra do sol nascente que fisgou a dupla Nicolas Godin e JB Dunckel, mais conhecidos pela etérea alcunha Air.
Não só pela sutileza sonora do Koto e do Shamisen, tradicionais harpa e banjo-3-cordas do Japão, tão bem tocados por Godin em Pocket Symphony, recém-lançado último trabalho da banda. Mas também pela maneira quase zen, talvez oriental, que se percebe, depois de quase uma década de carreira, na maturidade desses artistas que dividem com a outra dupla Daft Punk o filé-mignon do electro-pop francês.
O quarto trabalho da banda (quinto, listada a trilha/álbum do filme As Virgens Suicidas) vira à esquerda na estrada pop-cancioneiro-assobio que a banda rumava em Talkie Walkie (2004) e vai parar num Air mais abstrato, de perfumes nipônicos, canções sussurradas e pianos, muitos pianos, a característica mais marcante. É uma trajetória desconexa que a banda vêm criando ao reverter expectativas. Em 2001, Nicolas e JB assustaram com o urbanóide e eletronicamente ácido 10,000 Hz Legend, um segundo filho intragável, resposta soturna ao boom cult de Moon Safari (1998), aquele de "Sexy Boy" e "Kelly Watch the Stars", o lado mais chic do saudoso "french touch".
JARVIS WHO?
Ouvidos sintéticos e ruidosos talvez não consigam digerir tantos pianos e tanta lamúria nos vocais. Jarvis Cocker chorando em "One Hell of a Party" seria uma estilingada no saco se Nicolas Godin não tivesse aprendido tão bem a tocar o tal Koto. Prefira a doce e amanteigada voz de Neil "The Divine Comedy" Hannon em "Somewhere Between Waking and Sleeping", baladinha em violino, violão e piano.
O Air alcançou um ponto tão sem afetação, tão infanto-sublime, que chega a ser assexuado, por vezes até arrastado, como algumas cenas de Maria Antonieta, de Sofia Coppola (do qual eles obviamente participaram da trilha). "The angels fight to own your photograph", poetiza a bucólica "Photograph". O piano mais animado de "Once Upon a Time" faz com que tudo seja menos inocente, mesmo que xilofones estourem estrelinhas, "I'm a little boy, you're a little girl"...
Mas guarde bocejos para os banjos e pianos das operetas "Lost Message", "Night Sight" e "Mayfair Song". Nicolas e JB não se tornaram uma cria de Jean-Michel Jarre com Kenny G: a perfeita fusão de sintetismos dos anos 70 com acordes lisérgicos ainda estão lá, com aqueles mesmos doces e animados vocais. Em "Napalm Love" algo que parece um motor velho rasga uma bolha gorda em descompasso com caixas quebradas, dando um efeito 4x4 reverso interessante. Perfeita para ser remixada, onde está Lindstrom, que antes de ser rei da space disco era um grande remixer?
E, enfim, tem a grande pérola de Pocket Symphony: "Mer du Japon". Epopéica, sentimental, um sopro francês em fade-in-fade-out com cara de hino eletrônico dos anos 90, resumindo bem as referências e as pretensões atuais da banda: ser um ícone das pistas às trilhas do cinema alternativo, de grandes apresentações em festivais europeus à rodas de violão.
Depois de ter estourado há dez anos no ápice de uma grande onda, depois de ter nutrido boas e prolíficas amizades com Sofia Coppola e Charlotte Gainsbourg, depois de cinco álbuns inclassificáveis de tantas classificações possíveis (retro-futurismo, ambient, música de elevador, acid ambient etc.), Nicolas e JB tem culhão para fazer o que bem entendem, inclusive aparecer com um álbum cheio de gemidos e pianos, que com certeza vão causar estranheza.
Mas eles sabem que o bom apreciador de sua música uma hora vai parar, ouvir do começo ao fim e simplesmente entender tudo. Esse é o espírito de Pocket Symphony.
não conhecia charlotte gainsoiureiborough (saco pra digitar) e viciando em "everything i cannot see" dá pra admirar como os caras realmente são produtores fodíssimos (na música eles tocam o baixo, guitarra e piano - a melhor coisa da faixa). a letra é do jarvis cocker, justamente o que canta na faixa mais chata do álbum
devia ter dado 3,5 estrelas
belo som pra acordar e também pra dormir.