Isolée - We are Monster
12.09.06 18:30
Rajko Muller vulgo Isolée é um dos poucos artistas que levaram o minimal às beiras da erudição. Beau Mot Plage foi hit house e Rest (2000) sua obra prima, mas We are Monster, segundo CD do alemão, foi recebido com certa sobrancelha levantada pela crítica, sedenta por novidades e novos hinos. Mesmo assim figurou em alguns top 10 de lançamentos em 2005.
We are Monster peca apenas por já não ser uma sonoridade nova, se é que isso pode ser considerado pecado. Começa com Pictureloved: teclados que não sabem se assustam ou se emocionam, gritos rasgados e base de órgão característica de Rajko. Amém! Schrapnell é exemplo, deveria ser usada como livro essencial para qualquer pessoa que quer aprender a fazer música. Pegue Beach Boys, jogue alguns violinos elétricos, uma batida abafada com levada pop até o ápice no melhor estilo Califórnia. E veio da Alemanha. Ah, o poder das máquinas. Kraftwerk, Anthony Rother, Isolée...
Enrico, já começa de sopetão. Ha-ha-ha-ha-ha... E não são risos, sim um "aaah" em cuts, uma viagem no sentido literal da palavra. Aí entra o tóin gordo, meio electro e depois uma batera pop. Ares de Matthew Herbert se ele fosse um clubber nóia. Perfeita combinação entre o groove e bases não-lineares. Enrico é o cara!
Aí você vai pra quarta faixa impressionado, achando que tem um ten-track-CD que vai mudar sua vida, tipo OK Computer do Radiohead e entra Mädchen Mit Hase. Bonita, soturna, mas nada que a Kompakt já não tenha feito melhor. A sensação prossegue, só que com mais cara de Isolée, em My Hi-Matic até desenbocar em Do Re Mi, clickhouse que teria sido tão louvada quanto Beau Mot Plage se tivesse sido lançada naquela época. Na sexta faixa a impressão de que Rajko abusa de samples cinematográficos, principalmente de filmes de terror e suspense, é cada vez mais certa.
Face B é Laurent Garnier, alguém diz pro Isolée? A entradinha a la Unreasonable Behaviour entrega na hora. Jelly Baby / Fish é o ápice criativo de Rajko na manipulação de vocais. Um electrohouse paradão, meio jamanta (com o perdão da expressão), mas que te pega pela cintura com o vocal "Je-je-lly-jelly fish...". Quem já jogou Mega Drive vai ouvir com gosto os mini samples e efeitinhos de bolha d'água, gritinhos e afins.
Today e Pillowtalk encerram o CD com uma certa lamúria. A primeira é indie rock com cara de Isolée: novamente as melodias soturnas, com som de laptop, só que agora em segundo plano. Aqui quem manda são os riffs, algumas vezes tocados in natura. A última é um house fino, a faixa mais linear do álbum. House sapatinho porém melancólico. É Rajko dando tchau por mais alguns anos: daqui um tempo ele volta e assusta meio mundo com outra genialidade feita por máquinas. E não se esqueça de ir além das três primeiras faixas, nem OK Computer você gostou de imediato do começo ao fim.