Deep Dish - George is On (Thrive Records)
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Deep Dish - George is On (Thrive Records)
22.02.06 01:45
Ali "Dubfire" Shirazinia e Sharam Tayebi, os integrantes do Deep Dish, são conhecidos mundialmente pelos seus sets e compilações que vão da house ao prog com uma criatividade espantosa. A fama dos caras é grande também nas colaboraçôes e remixes feitos com artistas do porte de Rolling Stones, Madonna, Pet Shop Boys, Justin Timberlake, Dido, Everything But the Girl, Janet Jackson, Paula Abdul e Depeche Mode. Agora, a dupla nascida no Irã e criada nos EUA quer conquistar de vez um espaço fixo no badalado roteiro de grandes produtores de música eletrônica, ocupado atualmente por gente como Royksöpp, Daft Punk, Air, Basement Jaxx, LCD Soundsystem, entre outros, que você com certeza já viu ou gostaria de ver em eventos como Skol Beats ou TIM Festival. Em julho do ano passado eles lançaram "George is On", segundo álbum de produções da dupla que ruma definitivamente ao pop eletrônico com boas surpresas, algumas decepções e talvez uma crise de identidade, já que a dupla parece ter escolhido o mainstream como atalho para um reconhecimento maior.

O Deep Dish ficou marcado no coração dos houseiros com "Junk Science" (1998), o primeiro álbum, deep e swingado, house fino de verdade. Aliás, house fino é uma alcunha, na verdade uma designação elogiosa dada pelos househeads, que hoje em dia é renegada por 8 entre 10 DJs de house. É daí que surgiu a famosa "The Future of the Future", faixa sexy feita em parceria com o Everything But the Girl. Mas Ali e Sharam sempre flertaram com a melodia e as trips do progressivo, quase trance. Sempre esteve presente, principalmente nos sets. As séries "Global Underground: Toronto" (2003) e os três volumes de "Yoshiesque" (1999, 2001 e 2003) são essenciais para entender a evolução musical da dupla.

"George is On" representa uma releitura pop de todas as versatilidades presentes nos decks e nos laptops da dupla. É daqueles álbuns que você já pensa em charts de música e listas da Mixmag, onde eles sempre marcaram presença. Os dois primeiros singles do álbum, "Flashdance" e "Say Hello", marcaram respectivamente as posições de número 3 e 14 da parada eletrônica britânica quando lançadas. "Flashdance" você com certeza já ouviu, tocou bastante ano passado. Tem base de riff que gruda na cabeça a la Fatboy Slim e vocais macios de Anousheh Khalili, uma espécie de neo-Chrisse Hynde, a vegetariana punk do Pretenders. "Say Hello" é o ápice do pop que um fã do Deep Dish poderia imaginar. BPM aceleradinho, que bomba com o vocal feminino agudo e misterioso. Seria um revival daquela onda de baba-trance de 1999? Uma observação mais mal-humorada (e perigosa) pode fazer você lembrar de Lasgo ou de qualquer outra banda da programação da Metrô...

O CD não é mixado, o que deixa "George is On" com mais cara de álbum dance ainda. Muito curioso em tempos de Madonna lançando álbuns com "faixas mixadas". Uma das surpresas foi perceber que até eles não resistiram ao synthzinho de um bom electro, por que não? "No Stopping for Nicotine" e "Everybody's Wearing my Head" são deliciosamente produzidas, tem riffs e dá pra virar fácil com Mylo e Tiga. É mais um gênero na salada iraniana: tem faixas em que você acaba discutindo a linha tênue entre prog e trance. É o caso de "Swallow Me" e "Sexy III". Além de "Say Hello", "Awake Enough" comprova que o pop da dupla é de fato meio baba. Mas confira, os clicks e póings são legais quando o vocal sai um pouco de cena: lembra "Under the Water", faixa famosa de 1999 feita em parceria entre o Deep Dish e Brother Brown.

As boas surpresas são duas: sem entrar na onda Global Deejays, que recriou com um jeitão Benny Bennassi os clássicos "The Sound of San Francisco" e "What a Feeling", Ali e Sharam desenterraram "Dreams", do Fleetwood Mac, com dignidade: jogaram uma base gorda com o pitch maior e chamaram Stevie Nicks, uma das vocalistas originais da banda, para cantar em cima. Imperdível. "Dub Shepherd" e "Bagels", essa última sem dúvida a melhor faixa do disco, trouxeram de volta um pouco do clima New York da house pop dos anos 90. Parece Todd Terry ou Armand Van Helden melhorado. Não tenha medo da quebradinha e do vocal sexy e se solte. "Bagels" é mais do que isso: é old school, é "Plastic Dreams" do Jaydee e tem barulhinhos que trazem imediatamente na memória o CDzinho branco "Surrender", do Chemical. Por mais que o Deep Dish agora seja mais pop do que nunca, mais prog do que nunca, é com faixas como "Bagels" que você sente uma paz no espírito com a certeza de que ainda tem gente grande fazendo house bom, de qualidade e, com o perdão da expressão, de que o Deep Dish é underground quando quer. Que seja assim nos sets da turnê que eles fazem no Brasil esse carnaval para promover o álbum.

Jade Augusto Gola
Jade Augusto Gola
Ilegal, imoral e engorda
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